A arte de Sérgio Ricardo

29 de Junho de 2020, por Matheus Rosa


Sérgio Ricardo, músico de sucesso nos anos 50 e 60 - com composições que auxiliaram na transição da bossa nova para a canção engajada, é também signatário de uma obra cinematográfica de valor e relevância para a constituição do cinema nacional. Assim como na sua música, os filmes de Sérgio Ricardo se caracterizam por um olhar preciso e realista sobre as mazelas cotidianas do povo imerso no subdesenvolvimento.

Sua contribuição de maior relevância é Esse Mundo é Meu (1964), longa que aparece na trajetória do cinema brasileiro como um dos exemplares mais bem acabados da tradição de cinema engajado que se apresentou durante os anos 60. Nesse filme se revelam também traços característicos da obra de Sérgio Ricardo, que combina uma capacidade de contar histórias a partir do olhar do cotidiano das classes oprimidas, rompendo com a hegemonia cinematográfica que se refugia no tratamento dos temas heróicos, espetaculares e fictícios sob uma perspectiva burguesa, com uma direção inteligente e livre - bem ao estilo cinema novo - cujo aspecto mais valoroso e de diferenciação é a utilização da música como um motor dinâmico do filme.

Em Esse Mundo é Meu, Sérgio Ricardo conta a história de dois trabalhadores: Pedro, interpretado pelo próprio Sérgio Ricardo, e Toninho, interpretado por Antônio Pitanga. Pedro é trabalhador metalúrgico, operário, que organiza os trabalhadores de sua fábrica por melhores condições de trabalho e de salário. Toninho é engraxate, trabalhador "autônomo", segundo os termos que hoje utilizaríamos, que sai todos os dias da favela para varrer a cidade do Rio de Janeiro em busca de trabalho.

Através do tratamento da trajetória dos dois trabalhadores, Sérgio Ricardo nos apresenta um olhar sobre a classe trabalhadora brasileira em sua generalidade, delineando suas mazelas, angústias, e suas visões sobre os possíveis caminhos para escapar de sua situação de exploração. Pedro representa o trabalhador com consciência, que reflete sobre sua situação e trabalha para a construção de uma superação coletiva de suas angústias. Toninho expressa o trabalhador imerso no fetiche da mercadoria, sem consciência de sua condição, que acaba limitado a vislumbrar possibilidades apenas numa perspectiva individual.

Ambos, a despeito de seus distintos graus de consciência, são tragados para o drama angustiante que é típico da condição dos trabalhadores imersos num regime de superexploração da força de trabalho. Esse drama se apresenta, principalmente, através da relação de ambos com as mulheres que amam. Luzia, companheira de Pedro, e Zuleika, pretendida por Toninho. É nas motivações interiores dessas relações que Sérgio Ricardo repousa os motivos propulsores das trajetórias dos personagens.

Com esses elementos, Sérgio Ricardo nos brindou com uma exposição inteligente e sensível sobre as condições da classe trabalhadora brasileira nos anos 60. É uma obra que representa um relevante retrato de sua época e que, justamente por sua correta percepção e profundidade, ainda se mantém como uma janela de compreensão para nossa vida no subdesenvolvimento.

* Esse texto é o primeiro de uma série de apresentações de diretores latino-americanos sob curadoria da coordenação do Circuito de Cinema Latino-americano e Caribenho Alí Primera do IELA, o CIRCULA. Com esses textos buscamos promover uma atividade provisória em substituição às nossas exibições, impossibilitadas pela pandemia e pelo necessário isolamento social, e preservar o principal objetivo do nosso cineclube: romper as barreiras da indústria cultural e dar visibilidade aos grandes artistas que construíram a beleza do nosso cinema latino-americano.

Filmografia de Sérgio Ricardo:

Menino da Calça Branca (1961);
Esse Mundo é Meu (1964);
Juliana do Amor Perdido (1968);
A Noite do Espantalho (1971);
Pé sem Chão (2014);
Bandeira de Retalhos (2018);

Enlace para o filme no Youtube. Veja aqui