A guerra cultural, a batalha de ideias
Texto: Rafael Cuevas Molina - Presidente AUNA-Costa Rica
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A fotografia como evidência
Há uma fotografia que é uma evidência: Delcy Rodríguez e Donald Trump, juntos, sorridentes, em Nova York. Podem-se construir, em torno dessa fotografia, centenas de relatos, elaborar explicações diplomáticas, táticas ou estratégicas, falar de pragmatismo, de relações de força, de negociação ou de necessidade política. Tudo isso poderá ser discutido. Mas há algo que permanece antes de qualquer relato: a fotografia é uma evidência e mostra uma cena concreta. E essa cena é difícil de conciliar com boa parte da tradição política da qual Delcy Rodríguez provém.
Porque há outra imagem do mesmo dia que completa a cena: Delcy Rodríguez aproximando-se de Pedro Sánchez enquanto ele fala ao telefone, esperando que ele termine para poder cumprimentá-lo. A imagem transmite algo difícil de conciliar com a potência da liderança histórica da Revolução Bolivariana: um anseio de aproximação, quase como um estudante que espera o outro largar o telefone para poder cumprimentá-lo; uma atitude muito distante da dignidade e da autoridade com as quais, certa vez, o chavismo se posicionou diante dos poderes do mundo. E, algumas horas depois, surge a fotografia com Trump. Duas imagens do mesmo dia que falam por si sós, porque uma coisa é a diplomacia e outra é a posição a partir da qual ela é exercida; uma coisa é negociar e outra é demonstrar subordinação. É o que se vê.
O que o chavismo representou um dia
E o que se vê dista muito daquele “vão se foder, ianques de merda” de Hugo Chávez. Dista muito daquele chavismo contestador que podia enfrentar o rei da Espanha, que podia confrontar publicamente os Estados Unidos e que construiu boa parte de sua identidade política em torno de uma ideia de soberania, dignidade e resistência diante do poder imperial. Havia ali uma potência política, uma capacidade de se posicionar diante do poder, uma forma de exercer a liderança que hoje é difícil encontrar nessas imagens.
Quando o relato ocupa o lugar da realidade
Vivemos, ao mesmo tempo, em um mundo distópico no qual a inteligência artificial, os avanços tecnológicos e os algoritmos muitas vezes nos levam a desconhecer a realidade ou a habitá-la a partir de uma perspectiva diferente daquilo que efetivamente se constata. Podemos construir relatos, discursos e universos inteiros em torno de uma cena até fazer com que o relato acabe ocupando o lugar da realidade. Enquanto os ricos do mundo falam em ir morar em Marte ou em colonizar outros planetas, talvez o maior debate que temos pela frente seja muito mais elementar: fazer com que os relatos e as correntes algorítmicas coincidam com a realidade.
Considerar que a realidade é algo diferente daquilo que se vê muitas vezes nos leva a transitar por ideias, utopias ou até mesmo posicionamentos políticos a partir de um lugar cada vez mais distante do que efetivamente ocorre. E talvez, hoje, um salto revolucionário seja conseguir fazer com que a realidade coincida com aquilo que é relatado ou narrado. As ideias, as utopias e os posicionamentos políticos precisam partir da realidade, e não de uma realidade construída para coincidir com aquilo em que precisamos acreditar. Quando o relato começa a ocupar o lugar dos fatos, deixamos de interpretar a realidade para começar a acomodá-la às nossas necessidades.
A potência está naquilo que se vê
Por isso, a potência está naquilo que se vê. E o que se vê não é apenas uma fotografia de Delcy Rodríguez e Donald Trump. Essa fotografia surge após uma intervenção militar norte-americana na Venezuela, após a captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores e depois de Trump ter reivindicado publicamente a operação. O que se vê é Delcy Rodríguez diante do homem que reivindica essa intervenção e que apresenta o resultado dela como uma vitória. E isso importa porque a fotografia não está flutuando no vazio: ela tem um contexto, envolve mortos, uma intervenção militar, um presidente venezuelano capturado, recursos estratégicos em discussão e um presidente norte-americano reivindicando o resultado dessa operação.
Neste momento, paradoxalmente e de forma surpreendente, surge toda um discurso épico de triunfo, de diplomacia da paz, uma grandiloquência em torno de uma suposta vitória. E o importante é dizer algo muito simples: a derrota não tem épica. Uma derrota pode ser apenas uma derrota. O que se pode discutir é como ela é enfrentada, que posição se adota diante dela e que dignidade se preserva quando as condições são adversas. Mas uma derrota não se transforma em vitória simplesmente porque construímos em torno dela um relato grandiloquente. A realidade preserva uma dimensão que o discurso não pode apagar. As palavras do vencedor
O que se vê é uma Delcy Rodríguez que tolera que Trump diga as barbaridades que disse. Trump falou da operação norte-americana na Venezuela em termos de vitória e de vencedor, reivindicou o uso da força e falou até mesmo dos benefícios que cabem ao vencedor. Isso é uma ofensa ignominiosa aos mortos — mortos que não são apenas venezuelanos, mas também cubanos, e, fundamentalmente, mortos em uma intervenção em território latino-americano. Esse contexto não desaparece só porque, depois, se constrói uma fotografia diplomática ou se encontra uma explicação estratégica para cada gesto.
Isso aconteceu. E é incompreensível que, depois, Delcy Rodríguez apareça em atitude vitoriosa, sorridente, diante dessa demonstração de poder e diante de quem mantém sob seu controle o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e Cilia Flores. Podemos discutir as razões da negociação, as relações de força, as necessidades táticas, as circunstâncias e as alternativas. Tudo isso faz parte da política e pode ser analisado. Mas há algo que precede todas essas explicações: o que aconteceu.
A tática e a coerência
E aí surge uma pergunta que não deveríamos evitar: qual é a diferença entre a atitude de Milei e a atitude de Delcy Rodríguez? Certamente, nestas horas, surgirão explicações destinadas a estabelecer diferenças profundas entre uma e outra; dir-nos-ão que uma responde a uma lógica e a outra a outra, que uma expressa subordinação e a outra uma tática, que uma expressa um projeto político e a outra uma necessidade histórica. Tudo isso poderá ser discutido. Mas é importante observar a atitude concreta, pois, se a política pode ser sempre explicada como tática, então a coerência deixa de ter qualquer peso específico. E, quando a coerência perde peso específico, quase qualquer coisa pode se transformar em estratégia: uma concessão pode ser apresentada como vitória, uma subordinação como pragmatismo, uma derrota como diplomacia de paz e uma fotografia como um feito épico. A realidade, no entanto, continua aí.
Uma referência de dignidade
Se hoje é preciso olhar para uma referência — como a que vimos em 3 de janeiro —, essa referência foi a dignidade cubana, que combateu até o fim contra as tropas norte-americanas e deu uma resposta duríssima, digníssima, apesar da inferioridade de meios e de condições de toda ordem. Também ontem foi a delegação cubana que se levantou e foi embora. Aí surge uma referência de dignidade, uma referência a partir da qual lutar e a partir da qual nos olhar. Há momentos em que a política precisa recuperar a capacidade de estabelecer um limite diante do poder.
E isso é especialmente importante para nós, que nos situamos em uma tradição de esquerda, de soberania, de emancipação e de transformação. Pois não podemos perder a capacidade de reconhecer uma referência quando a vemos. Não podemos construir um relato épico artificial em torno daquilo que não nos oferece referência alguma. E não podemos transformar uma cena de subordinação em uma cena revolucionária simplesmente porque precisamos preservar uma determinada narrativa.
A entrega também é conceitual
Porque, se caímos nessa lógica pragmática e tática — em que a coerência parece não ter muito peso específico e a realidade pode ser distorcida por um discurso grandiloquente —, perdemos algo muito mais importante do que uma discussão política conjuntural: perdemos a capacidade de pensar. O que se vê é uma Delcy Rodríguez muito satisfeita em relação a Trump. O que se vê é um processo histórico venezuelano — que admiramos, mas que já não serve mais de referência — integrando mecanismos que fortalecem Donald Trump e participando de uma entrega estratégica de recursos, não apenas naturais, mas também conceituais e ideológicos.
E este último ponto é talvez ainda mais importante, pois não se trata apenas de petróleo, recursos naturais ou acordos econômicos. Entregam-se também símbolos, referências, palavras e tradições políticas. Uma tradição construída ao longo de anos em torno da resistência ao imperialismo pode acabar sendo usada para legitimar uma nova relação de subordinação. E, quando isso acontece, a entrega não é apenas material: é também conceitual. Entrega-se uma parte daquilo que, durante anos, permitiu construir uma visão de mundo, uma forma de interpretar a soberania e uma maneira de compreender a emancipação.
Não trair o intelecto
Portanto, não há volta. Por uma questão de dignidade, como militantes, é importante não trair o intelecto e perceber o que está diante de nós.
Neste momento, alguns dirão: “Não, é uma tática”. Pois bem, mas nenhum processo revolucionário chegou a esse ponto dessa maneira. Imaginem Fidel Castro celebrando com Kennedy depois da Baía dos Porcos? Seria mais ou menos assim. A comparação pode parecer brutal, mas justamente ela permite compreender o problema: uma coisa é negociar com o adversário, e outra é criar uma cena de celebração com quem acabou de defender uma intervenção militar; uma coisa é administrar uma derrota, e outra é construir uma épica da derrota.
Voltar à realidade
E talvez o problema do nosso tempo seja justamente esse: aprendemos a construir relatos capazes de modificar nossa percepção da realidade. A inteligência artificial pode fazer isso, os algoritmos podem fazer isso, as narrativas políticas podem fazer isso, as grandes potências podem fazer isso e nós mesmos podemos fazer isso quando precisamos que a realidade se pareça com aquilo em que queremos acreditar. Por isso, talvez hoje um salto revolucionário seja algo muito mais elementar e, ao mesmo tempo, muito mais difícil: voltar à realidade, fazer coincidir aquilo que é com aquilo que se relata e se narra; não abandonar as utopias, mas evitar que elas se tornem uma desculpa para ignorar os fatos; não abandonar a política, mas evitar que ela nos obrigue a negar aquilo que temos diante de nós; não deixar de pensar estrategicamente, mas recuperar a coerência como uma dimensão da estratégia.
E talvez a primeira obrigação daqueles que ainda acreditam que a política pode transformar a realidade seja não trair o intelecto para salvar o relato. Olhar para a realidade, pensar a partir dela e sustentar as ideias diante daquilo que efetivamente acontece. Porque, antes de qualquer explicação, antes de qualquer épica e antes de qualquer construção narrativa, há algo que permanece diante de nós.
É o que se vê.
Texto: Rafael Cuevas Molina - Presidente AUNA-Costa Rica
Texto: IELA
Texto: Rafael Cuevas Molina - Presidente AUNA-Costa Rica
Texto: Elaine Tavares