12 de Outubro: nada que comemorar

12 de Outubro de 2017, por Carlo Arturo Zarallo Valdés

A resistência começou em 1492
A resistência começou em 1492

A mudança descolonizadora, embora tenha características de ordem prática, cremos também que tem que ter referência na ordem simbólica. Com isto nos referimos ao cambio conceitual que aconteceu no ano 2000, no Chile, quando o nome do dia 12 de Outubro como ‘dia da raça’ foi substituído pelo dia do ‘encontro de dois mundos’, tentando assim, mostrar que América já existia na chegada dos conquistadores europeus.

No entanto, desde nossa maneira de ver, este eufemismo não muda em nada a realidade vivida no Chile, devido a que em primeiro lugar em nenhum caso poderíamos assimilar que o que aconteceu foi um encontro entre duas culturas, ao contrário, as ações e os fatos que se desencadearam a partir do 12 de Outubro de 1492  não provocaram a união de duas culturas, o que aconteceu a partir de esse dia foi a invasão e a imposição do ocidental sobre as outras culturas, por isso é que  nesta data  se comemora o dia da raça e mais ainda, seu racismo existente. 

Quando falamos de raça devemos entender que isto não se trata de um fenômeno biológico, mas bem, de uma construção social e política a qual busca dominar, inferiorizar e subjugar a um-outro. Isto se pode exemplificar desde a conquista, onde os brancos-europeus fundamentados pela filosofia cartesiana do ego cogitam começaram um processo civilizatório frente aos “selvagens” os quais precisavam humanizar-se. Ou bem no período da independência do Chile o qual foi um processo onde a ‘raça’ constituía o pilar fundamental sobre o qual se teceram as relações sociais. A elite branca-europeia, a mesma que forjou a institucionalidade do Estado-Nação, foi uma poderosa casta crioula que empregou todos seus recursos (simbólicos) para explodir e manter ao ‘baixo povo’ (mestiços e indígenas) numa condição de marginalidade, afastados de qualquer forma de participação política.
 
No Chile a história foi escrita pelos brancos; os mestiços tiveram que aceitar como a sua; e os indígenas foram instrumentalizados. O paradoxal foi que durante o século XIX, o estado chileno voltou a reproduzir o genocídio: a usurpação contra os mapuches, e o que é pior, a reforçar um sistema de sociedade em que a raça seguia sendo um fato relevante na configuração das relações sociais. Esta concepção de raça tem seu sustento numa definição de racismo que nos entrega Carlos Moore. Na sua origem, o racismo é constituído e consolidado através do exercício da agressão, conquista e dominação. Assim o estado Chileno, inclusive hoje, com o slogan de respeitar aos povos originários segue gerando uma estratégia de dominação que não reconhece as diferenças nem muitos menos as incluem.
 
Com tudo, cabe nos perguntar, qual seria o caminho para lograr um cambio que busque transformar as estruturas epistêmicas, políticas e culturais que se encontram tão enraizadas, não só no Chile, se não que em todo nosso continente? Provavelmente a interculturalidade nos pode ajudar a visualizar a realidade social de outra forma, com vista em gerar um diálogo horizontal entre pessoas e culturas diversas, deixando do lado as manobras por parte do estado, para controlar e apaziguar conflitos étnicos. Incluir a diferença cultural à ordem política e econômica, significa a imposição de um modelo de sociedade que buscar neutralizar a luta dos grupos indígenas marginalizados. 
 
A interculturalidade, não só nos convida a pensar a diferença racial nas estruturas políticas de nosso continente das quais ainda, lamentavelmente, não são tiradas fora. Mas também, nos convida a revisar nossas próprias práticas cotidianas; a ter que ser críticos com a mensagem tergiversada que é manipulada pelos médios de comunicação, a nos questionar sobre como de algum modo somos capturados pelo slogan e como nossa visão é adormecida respeito à complexidade e riqueza que significam os povos originários que convivem no Chile e no resto do continente. 
 
Cremos necessário forjar um pensamento crítico da cidadania, que configure uma nova episteme; reconhecer-nos como iguais na diferença, nos libertar de nossa própria resistência à desinformação e à indiferença de ser partícipe de um projeto ético-político de transformação social, que possa deixar no centro a dignidade do ser humano, a justiça, equidade e liberdade. 
 
Por último, pensamos que a mudança de paradigma que pretende um ‘giro colonial’ a de ser prático, deve lograr um real impacto no processo do mundo contemporâneo e na sua estrutura político-social, mas também a de ser simbólica, epistemológica e historiográfica, porque hoje não se comemora um encontro, como pretende o estado chileno, hoje é um dia para refletir e resistir.
 
A luta permanente e multifacetada contra o racismo, nas suas formas estruturais e sistêmicas, no imaginário social, e nas suas formulações ideológicas, se faz necessária em nível planetário. A Humanidade não tem outra opção. De outro modo, o ser humano terá voltado às costas ao mais elementar dos requisitos da natureza e dos organismos viventes: a diferenciação, a constante multiplicação do diferente – do Outro – como origem, essência e exigência para a continuidade da Vida. Acabar com o Outro – negando-o ou exterminando-o – é, necessariamente, fechar a porta ao futuro, acabar com nossa espécie, assassinar a Vida. (Carlos Moore).