25 anos do Exército Zapatista de Libertação Nacional

27 de Dezembro de 2018, por Elaine Tavares


A luta dos povos originários nessas terras que conformam as três Américas, hoje chamada de Abya Yala, sempre existiu. Desde que Hatuey, o cacique taíno, percebeu que os que chegavam, nas caravelas, pelo mar, eram homens ruins, que traziam a morte para levar riquezas, a batalha tem sido sistemática. Já se passaram mais de 500 anos e os povos estão aí, ora resistindo, ora atacando. 

No começo da invasão, os povos autóctones fracassaram, vencidos pela traição interna, pelas armas, pela doença. Depois, os que ficaram, no tempo da independência, continuaram para trás, de novo traídos, então pelos criollos, esquecidos e separados da vida nacional. Como não morriam nem desapareciam os governos tentaram a assimilação. Não deu certo também. Muitas comunidades resistiram e mantiveram sua cultura. 

O tempo passou e o Estado, aliado às Igrejas e ONGs, foi tentando manter os povos originários na invisibilidade, tutelados e inferiorizados. Movendo-se por dentro dessas estruturas institucionalizadas os indígenas seguiam ora enganados, ora evangelizados em crenças estranhas. Demorou, mas aos poucos, os povos começaram a usar seus próprios recursos, seus próprios rostos e caminhos, e passaram a discutir, juntos, os seus temas e encaminhar lutas. 

Um dos países – de profunda cara indígena – que começou bem cedo esse processo foi o México. Provavelmente por ter passado por uma revolução realmente popular em 1930 e ter conseguido avançar, via Constituição nacional, em muitos pontos referentes ao território, o tema indígena aflorou com força.

A caminhada de Zapata e Villa na revolução não incorporava o tema étnico, mas trazia as demandas indígenas no âmago de seu projeto: as terras comunais, os ejidos, herança inconteste dos originários. Naqueles dias de luta armada e nos que se seguiram depois do fim da revolução essa batalha pelo território seguiu firme, ainda que os povos originários estivessem sempre subsumidos como “camponeses”. E, o não cumprimento de muitas das demandas da revolução foi gestando, dentro do México profundo, o desejo de que as promessas se fizessem. 

O primeiro movimento organizado dos povos indígenas unificados aconteceu em 1973, justamente no início da imposição do neoliberalismo. Fruto dessa organização que se fazia no interior do país, fora dos olhos institucionais, é criado o Movimento Nacional Indígena. Foi uma tentativa de trazer o Estado para uma mesa de negociação e legitimar as políticas que queriam para seus povos. Ainda se apegavam ao Estado, e tanto, que em 1975 o governo cria o Conselho Nacional dos Povos Indígenas, visando estreitar ainda mais essa ligação. Mas, das entranhas do México vinha um rugido de jaguar. E nele a certeza de que o Estado não seria um bom parceiro. Essa foi uma lição aprendida com sangue. Por isso fez-se uma ruptura e uma parte dos povos decidiu criar uma estrutura mais autônoma, a Coordenadora Nacional de Povos Indígenas que, mais tarde, vai integrar a Coordenadora Nacional Plano de Ayla, que aponta o momento da virada da relação indígenas x estado. 

Essa ruptura aconteceu justamente porque as comunidades indígenas passaram a trazer demandas que estavam completamente fora das mesas de diálogo, coisas que não apareciam na institucionalidade porque o Estado não podia compreender ou dar importância. Naqueles dias os povos não tinham muita consciência da etnicidade, mas já intuíam que havia coisas só entendidas por eles, e aquilo foi o embrião do que viria.

No ano e 1988 nasce a Frente Independente dos Povos Índios, trazendo como pauta principal a autonomia dos povos, fugindo assim da etiqueta “camponês” que seguia colada neles. As demandas não estavam mais vinculadas à terra somente, mas avançavam para a consciência de identidade. Nesse diapasão os mexicanos realizaram em Oaxaca o primeiro Fórum Internacional sobre Direitos Humanos dos Povos Índios, iluminando assim todo grande continente americano, extrapolando as fronteiras. Juntando indígenas de toda a América Latina o processo começou a se fazer já com as características originárias, sendo o Estado apenas aquele para quem as demandas seriam entregues. Não era mais quem conduzia o processo. Em 1989, no segundo Fórum Internacional aprofundam-se os debates e em 1990 é criada a Frente Nacional dos Povos Indígenas. 

Esse era um movimento que acontecia no interior das comunidades, percorrendo estradas só conhecidas pelo mundo indígena. Tanto que enquanto tudo aquilo se gestava o mundo seguia seu caminho, inclusive com teóricos importantes apontando para a vitória final do capitalismo. Com a queda da União Soviética não faltaram os profetas e os coveiros do socialismo. A generosa proposta de um país para os trabalhadores não se fizera, a utopia soviética se rendia ao capital e para os intelectuais do tempo presente aquilo significava o início de um novo tempo, no qual as ideia de partilha, solidariedade, governo autônomo dos trabalhadores, fim da propriedade privadas dos meios de produção, e terras comunais estavam definitivamente derrotadas. Ninguém prestava atenção para o que acontecia nas profundezas do mundo indígena. 

Tanto que em 1990, quando os indígenas equatorianos invadiram várias igrejas da cidade de Quito bradando por direitos, o mundo não fez caso. Tirando o próprio Equador, que precisou lidar com aquela novidade, o restante da América Latina sequer ficou sabendo.

Mas, em 1994, no mesmo dia em que os Estados Unidos celebrariam o início do acordo que unificaria comercialmente EUA, Canadá e México, um grupo de indígenas, mascarados, e se dizendo herdeiros de Zapata, toma várias cidades em um ataque armado e aí sim, coloca o mundo inteiro a par de que havia uma coisa nova se gestando nas entranhas da grande América.  Foi um estupor. E o que se seguiu depois desse ataque foi inimaginável. Em doze dias, sem largar as armas e sem serem derrotados militarmente, os novos zapatistas garantiram um acordo com o governo mexicano e abriram-se mesas de diálogo. 

Dois anos depois nascia o Acordo de San Andrés, no qual a ideia de autonomia dos povos indígenas é central, e acabou sendo baliza para outros movimentos em todo o grande continente. Muitas das demandas apresentadas ao mundo naquele 1994 não se cumpriram, mas outras sim. E as que se fizeram foram conquistadas na luta, no braço armado do Exército Zapatista de Libertação Nacional. Tanto que hoje, no México, já são sete cidades geridas de maneira autônoma na região indígena de Chiapas. A grande vitória ainda não veio, mas caminha.

Nesse primeiro de janeiro de 2019, ao se completarem 25 anos desse extraordinário acontecimento, a despeito de todos os reveses e equívocos do longo do caminho, é necessário render homenagens a esses homens e mulheres sem rosto (que representam todos os rostos) que ousaram assomar, como gente de milho, com as armas na mão, quando tudo dizia que era chegado o fim. Eles incendiaram a América Latina e mostraram sua luz ao mundo. Não apenas alumbraram a vida dos chiapanecos, que viviam perdidos na Selva Lacandona, mas a de todos os povos que, nas profundezas de Abya Yala, seguiam em resistência.   

O grito zapatista de “Ya Basta!” segue balizando a luta de toda a gente oprimida e massacrada pelo modelo capitalista de desenvolvimento. E, nessa batalha, estamos todos juntos, indígenas e trabalhadores não-índios, porque o capital nos unifica numa única classe: a dos oprimidos. Encontrar os caminhos para andar junto, sem o risco da traição (tão bem conhecida pelos originários) é o desafio. 

E, como diz o subcomandante Marco, hoje Galeano, tratemos de ser zapatistas na nossa aldeia. Porque é aqui que vivemos e é aqui que precisamos iniciar a mudança. 

Viva a luta do Exército Zapatista de Libertação Nacional. Viva a luta dos povos originários de Abya Yala. Viva a luta dos trabalhadores.