América Latina - uma nova colonização

15 de Maio de 2015, por Elaine Tavares

Manifestação em Cusco essa semana - Foto Leandro Pellizzoni
Manifestação em Cusco essa semana - Foto Leandro Pellizzoni

Por todo o espaço da Pátria Grande um velho drama volta com força total. Se, na conquista, espanhóis e portugueses deram início a um processo de roubo das riquezas minerais e naturais, agora, outros "invasores", europeus e asiáticos, representados por empresas multinacionais legalmente constituídas e instaladas nos países da América Latina, retomam com voracidade a retirada dos recursos não renováveis que ainda são abundantes no continente.

A mineração é uma atividade que extrai os produtos a custa de grande devastação das florestas, dos solos e das fontes de água. Em alguns lugares chegam a usar técnicas já há muito superadas como a lavagem com mercúrio, uma sentença de morte não apenas para os rios, mas principalmente para as pessoas que vivem às  margens. Não bastasse isso ainda dinamitam montanhas inteiras e consomem energia em demasiado. Não é por acaso que nos lugares onde a mineração ataca tenha também muita luta popular. Tem sido assim no Equador, na Argentina, no Brasil e no Peru. 
 
O grande drama da América Latina continua sendo sua riqueza. Quem pode esquecer a sistemática exploração da prata de Potosí, na Bolívia, que tantas vidas consumiu? Ou o cobre, no Chile, que tem a mais espantosa mina de céu aberto do mundo. Em todas essas empreitadas são necessários muitos recursos - daí estarem nas mãos das multinacionais - e muito recurso energético, seja de luz ou água, o que debilita as regiões onde se instalam. O impacto social e ambiental é tremendo. Em alguns casos comunidades inteiras são desalojadas de suas casas, onde historicamente construíram suas vidas, assim como seus ancestrais.

Via de regra, os países tem legislações ambientais que definem reparações, mas como reparar a perda de um espaço histórico? Como reparar a perda da identidade comunitária? É isso que leva as populações a lutas renhidas contra os gigantes econômicos.

Atualmente os maiores investimentos em mineração estão na América Latina, 32%. Depois vem a Oceania, com 20%, África, com 16%, Ásia, com 13%, América do Norte, com 12% e Europa com 7%. Segue a lógica básica do capitalismo. Os países centrais ficam protegidos enquanto os países dependentes é que servem de lugar de exploração. O Chile, Brasil e Peru são os países que mais tem investimento na mineração, mas os demais países da zona também estão envolvidos com o processo.

O Brasil ocupa a liderança na exploração mineira, mas isso é muito pouco conhecido dentro das fronteiras. Minas Gerais segue sendo o estado que concentra mais essa exploração, cerca de 44%. Depois vem o estado do Pará, com 22% e Goiás, com 7,6%. O ferro é o mineral mais extraído, perfazendo 64%, seguido pelo alumínio e a bauxita, com 11%. O nosso país ainda é o maior produtor mundial de nióbio - usado em ligas de aço inoxidável - gerando 95% do mercado. Além disso, o Brasil extrai bauxita, grafite, manganês, ouro, cobre, níquel, fosfato, pedras para cimento e pedras preciosas.
 
A Bolívia, que sempre foi um país mineiro por excelência, extraindo prata e estanho, tem hoje uma nova reserva de prata considerada a maior do mundo: a mina de San Cristóbal, perto da mítica Potosí, de onde já saiu quase toda a prata que fez a riqueza da Europa. Esse empreendimento é explorado por uma empresa criada nas ilhas Cimãs em 1994, a Andrean Silver, que conta com algum investidor boliviano, mas tem controle internacional. Eles esperam extrair até 360 mil toneladas de prata. Lá já existe bastante mobilização pela defesa da água, uma vez que esse tipo de exploração utiliza demasiado esse recurso que é essencial para a vida.

Outros países como o Chile, maior produtor de cobre, Colômbia, que produz ouro,  prata e níquel, e Equador, com grandes reservas de ouro, prata e petróleo, também vivem grandes turbulências com os protestos das comunidades que veem nesses empreendimento muito mais a destruição do que a melhoria de suas vidas, como pregam as propagandas governamentais. 

O Peru

Nos últimos dias é a comunidade de Arequipa, no Peru, que está em pé de guerra por conta da exploração mineira. Nesse momento a população ergue barricadas nas ruas, em apoio aos agricultores do Valle de Tambo, que lutam contra o projeto mineiro chamado de Tia Maria, comandando pelo grupo Southern Copper-Grupo México, um conglomerado multinacional. Desde o mês de março os camponeses da região de Islay estão protestando. O governo respondeu com o envio de mais de dois mil policiais para a zona, causando conflitos, com feridos e mortos. Nos últimos dias as manifestações se acirraram, unindo as gentes da cidade e do campo em marchas, manifestações e barricadas.

Esta forma de resistência do povo de Arequepa já funcinou no conhecido "arequipaço", em junho de 2002, quando as gentes conseguiram barrar a privatização das empresas elétricas Engesa e Egesur, durante o governo de Alejandro Toledo. Agora, a intenção dos movimentos sociais é evitar que essas empresas ocupem a região em projetos mirabolantes, sem qualquer proteção ao ambiente e às pessoas.

Os camponeses denunciam que o Grupo México, que faz parte do conglomerado que pretende explorar o lugar, não é uma empresa confiável. Segundo eles, foi o responsável por um grande desastre ambiental, no México, ao derramar 40 mil metros cúbicos de sulfato de cobre nos rios. Também há notícias de outros desastres no Peru, cometidos pelo mesmo grupo, causando o que ficou conhecido como um "ecocídio", afetando as atividades agrícolas da região com um dano ambiental irreversível.  Na Espanha, a tentativa desse grupo em explorar uma mina foi rechaçada pela comunidade de Andaluzia por conta das inúmeras irregularidades. 

A outra empresa do grupo, a Southern Copper já foi condenada por conta de uma contaminação no mar de Ilo, a sudeste do Peru, e agrega milhões de dólares em multas, possivelmente nunca pagas.

Assim, não é sem razão que os camponeses e agora toda a população da região, estejam reagindo contra o projeto. Todos sabem que o vem pela frente é morte, destruição, contaminação e corrupção. Assim, a luta deve prosseguir até a vitória.

Com informações do sítio lamula.pe e jornais do Peru.