América Latina e os intelectuais do esporte: a riqueza escondida

26 de Fevereiro de 2018, por Nilso Ouriques

Valdano - jogador argentino, hoje dirigente de futebol, é um dos que pensam o esporte
Valdano - jogador argentino, hoje dirigente de futebol, é um dos que pensam o esporte

Existe uma riqueza escondida, não compartilhada na cultura esportiva e da educação física do Brasil, algo que é produto de um imenso e intenso processo de alienação que custou muito caro ao processo de desenvolvimento cultural do esporte no Brasil, algo que se projeta na cultura corporal, vinculada ao campo da filosofia, sociologia, antropologia e, pela obviedade, na política esportiva e formação cultural.   

Assim como nas ciências sociais os estudantes e professores não conhecem André Gunder Frank, Vânia Bambirra, Álvaro Viera Pinto, Ludovico Silva, Guerreiro Ramos  e Ruy Mauro Marini, o mesmo processo de exclusão e expulsão intelectual se dá no esporte e na educação física. Este texto, então, procura resgatar e anunciar autores da América Latina, que quase nunca foram mencionados em salas de aula, nas relações de bibliografias e tampouco tiveram seus livros nas estantes das bibliotecas das universidades brasileiras.
           
Começo esse texto falando do que campo intelectual que cerceia a formação dos professores de educação física e da mídia, a colonização intelectual, para depois entrar no amplo campo dos intelectuais desconhecidos no Brasil, mas com ampla e profunda produção intelectual na América Latina.  
       
Vejamos, a história da educação física e do esporte nacional é demarcada por um imenso processo de alienação. De origem marcadamente militar, as escolas de educação física em todo território nacional tiveram algumas fases: A primeira foi higiênica, destinada a combater as doenças e garantir a disciplina corporal, a segunda foi militar, inspirada pela força do exército e voltada para a disciplina, a terceira é a esportiva, caracterizada pela entrada dos esportes como vôlei, basquete, futebol, handebol e outros, que até hoje dominam as escolas. A quarta fase é a pedagógica, quando os “educadores” despertaram para a ideia dos esportes e o seu caráter pedagógico e educativo e, por último, temos a fase da corporeidade, muito pouco utilizada, em função da hegemonia intensa da fase esportiva. 
               
Normalmente as bibliotecas das escolas de educação física são muito pobres e pequenas, pouco representativas, pois os cursos são hegemonicamente marcados pelo tecnicismo e pelo ativismo físico dos esportes. A literatura existente é formada em grande parte por cadernos de regras, táticas e estratégias de jogos que consomem metade das estantes. Logo depois vem o material vinculado ao treinamento esportivo. É uma simples articulação alienada, na qual primeiro se explica o jogo, e depois se faz necessário criar o treinamento para o jogo. Dentro dessa lógica é que aparecem os autores do campo dos esportes e da saúde, marketing e negócios, esses dois últimos adentrando nos currículos nos últimos vinte anos. Por fim, e já com morte anunciada, surgem aqueles que quase nunca são utilizados no campo da pedagogia e esporte, devido ao descrédito da educação física nas escolas.
           
Os autores estrangeiros, em sua maioria, derivam de raiz estadunidense, principalmente na área da anatomia e fisiologia, para tentar dar alguma base científica ao desespero da pobreza da periferia, mas também estão presentes no campo da comercialização e marketing esportivo. Todo este processo de dominação técnica dos esportes e da comercialização começou com a invasão cultural estadunidense depois do governo de Getúlio Vargas, e aprofundou-se depois dos anos 90 do século XX. Assim, a discussão política, ideológica e filosófica feita pelos que pensam a educação física e os esportes é colonizada, atrasada e profundamente alienante, colocando desta forma, os professores, não como intelectuais que buscam as mudanças, mas como reprodutores alienados do sistema esportivo mundial, leia-se Fifa, Comitê Olímpico Internacional e Federações Esportivas Internacionais, sempre dentro da lógica da dependência que caracteriza a América Latina.
             
Da mesma forma, o controle da mídia sobre os esportes reproduz a mesma matriz de pensamento em escala ampliada e associada à necessidade de ganhar dinheiro e fazer comércio na periferia do sistema capitalista. O jornalismo esportivo reproduz conceitos e mesmices, ampliando a concepção de abandono intelectual de jogadores, técnicos e dirigentes. Nada de novo aparece neste contexto, mesmo porque, na condição de sistema esportivo dependente dos grandes centros, entende-se que é melhor exportar jogadores e ficar ajoelhado diante da máquina do espetáculo esportivo europeu e estadunidense.
       
Esta situação é estrutural e seguirá sendo assim enquanto não houver uma revolução capaz de nos libertar da dependência econômica, cultural e política. Faz parte da condição brasileira e latino-americana no cenário internacional. Logo, é evidente que todo esse processo de colonização no esporte não se dá apenas por conta das escolas de educação física, da mídia esportiva, bem como pela ação dos dirigentes e atletas, servos honestos e humildes da burguesia europeia e estadunidense. 
     
O pensamento colonizado, consolidado e enraizado, tem criado milhares de professores de educação física aprisionados a esta cultura esportiva, incapazes de sair deste labirinto da alienação, alimentados por uma mídia que só pensa na adoração do espetáculo esportivo europeu e no mimetismo de sua forma e conteúdo como desejo supremo de sucesso e lucros. Algo que virou senso comum, incapaz de questionar a indústria da exportação de “pés de obra”, o navio luxuoso da exportação em massa de atletas e jogadores, com base suprema no futebol. A Copa do Mundo no Brasil foi o retrato intenso e manifesto do atraso colonial. Roubos e desmanche das estruturas existentes, assim como a grande marcha das privatizações, ou seja, o desenvolvimento  do subdesenvolvimento, como diria André Gunder Frank.
     
Em meio a esta situação, existe um crime que não é de menores proporções, um crime cultural, na medida em que não temos acesso à capacidade desenvolvida na América Latina de pensar o esporte no amplo ângulo da filosofia, sociologia, política, ética e outros parâmetros. É aqui que vou colocar o meu dedo e procurar apresentar autores por nós nunca discutidos.
     
Os escondidos
     
Ariel Scher - jornalista argentino
Ariel Scher - jornalista argentino
Em contato com alguns autores da América Latina, foi possível ir descobrindo outros, assim como os seus pontos de vistas e novos conceitos, novas formas de pensar o esporte e a educação física, longe dos estreitos conceitos desenvolvidos há  muitos e muitos anos na literatura nacional brasileira.
     
Pela facilidade tecnológica que possuímos hoje, a maioria dos autores, e de sua produção intelectual, poderá ser facilmente ser encontrada nas redes sociais.  O primeiro texto que recomendo, como algo introdutório ao nosso debate sobre os autores da América Latina é um de Ariel Scher, jornalista argentino que integra desde 1996 a seção de esportes diários do diário Clarin.  Seu principal livro é: “La pasión según Valdano” uma riquíssima entrevista com o jogador de futebol da seleção argentina, campeão do mundo junto com Maradona em 1986, e que depois se transformou em diretor de futebol do Real Madri, na era dos galácticos. Ariel retira da experiência de Jorge Valdano toda a sua emoção ao falar de esporte e principalmente do futebol. Mais ainda, explora a sua plena inteligência ao discorrer sobre temas paralelos, associados, como negócios, amor, paixão, medo, ego, sistema esportivo internacional, Fifa, corrupção, tristezas e principalmente, o que nos interessa, a sua lista de escritores capazes de montar ou formar uma nova concepção de esporte baseado no campo filosófico, sociológico, econômico e ético. Ariel Scher tem três livros publicados e pode ser encontrado facilmente nas redes sociais, assim como seus livros, todos encontrados em PDF.
         
“La passion segun Valdano”, implica em discussões sobre  o futebol que separam as águas entre o prazer e o dever, a lógica explícita de jogar com alegria e as dores físicas, contusões e as derrotas, tristezas, a relação com o público. O futebol como negócio, espetáculo, ideologia. Comércio ou arte? Quem foi melhor, Cesar Menotti ou Carlos Bilardo? A interpretação de quem foi e é Maradona. A importância dos ídolos e treinadores. Ao mexer com as emoções, Valdano fala do medo no futebol, as personalidades distintas dos jogadores e sua origem de classe e país. O esporte como um projeto profissional, planejado. Qual moral se constrói no esporte, no meio dos jogadores, dos jornalistas, doping, violência, a necessidade de sempre vencer e nunca perder, o nacionalismo, a diferença entre a esperteza e o delito, a política dos corredores, do invisível, a relação entre Estado, política e esporte. O plano do vazio existencial, as ditaduras e o esporte, a quem o futebol e o esporte no geral servem, à direita ou à esquerda? O futebol como um refúgio da identidade. 
Reflexões sobre o mundo do futebol
Reflexões sobre o mundo do futebol
             
Finalmente, Ariel entrevista Valdano acerca do futebol, intelectuais e literatura. É aí que ex-jogador e dirigente do Real Madri cita alguns autores que em outra ocasião irei apresentar, como Manuel Vázquez Montálban, que remexe no debate entre ideologia e emoção. Um autor que trabalhou muitos anos na revista “Triunfo”, da Espanha.
 
 
A partir desse primeiro texto pretendemos desenrolar uma lista de 25 autores Latino-Americanos, expoentes dos mais variados países, procurando resgatar sua importância e produção teórica dentro do debate sobre o esporte. O primeiro deles será Manuel Vázquez Montálban.  Aguardem.