Apontamentos sobre a Venezuela

16 de Junho de 2017, por Elaine Tavares


Antes de Chávez, no Brasil, pouco se sabia sobre a Venezuela. Nenhuma informação sobre ser o território há mais tempo habitado pelos humanos na América do Sul (15 mil anos), nada sobre a luta heroica dos aruaques e dos caraíbas na época da conquista, nada sobre Guaicaipuru, quase nada sobre a sucessão de governos oligarcas e/ou ditatoriais que vieram depois da traição ao projeto de Bolívar da Pátria Grande. Um pouco, talvez, sobre a riqueza do petróleo, mas nada muito profundo.

Foi Chávez e sua proposta de recuperação do bolivarianismo, a Pátria Grande, a união dos povos da América Latina, que colocou a Venezuela na mídia brasileira, sempre de forma negativa, é claro. Ao longo do governo de Chávez os ataques foram sistemáticos e sujos, como é comum a uma mídia que é braço armado do sistema capitalista de produção. O venezuelano era um “louco socialista” e tinha de ter sua imagem destroçada o tempo todo para que não “contaminasse” o lindo “mundo livre” do capital.

Foram 13 anos de tentativa de desmantelamento da ideia bolivariana de bem viver. Não conseguiram. Chávez seguia firme, apontando caminhos de integração, de parcerias fraternas, de unidade cultural. Por isso o mataram. Diagnosticado com câncer pouco depois de ser novamente eleito para a presidência, ele definhou sem assumir mais um mandato. E, como já acontecera com Cuba, todos os meios de comunicação gritavam: acabou, acabou. Entendiam que, com a morte de Chávez, estava definitivamente enterrada a ideia generosa de Bolívar. A direita se assanhava, louca para voltar a por a mão no petróleo e nos altos lucros gerados pelo óleo negro, os quais Chávez havia colocado a favor das políticas para o povo.

Mas, não deu certo. A população realizou nova eleição e colocou no comando Nicolás Maduro, que fora braço-direito de Chávez. Ninguém queria voltar ao passado, há um tempo em que a aristocracia petroleira mandava e enriquecia, relegando ao povo apenas miséria e sofrimento. Por querer avançar escolheram Maduro. Sabiam muito bem que Nicolás não era Chávez, que seria duro, que seria difícil, mas decidiram caminhar junto e garantir as conquistas da chamada “revolução bolivariana”.
Com Maduro os ataques recrudesceram. A direita ficou mais assanhada, mais forte. Maduro não tinha nem a verve, nem o carisma, nem a estatura de Chávez. A oposição acreditou que seria bem mais fácil derrocar o governo. Não foi. A população seguiu apoiando e fortalecendo a revolução.

Então veio a “guerra econômica”, uma tática já bem conhecida de desabastecer a vida, tornando a existência insustentável. Como na Venezuela a revolução não foi armada, toda a trama privada de domínio seguiu intacta. É a burguesia quem domina o sistema de distribuição de produtos, por exemplo, assim como a comunicação comercial. Estava feita a aliança que colocaria a Venezuela outra vez na mira do retrocesso. Os comerciantes escondiam os produtos, principalmente comida e gêneros de primeira necessidade, e criavam o caos. A moeda local disparou, a inflação também, e o governo precisou dar tratos a bola para garantir a comida do povo.

No começo foi duro, mas a reação logo se fez, com a criação de grupos organizados estatais e comunais, que começaram a realizar o processo de distribuição dos produtos. A comida chegou, mas outros artigos seguiam e seguem escassos. Isso baixa demais a resistência popular.  É fato também que o burocratismo e a infiltração de “chavistas de última hora” nas entranhas do governo também dificultam a reação. Maduro vacila, tenta diálogo com uma oposição que não quer conversar, que, ao contrário, aprofunda a guerra econômica e procura quebrar a espinha do bolivarianismo. Há que ter muita força revolucionária para suportar a falta de pão. Mesmo que esse seja um povo já calejado nisso. Ocorre que também há toda uma geração, que viveu a bonança do período chavista, que não sabe o que é viver na completa escassez, como era no passado, antes de 1998.

Agora, ainda mais fortalecida pelos resultados da guerra econômica, que vem minando a força popular, a direita aprofunda os métodos contra o governo. Apoiada financeira e logisticamente por entidades internacionais que não querem saber de socialismo ou bolivarianismo, e orientada pela política de destruição permanente dos Estados Unidos, a oposição criou a tática das “guarimbas sistemáticas”, que são ações armadas, ultraviolentas, visando destruir a confiança popular no governo, principalmente no quesito segurança. Os “guarimbeiros” matam pessoas identificadas com o bolivarianismo, incendeiam prédios públicos, creches, hospitais, cortam ruas, investem contra autoridades, impõem o terror. Uma ação coordenada e orquestrada em todo o país, o que mostra claramente que é muito bem organizada e financiada. Não é um movimento espontâneo, popular. E a reação governamental aos abusos e violências tem sido considerada fraca. 

É mais do que óbvio que o governo de Nicolás Maduro comete erros na condução do processo e peca no enfrentamento das ações da direita. Alguns de seus apoiadores diretos estão envolvidos em denúncias, outros vão abandonando o barco diante da crise e mesmo a esquerda latino-americana se divide, sem oferecer apoio em bloco, o que poderia levar o presidente a se sentir mais fortalecido, a encontrar caminhos mais seguros. Por outro lado a direita latino-americana, que jamais se divide, ataca em bloco, promovendo campanha sistemática contra o governo venezuelano, apontando-o como ditatorial e fascista.

Como muito bem analisa Heinz Dieterich, que é um dos mais ferrenhos críticos do governo bolivariano, não dá para dizer que a ação de defesa contra as “guarimbas” seja terrorismo de estado. Para Dieterich, se não dá para afirmar que o governo de Maduro é o melhor do mundo, tampouco se pode dizer que ele usa o exército contra seu próprio povo, porque não é verdade.  As forças armadas da Venezuela foram formadas esses anos todos para atuar com o povo, logo não haverão de respaldar ações de força no modo fascista. Diz Dieterich: “Se o regime venezuelano hoje em dia fosse um típico regime burguês latino-americano já teria destruído de maneira fascista o movimento opositor, tal como fizeram os assassinos das oligarquias criollas, a serviço de Washington, em El Salvador, Colômbia, Uruguai, Argentina, etc. Não há nada no padrão de comportamento dos aparatos de segurança da Venezuela, Cuba e Nicarágua, que se assemelhe ao padrão de atuação de um estado de exceção burguês fascista, como pretendem os panegiristas da democracia liberal”.

Heinz faz uma crítica dura ao governo de Maduro, ao qual acusa de perder completamente o rumo, e o qualifica como um governo burguês comum. Mas, ao mesmo tempo concorda que o processo bolivariano, além dos seus problemas internos, sofre a ingerência sistemática dos Estados Unidos e a ação ilegítima dos grupos violentos organizados pelos burgueses locais. Para ele, a derrocada vem do fato de que o grupo que atua desde o poder não está sabendo encontrar o rumo sem Chávez. 

Agora, com o desatamento de mais um processo constituinte, novas ondas de críticas e debandadas desde a esquerda latino-americana colocam mais lenha na fogueira da tentativa de derrubada do governo de Maduro. Surgem denúncias de atropelamento à Constituição atual, de medidas de força, e toda uma série de ataques já bem conhecidos por aqueles que estudam a história da América Latina. A lógica é retirar pouco a pouco o apoio, isolando o governo em uma armadilha a qual terá de desarmar sozinho. No geral, o desfecho não é bom.

Uma mirada aos processos de tentativa de libertação de países como Chile, Guatemala, Nicarágua, El Salvador, México, pode-se perceber os mesmos tipos de ataque, os mesmos grupos, os mesmos financiadores, os mesmos retrocesso e os mesmos erros. É quase que um insustentável eterno retorno. O imperialismo joga bem, encontra os aliados, os financia, os treina, os orienta e ainda desata a guerra midiática. Logo, vai criando o cenário perfeito para que a opinião pública se volte contra o governo em questão, e coloca a mosquinha do medo nos possíveis aliados. A covardia vai garantindo a divisão entre os iguais.

Poderia eu fazer uma longa lista de erros e equívocos do Maduro e sua trupe. Mas prefiro pensar nos venezuelanos e venezuelanas que conformam a maioria da população e que, numa volta aos governos típicos da quarta república perderão a possibilidade de decidir sobre suas vidas, bem como as conquistas garantidas a custa de tanto esforço. A revolução bolivariana de Chávez não é mais a mesma, isso é fato. E o caminho para o socialismo está eivado de barricadas. Mas, a ideia bolivariana é forte e generosa, precisa ser defendida. Se a esquerda latino-americana enfrentar essa tormenta de maneira unida - o que não significa sem críticas – talvez possamos avançar no rumo da Pátria Grande. No entanto, se aceitar a divisão, retrocedemos todos.

É hora de decidir. Estou com Venezuela e seu povo bolivariano. Os erros do caminho pode-se consertar, mas a volta da classe rapineira é morte certa para o povo que tentou palmilhar o caminho para o socialismo.