Assembleia Internacional dos Povos em Caracas

25 de Fevereiro de 2019, por IELA

Abertura da Assembleia Internacional dos Povos
Abertura da Assembleia Internacional dos Povos

Um dia depois da tumultuada tentativa de novo golpe na Venezuela, com uma derrotada ação na fronteira com a Colômbia, instalou-se em Caracas a Assembleia Internacional dos Povos, com a participação de mais de 400 pessoas representando delegações de 85 países. O encontro, que pretende sinalizar estratégias de luta para os movimentos sociais e sindicatos em todo o mundo, vai até o dia 27. 

A mesa de abertura teve a presença de João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (Brasil) e Via Campesina, da prefeita de Caracas, Érika Farias, do diretor do Instituto Tricontinental Vijay Prashad  e da representante do Projeto educação Popular dos Estados Unidos, Cláudia de la Cruz. 

Na sua fala de saudação ao encontro a prefeita Erika Farías lembrou os ataques que a direita interna e externa tem feito ao processo revolucionário bolivariano, salientando que não é de agora, mas desde o primeiro ano de governo de Hugo Chávez. “Somos um povo que temos aprendido muito nesses 20 anos, somos um povo consciente de nosso passado, do presente e do futuro que queremos construir. Esse é um povo que luta e se mantém vencendo e vencendo. Foi o que aconteceu nesse dia 23 com a pantomima que quiseram montar na nossa fronteira. Nicolás segue sendo nosso presidente e o povo da Venezuela segue lutando, construindo e trabalhando”. 

João Pedro Stedile apontou os principais objetivos da articulação em torno da AIP, que conseguiu juntar organizações de 130 países do mundo.  “Aprendemos muito no nosso esforço para construir esse processo internacional , temos nossos sonhos, que é o sonho de todos os que estão aqui. Precisamos construir unidade através de uma plataforma programática e isso estamos fazendo bem. Todas as formas com as quais o povo se organiza são muito importantes, sejam associações, movimentos, sindicatos, igrejas, ou o que seja”. 

A representante dos Estados Unidos, Claudia de la Cruz, lembrou que o governo dos Estados Unidos, no ano de 2018, investiu 600 bilhões de dólares na área militar, enquanto que para os programas de redução da pobreza e garantia de direitos como educação, trabalho e moradia, o orçamento não passou de 190 bilhões. Isso mostra que os EUA estão bem mais preocupados com a guerra que com a paz. 

Vijay Prashad foi quem encerrou a mesa de abertura  destacando o papel dos meios de comunicação e das redes sociais, e apontou a necessidade de uma ofensiva contra hegemônica por parte dos movimentos populares ao redor do mundo. “Estamos numa guerra de ideias. E as forças do capitalismo controlam os meios que produzem essas ideias. Temos de mudar isso" . E finalizou dizendo: Nós estamos aqui em Caracas para dizer: Tirem as mãos da Venezuela.

A Assembleia Internacional dos Povos acontece no momento em que o governo venezuelano, presidido por Nicolás Maduro, sofre pressões de países governados pela direita, como Colômbia, Peru, Brasil e Estados Unidos. Esses governos estão pedindo a saída de Maduro, reeleito em maio de 2018 para um novo mandato de seis anos.

Sábado (23), Juan Guaidó, deputado venezuelano que se auto-proclamou presidente interino do país, acompanhado desses países forçou uma ação na fronteira com a Colômbia e o Brasil para trazer para dentro da Venezuela uma suposta "ajuda humanitária ". O governo venezuelano rejeitou a alegada ajuda, que provavelmente era uma desculpa para a entrada de armas e equipamentos para os grupos de oposição ao governo. O golpe de Guaidó foi derrotado, com as forças bolivarianas e milhares de cidadãos se postando na fronteira para impedir a farsa. Inconformados com mais uma derrota, Guaidó e seus apoiadores chegaram a queimar um dos caminhões com alimentos para produzir imagens que se espalharam pelo mundo, alegando que Maduro havia incendiado os caminhões. Mas, imediatamente também correu mundo a imagem do caminhão queimando bem longe da barreira policial. Na verdade, o incêndio ocorreu por conta de coquetéis molotov jogados pelos opositores. 

Os debates da Assembleia Internacional dos Povos se concentraram no avanço dos governos da direita e da extrema direita no mundo e, fundamentalmente, na ofensiva imperialista contra o povo da Venezuela e sua revolução.

Cronologia do último golpe

Durante as discussões da assembleia, o foco estará, obviamente, na atual situação desse país sul-americano e à resistência à ofensiva que começou em 2015, quando foram realizadas eleições parlamentares para os 167 deputados e deputados da Assembleia Nacional da Venezuela. Na ocasião, a oposição ao governo revolucionário conquistou a grande maioria dos assentos, mas, por quatro deputados não conseguiu uma maioria qualificada de dois terços dos cargos, necessária para a mudança de arranjos constitucionais, entre outras medidas. Ainda assim, com a Assembleia sob o controle dos partidos da oposição, quatro deputados não eleitos tomaram posse, o que causou a reação imediata do poder judiciário, que suspendeu poderes do legislador nacional, agora em desobediência ao tribunal.

Devido à decisão judicial, em 2017, grupos de oposição tomaram as ruas do país e promoveram vários ataques violentos contra pessoas e instalações públicas. Diante da situação, o governo venezuelano convocou uma mesa de diálogo, realizada na capital da República Dominicana, Santo Domingo.

Embora o governo venezuelano, em seguida, tenha garantido quase todas as exigências dos grupos de oposição, seus líderes decidiram deixar a mesa de negociações, o que causou protestos até nos mediadores da mesa como o do ex-primeiro-ministro espanhol Jose Luis Rodriguez Zapatero. Desta forma, Nicolás Maduro decide convocar a eleição de uma Assembleia Nacional Constituinte, com o objetivo de renovar os poderes do país e coibir a onda de violência.

A eleição para a Assembleia Nacional Constituinte foi realizada em 30 de julho de 2017. Em 20 de maio do ano seguinte (2018), foi realizada a eleição para Presidente da República. Embora muitos setores da oposição tenham decidido voluntariamente por não participar e apostado na abstenção, a eleição teve a participação de 46% dos eleitores, sendo presidente vitorioso Nicolas Maduro, com 67,84% dos votos, renovando o seu mandato por mais seis anos.

Não satisfeitos com o resultado, países governados pela direita, principalmente liderados por  Donald Trump, dos Estados Unidos, decidiram aumentar a pressão sobre o país por meio de bloqueios de bens e moedas venezuelanas no exterior, causando uma grave crise econômica o país.

Em 10 de janeiro de 2019, o deputado da Assembleia Nacional ilegal, Juan Guaidó, proclamou-se presidente encarregado do país, ignorando o processo eleitoral que elegeu Nicolás Maduro. Guaidó foi reconhecido por governos de direita em uma ação articulada, apesar de não ter poder sobre as instituições venezuelanas. As Forças Armadas, bem como os mais altos representantes do Poder Judiciário do país, reconhecem a autoridade de Nicolás Maduro como legítimo Presidente da Venezuela, eleito pelo voto popular de venezuelanos e venezuelanas.

Mais de 400 pessoas participam da Assembleia
Mais de 400 pessoas participam da Assembleia

Fonte: Com informações da Equipe de Comunicação da Assembleia Internacional dos Povos