Bolívia: o ódio da classe média, uma receita colonial

16 de Junho de 2017, por IELA


Como indica a cosmovisão andina, o tempo é cíclico e as novas táticas da direita condensam os prejuízos do velho sistema colonial

Por Barbara Ester, Shirley Ampuero e Ava Gomez

O caso da Bolívia é um dos mais emblemáticos quanto à radicalização das relações sociais. O atual presidente, Evo Morales, tem sofrido na própria pele o desprezo tanto local, quanto internacional, por sua origem étnica. Apesar de se estabelecer como um Estado Plurinacional, a elite tradicional boliviana alardeia uma credencial fenotípica: a branquitude. Pouco importam os avanços em matéria social e econômica, Evo é aimará e isso não tem perdão.

A luta contra o racismo se faz presente uma e outra vez. Sem ir mais longe, na 5ª Sessão da Rede Iberoamericana Contra a Discriminação – integrada por 18 países e mais de 40 organizações estatais e da sociedade civil –, realizada em Santa Cruz de La Sierra em maio, Evo qualificou o racismo como um dos instrumentos de dominação, submissão, humilhação, frente ao qual se deve dar resposta em prol da consolidação de um planeta plurinacional. [1]

Colonialismo e racismo, a gênesis

Na perspectiva de Aníbal Quijano, a globalização atual é, antes de tudo, o ponto mais álgido de um processo de longa data que inaugura um novo padrão de poder mundial por meio da conquista da América e estabelecimento do sistema capitalista colonial/moderno. A lógica eurocêntrica se estabeleceu sob um eixo principal: a inferioridade social do outro – o resta da população mundial – sobre a ideia de raça. Esta construção mental e discursiva expressa a experiência básica da dominação colonial, permeando desde então as dimensões mais importantes do poder mundial.

Apesar de a classificação social ser originária do período colonial, o fetiche da raça se mostrou mais duradouro e estável que o próprio colonialismo, em cuja matriz foi concebido. Implica, consequentemente, um elemento de colonialismo no padrão de poder hoje mundialmente hegemônico.

Evo Morales, o líder aimara

Evo Morales é o primeiro presidente indígena de seu país, além disso, reeleito em duas oportunidades. É também o primeiro mandatário boliviano surgido do setor trabalhista que chegou ao cargo mais alto do país andino; e o único que não teve problema em se impor na Assembleia Geral da ONU para defender o cultivo da coca, uma das principais produções bolivianas. Paradoxalmente, a própria imprensa – BBC, New York Times – reconhece a redução do cultivo qualificado como ilícito pela ONU, uma definição que se contradiz com os direitos dos povos originários de continuar com seu cultivo ancestral. [2]

A reforma constitucional de 2009 reivindica em sua introdução: “Deixamos no passado do Estado colonial, republicano e neoliberal. Assumimos o desafio histórico de construir coletivamente o Estado Unitário Social de Direito Plurinacional Comunitário”. No artigo 1º se dá um passo novo rumo ao Estado Plurinacional, por meio da criação do vice-ministério da Descolonização. Além disso, foi sancionada a lei 045 Contra o racismo e toda forma de discriminação. O atual vice-ministro, Félix Cárdena, foi ainda mais longe ao considerar como um processo simultâneo a necessidade de descolonizar em conjunto com a despatriarcalização da sociedade. [3]

A oposição violenta

Quanto à oposição, a técnica é similar o que acontece em outros países: o bairrismo é fator chave na hora de entender as rivalidades. Quem protesta contra as medidas da atual gestão marcha alegando uma suposta “defesa da democracia”, o mesmo argumento das direitas argentina e venezuelana, por exemplo.

Pouco antes de Evo assumir a presidência, a oposição começou a manifestar suas ações mais violentas. Em 2008 um grupo de opositores atacou em Sucre uns 50 camponeses quéchuas. Entre as agressões físicas e verbais, os algozes diziam palavrar de ordem como: “de joelhos, índios de merda, gritem viva à capital”, “peçam desculpas!”, e outras consignas de índole racista propícias aos golpes de grupos de jovens armados com paus, pedras, gás lacrimogêneo e dinamite. Nesta mesma ocasião os camponeses foram obrigados a tirar suas camisas, ficar de joelhos e queimar a bandeira do MAS (Movimento ao Socialismo – coalizão de Evo Morales) e a wiphala (bandeira símbolo das nações andinas). Desde então, a cada 24 de maio se celebra na Bolívia o Dia Nacional contra o Racismo e toda forma de discriminação para marcar este dia de humilhações. [4]

Neste mesmo ano – 2008 – o racismo se aprofundou de maneira inusitada em Santa Cruz de La Sierra, quando os indígenas e outros setores sociais se opuseram às exigências separatistas da oposição cujo objetivo era frear a reforma agrária e a nacionalização dos recursos naturais impulsionada pelo governo de Evo. Vale destacar que neste departamento está povoado por ex-criminosos de guerra nazistas acolhidos no final da 2ª Guerra Mundial. Dendê então, estes grupos detém o controle da maioria dos meios de produção e expulsam os indígenas de suas terras. Desta forma, institucionalizaram a exploração e a subserviência como forma de maximizar seus benefícios sobre a população originária.

Em 2015, as identidades originárias bolivianas sofreram um golpe quando Soledad Chapetón foi eleita prefeita de Alto, região chave da resistência indígena e favorável a Evo. Chapetón conquistou seu cargo apelando à identidade comum aimará, apesar de ser filiada ao partido de direita Unidade Nacional, liderado por Samuel Doria Medina, um dos homens mais ricos do país. Esta versão da nova direita andina conseguiu turvar as águas apelando a um imaginário comum sobre os projetos políticos. [5]

O ciberespaço das redes sociais não está alheio a esta disputa, pelo contrário, tem sido cenário de enfrentamentos, em particular nos momentos mais acirrados de se tomar decisões popular. Durante a campanha do referendo para decidir a possibilidade de reeleição de Evo, por exemplo, foi o campo de batalha onde novamente ganhou espaço o repertório do discurso racista contra o presidente e sua comunidade étnica.

Graças às políticas antes mencionadas, os termos “índio”, “camponês”, ou birlocha [algo como ‘mestiço’ no Brasil], já não eram mais usados de forma depreciativa nos últimos anos. No entanto, o discurso racista ressurgiu com o escândalo midiático de Gabriela Zapata [política e ex-esposa de Evo, supostamente envolvida em casos de corrupção], e os casos de suposta corrupção do Fundo Indígena. A imagem indígena na Bolívia, devido à nossa herança colonial, reúne todas as características negativas, sendo a honestidade e a humildade as únicas virtudes que se atribuem ao indígena. Precisamente esta imagem é a que querem tirar agora. O caso Zapata e o Fundo Indígena colocaram sobre o imaginário da classe média, graças à ingerência de meios de comunicação, que o MAS criou uma nova elite de índios corruptos, os “novos ricos” sem classe que não sabem sequer gastar seu dinheiro, os quais abusam dos privilégios estatais. Como indica a cosmovisão andina, o tempo é cíclico e as novas táticas da direita condensam os prejuízos do velho sistema colonial.

Notas

[1] https://notasperiodismopopular.com.ar/2017/05/24/evo-morales-racismo-ins...

[2] http://www.celag.org/patria-cocalera-sobre-cultivos-ilicitos-y-modelo-ec...

[3] https://www.youtube.com/watch?v=qNIZKj-hJjk

[4] https://www.servindi.org/actualidad/4096

[5] http://www.revistaanfibia.com/cronica/la-nueva-derecha-andina/

Fonte: Celag
Tradução: Mariana Serafini

Publicado originalmente por Prensa Latina