Bolívia: segue o jogo das eleições

30 de Janeiro de 2020, por Elaine Tavares

 

Luis Arce comemora trapalhadas da direita
Luis Arce comemora trapalhadas da direita

Quando decidiu servir de marionete para o golpe militar instituído na Bolívia, a então senadora Jeanine Añez declarou à imprensa que jamais se prestaria a ser candidata à presidência numa futura eleição, que estava apenas ajudando o seu país a sair das mãos do que ela chamava de “ditadura”. Pois bem. Em primeiro lugar, que apesar de todas as críticas que se possa ter a Evo Morales, ele não era um ditador. Foi eleito dentro das regras da democracia burguesa como qualquer outro dirigente. E, em segundo lugar, agora se pode ver muito bem a verdadeira face da presidenta usurpadora. Aí está ela, dizendo que vai disputar a eleição para a presidência.

Jeanine apareceu no cenário boliviano logo depois da renúncia de Evo Morales, tendo sido escolhida pelos militares golpistas em comum acordo com representantes da Igreja Católica, o fundamentalista Luis Camacho, o candidato derrotado Carlos Mesa e um recém criado Comitê de Defesa da Democracia, que nada mais era do que um nome fantasia para o golpe, afinal, para os derrotados da direita boliviana só existe democracia quando eles vencem. Uma historinha que nós no Brasil conhecemos muito bem.   

Como presidenta ilegítima, Jeanine tem governado bem ao gosto da direita racista. Tentou proibir o uso de roupas típicas dos indígenas nos prédios públicos, tem atuado em sintonia com os interesses da região da meia-lua, onde estão os latifundiários, e ainda promove intensa perseguição às rádios comunitárias, inclusive fechando dezenas delas sob a “acusação” de fazerem campanha para Evo Morales.  Nessa semana ela reestruturou seu gabinete de governo e afirma que em 3 de fevereiro apresentará seu nome, porque percebeu que não haverá uma frente unida contra o MAS e seu desejo é derrotar o partido de Evo. “Não queremos mais 14 anos de gente nos extorquindo”, declarou, seja lá o que for que isso signifique. Enquanto isso, o tal Comitê de Defesa da Democracia, tem insistido para que Jeanine não entre na disputa. Sempre é importante lembrar que a presidenta Añez tem como secretário de gabinete o jornalista que serviu durante anos à Embaixada dos Estados Unidos na Bolívia.

A decisão de Jeanine, segundo ela, acontece em função da impossibilidade da constituição de uma frente única da direita. Até o momento, além da proposta de nome da presidenta, que se ampara numa aliança chamada “Juntos Avancemos”, há pelo menos mais quatro outras propostas diferentes dos grupos de direita para a presidência.

O primeiro deles vem da aliança “Livres 21”, com Jorge Tuto Quiroga, ex-vice do ditador Hugo Banzer. Depois, também está disposto a disputar à presidência, o líder do golpe, o fundamentalista cristão Luis Fernando Camacho, a partir de uma aliança chamada “Cremos”. Carlos Mesa, que foi o candidato derrotado por Evo Morales igualmente apresenta seu nome através da aliança “Comunidade Cidadã”. Há ainda o nome da deputada Norma Pérola, que vem amparada numa aliança chamada “Povo Livre”. Há uma grande fragmentação no espectro golpista e por isso a atual mandatária acredita que, por estar no poder, e com a mídia a seu favor, ela teria mais condições de vencer o MAS.

O nome que representará o MAS nas eleições já está definido, é o do ex-ministro da Economia de Evo, Luis Arce Catacora, com bastante aceitação nas bases sindicais e indígenas. Ele foi escolhido por ampla maioria dentro do partido, mas desde que anunciou seu nome vem sofrendo feroz perseguição do governo. No início do mês, inclusive, foi chamado à justiça para depor sobre uma acusação de desvio de recursos do Fundo Indígena, mas a audiência, que aconteceria no último dia 29 de janeiro, acabou suspensa porque, segundo a fiscalía, havia sido chamada de maneira ilegal. A direita reclamou chamando o órgão de “masista”, e insiste em colar no candidato o tema da corrupção que, afinal, tem boa aceitação popular. Mas, o tiro saiu pela culatra. A suspensão do depoimento levou os partidário do MAS para frente da fiscalía com a realização de um ato público.  

O tema das eleições ainda não está resolvido. Há a possibilidade de que a decisão de Jeanine tenha sido mais um movimento do tabuleiro, visando construir um candidato unificado para a direita. Ela colocou lenha na fogueira e agora se espera mais movimentação junto aos comitês, visto que o prazo para a apresentação legal das candidaturas é o dia 3 de fevereiro.

Para esquentar ainda mais o clima, o ex-presidente Evo Morales decidiu apresentar sua candidatura à deputado ou senador pelo departamento de Cochabamba, mesmo estando exilado. Há informações de que assinou uma procuração para que fosse feita a inscrição. Ainda não se sabe se ela será aceita. Dirigentes do MAS entendem que esta não é uma boa opção pois não haveria segurança para Evo na Bolívia e também pode causar algum tipo de rebelião, coisa que, parece, ninguém quer, visto que a oposição segue tranquila confiando na eleição.  

Os jornais bolivianos, a maioria golpista, tratam de já descartar a postulação de Evo Morales, alegando que ele não mora mais no país, portanto não estaria habilitado a concorrer. Em nenhum momento, óbvio, os jornais discutem o fato de que ele teve de sair do país pois estava com a vida ameaçada.  

O tema está aberto. Mas, se a direita sair mesmo assim tão dividida pode até haver chance para o candidato do MAS. No campo da esquerda também aparecem candidatos, com possibilidades menores, mas que igualmente ainda têm tempo de se incorporar à frente do MAS. O dia 3 de fevereiro é que vai apontar os rumos.