Buenaventura, na Colômbia, em luta.

3 de Junho de 2017, por Elaine Tavares

Foto: AFP 2017/ JOAQUIN SARMIENTO
Foto: AFP 2017/ JOAQUIN SARMIENTO

Depois de uma longa greve que envolveu a população de Chocó na Colômbia, agora quem está protagonizando mais um importante movimento de paralisação é a gente de Buenaventura, uma cidade portuária no sudoeste do país. Nesse sábado (03) se completam 19 dias de greve, ou “paro cívico”, já que envolve a cidade inteira e não apenas um setor dos trabalhadores. 

Buenaventura é um município com 400 mil habitantes, no qual fica encravado o principal porto do país no lado do Pacífico, manejando mais de 60% de todo o comércio exterior. É dali que saem as mercadorias que seguem para o interior do país, fruto da importação. Mas, apesar de manejar tanta riqueza, é uma das regiões mais pobres da Colômbia, com 64% da população urbana vivendo em situação de extrema pobreza, 90% da população rural igualmente sendo considerada pobre, e 9% situada no campo da miséria. A cidade tem altos índices de violência e registra a presença de grupos armados que colocam toda a gente em risco cotidianamente. Pelo menos 50% da população já estiveram envolvidas em situação de violência e é a cidade com o maior índice de desalojados do país. 

Em Buenaventura a taxa de desemprego supera os 60% e praticamente 90% da população vive do trabalho informal. Um dos maiores problemas é a falta de água, com a maioria das famílias chegando a ficar até 16 horas por dia sem abastecimento. Justamente por conta disso que a população decidiu por realizar uma greve geral, exigindo do governo central a proteção das famílias e o investimento em aquedutos para garantir a água, bem como a construção de hospitais e escolas.  Praticamente a vida digna só existe no outro lado do muro do porto.

Os protestos começaram em maio e desde aí tem havido muitos enfrentamentos com a polícia. Ao longo dos dias de greve alguns grupos tem aproveitado a situação e protagonizado saques em lojas e supermercados, o que tem servido de desculpa para a polícia agir com truculência contra qualquer pessoa na rua. Como em Chocó, a maioria da população, em Buenaventura, é negra.

O principal ponto de conflito é a saída do porto, onde se realizam barricadas. Os trabalhadores não permitem que as cargas saiam, deixando passar apenas o que é alimento. Na madrugada deste sábado a tensão cresceu. Foram incendiados quatro caminhões e quinze outros veículos, com a polícia intervindo duramente. Pelos menos 300 pessoas saíram feridas, conforme números do próprio movimento. 

No decorrer da greve, como sempre acontece, a imprensa colombiana procura dar destaque para as perdas econômicas que vão crescendo dia a dia, chegando aos 50 milhões de dólares, segundo os dirigentes do porto. Já sobre a violência vivida pela população agora na greve, e no cotidiano da cidade, as notícias são escassas. São as redes sociais que fazem circular as fotos e os vídeos que mostram o uso desproporcional da força policial contra os protestos que são pacíficos. Há denúncias também de que os policiais estão circulando pelos bairros e invadindo moradias, causando o terror. 

Conforme denunciam as lideranças do movimento, existe uma ação coordenada por parte de empresários e governo para esvaziar de gente a região do porto. Expulsar as famílias que ali vivem há anos, para dar lugar a expansão da zona portuária. Uma das táticas é justamente degradar a região, deixar sem estrutura, para que as pessoas se movam e deixem o lugar. Mas, a população de Buenaventura está decidida a se manter na cidade e quer que o governo aja em consequência.

Já aconteceram várias mesas de negociação, mas ainda não houve acordo. Enquanto isso a cidade arde em movimento. O governo da Colômbia, que conseguiu encerrar a greve em Chocó, ainda está lidando com outra greve, a dos professores. 

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