Como ganhar dinheiro com a guerra

31 de Dezembro de 2017, por Elaine Tavares


É meio que lugar comum dizer que a guerra é uma tática muito bem orquestrada de algumas empresas e governos para simplesmente ganhar dinheiro. Mas, poucas vezes se pode ver isso de fato concretizado. Pois o jornalista Ramin Mazaheri, da Press TV, mostrou há pouco tempo, num texto na página “The Saker”, como isso realmente acontece. Ele destacou a informação que vazara, no mês de setembro de 2017, em alguns meios de comunicação, sobre o envolvimento do Ministério das Relações Exteriores da França, os órgãos de espionagem do mesmo país e uma companhia francesa em atuação na Síria, a Lafarge. 

Segundo as denúncias acessadas por Mazaheri, a Lafarge, que é a maior empresa de material de construção da França, colaborou diretamente com o grupo terrorista Al-Qaeda, bem como com o Estado Islâmico e outros grupos terroristas menores, de 2010 a 2014, quando implantou uma fábrica de concreto no norte da Síria. O concreto francês, é claro, reconstruindo – com alto custo para o governo sírio – aquilo que a guerra destruía. 

O que os funcionários da Lafarge contaram é que a empresa pagava propina aos grupos terroristas para que eles mantivessem o “mercado do concreto agitado”. Ou seja, quanto mais destruíssem, melhor para a Lafarge, e para isso, receberam milhares de euros. Os trabalhadores contaram também que o Ministério das Relações Exteriores da França não só tinha conhecimento de tudo, como incentivava. Nem mesmo quando terroristas sequestraram alguns funcionários da empresa, o governo francês fez qualquer movimento para tirar a Lafarge da Síria. “O governo francês nos incentivou a ficar porque aquele era o maior investimento do país na Síria”, contou o executivo Christian Herrault. Para a empresa, o único interesse era manter os lucros. 

Ainda conforme os depoimentos de trabalhadores os acordos firmados com os terroristas eram de que a empresa francesa se comprometia em construir a infraestrutura necessária para que eles vencessem a guerra, enquanto esses garantiam o fluxo do petróleo e de outros materiais necessários para a fabricação do concreto. A Lafarge estava preparada para, com os terroristas, dominar todo o mercado sírio da construção. Isso significava lucros astronômicos para os acionistas franceses.

Os trabalhadores franceses só saíram da Síria quando o Estado Islâmico endureceu e ocupou a fábrica em 2014, levando todo mundo como refém. Ainda assim, é muito pouco provável que a empresa francesa tenha tido algum prejuízo com isso. Ao que parece, até colaborou. Provavelmente o presidente sírio ainda teve de indenizar a empresa, que hoje continua funcionado, ainda que nas mãos de outros grupos empresariais. 

O jornalista levanta a suspeita de que a colaboração do governo francês com os terroristas não acabou em 2014 quando os trabalhadores deixaram o país, pelo contrário. Há informações de que os membros do Estado Islâmico esvaziaram todos os armazéns da empresa, levando todo o cimento fabricado, e apenas a Lafarge tinha os códigos de acesso. 

Toda essa trama digna de filme de James Bond veio à luz a partir da investigação de uma ONG chamada Sherpa, que tem por trabalho examinar o financiamento ilegal de empresas. Essa organização foi a que conseguiu os depoimentos dos ex-trabalhadores da Lafarge na Síria e agora essa multinacional está sendo processada por crimes de guerra, financiamento ilegal do terrorismo e crime contra a humanidade.  

Ainda segundo Mazaheri, é sabido que a França financia os terroristas com armas, mas a ação da empresa Lafarge, com o acobertamento do ministério mostra que esse financiamento se estende para além das armas e está visceralmente ligado às ações de guerra. “Se os terroristas tivessem ganhado a guerra na Síria, a Lafarge sairia como heroína no processo. Mas, graças ao Hezbollah, ao Irã e a Rússia, eles não venceram”, diz o jornalista. 

Na França o escândalo está sendo tratado apenas como um problema da Lafarge, mas pode ser uma bomba-relógio para o governo. O ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, terá de testemunhar no caso e muita coisa pode vir à tona. A ONG que investiga tudo isso pretende ir até o fundo das denúncias e mostrar como o governo está envolvido até o pescoço. 

Mas, quem conhece como funciona o modo capitalista de organização da vida, tem sérias dúvidas de que algum graúdo possa ser punido, ou que haja uma divulgação ampla do caso. O mesmo Mazaheri divulgou uma entrevista realizada por um jornalista francês, que igualmente vazou nos meios, com um atual executivo da Lafarge, Beat Hess. Ele diz, de maneira muito clara, que a justiça certamente só dará uma pequena multa. “Os juízes são franceses, e não sírios”, graceja. “Talvez alguém da equipe que atuou na Síria tenha de ir para a cadeia, mas apenas aqueles que tiverem pele marrom”. Hess ainda se diz bastante decepcionado com o fato de os terroristas terem sido derrotados na Síria, pois se ganhassem seria a Lafarge que comandaria o mercado de concreto no califado. Também argumentou que as taxas de lucro durante esse tempo foram monumentais e que ninguém de fato se incomoda com o fato de terem ajudado os terroristas. Era apenas negócio.

O caso da Lafarge é apenas um, e teve o “azar” de ser denunciado. Provavelmente as coisas se passarão como disse Hess, com uma pequena multa e a prisão de um ou dois funcionários de ascendência árabe. Por outro lado, se considerarmos as centenas de empresas estrangeiras que atuam nas zonas de guerra, fazendo o serviço duplo, tanto destruindo como construindo, é muito provável que também estejam atuando da mesma forma. Fazendo acordo com deus e o diabo, em nome do lucro, sem se importar com o fato de que para que isso aconteça milhões de pessoas tenham de morrer da forma mais bárbara.  No caso da Síria, por exemplo, havia a plena certeza de que o presidente Bashar Al-Assad terminaria como Kadafi, trucidado, e foi por isso que as multinacionais escolherem o lado dos terroristas, acreditando que com a ajuda dos governos estadunidense e europeus eles venceriam o conflito. Nesse caso se deram um mal. Mas, se houver uma investigação sobre a ação das empresas no Iraque, por exemplo, outros tantos casos como o da Lafarge devem assomar. Essa é uma prática comum. As guerras são processo de acumulação do capital. E que se danem as vidas, principalmente se forem de gente “marrom”. 


O texto original do jornalista Ramin Mazaheri, com a entrevista completa do executivo da Lafarge está no : https://thesaker.is/frances-lafarge-co-going-through-a-tough-time-after-proof-they-worked-with-terrorists-in-syria/