Comunicação: o uatizapi, sozinho, não muda o mundo

23 de Outubro de 2018, por Elaine Tavares


Teórico da comunicação, o canadense Marshall MacLuhan tem vindo à baila de novo, com seu determinismo tecnológico, pois em função das novas tecnologias que estão transformando o mundo muitos estudiosos da comunicação têm revisitado suas teses. Ele escreveu um livro em 1964 que trazia para o debate a questão dos meios de comunicação, sendo esses meios apresentados como a própria mensagem. Segundo ele o meio no qual a comunicação é propagada acaba sendo ele mesmo um instrumento importante de mudança das relações sociais. Um exemplo usado foi o da estrada de ferro. Sua disseminação, ligando os lugares, diminuindo o tempo para a chegada de uma carta, por exemplo, acabou extrapolando seu sentido de comunicação e alterando a vida das gentes em todas as esferas da existência. As tecnologias, então, para McLuhan, mudavam a escala, o ritmo e o padrão da vida humana. Assim foi o jornal, o rádio e a televisão. Ele acreditava que se devia estudar mais o meio e não apenas a mensagem que ele dissemina, como faziam os teóricos da época.

Bom, McLuhan estava certo na ideia de que se deveria estudar também o meio, mas errava em pensar que só olhando para o meio se poderia chegar a uma análise correta da realidade que envolve todo o processo comunicativo. Não seria assim tão simplista. A realidade é complexa. Mas, como é comum aos funcionalistas, a tendência sempre foi separar as partes, rejeitando a universalidade da análise.

Hoje, 2018, estamos no meio de um furacão tecnológico. Os meios de comunicação foram alterados significativamente, provocando, desde a popularização da internet, uma mudança concreta na temperatura social e política do planeta. Uma pessoa com um celular esperto na mão está conectada no mundo e não apenas recebe informações, mas também produz e compartilha. Tudo isso numa velocidade alucinante. 

Se fôssemos seguir a proposta de McLuhan – analisando apenas o meio - iríamos verificar parte das importantes mudanças que aconteceram na sociedade com a chegada dessas tecnologias. A vida ficou mais rápida, o tempo de tudo acelerou, as respostas são instantâneas, não há mais separação entre o público e o privado, o individualismo exacerbou, a alienação cresceu e a fronteira entre a realidade e a ficção vai desaparecendo. A internet tem se transformado na via principal da comunicação e o celular esperto é o meio onipresente na vida de um número gigante de seres humanos. 

Mas, para além do meio, há uma série de variáveis que também precisam atenção.  Como, por exemplo, a possibilidade do conhecimento concreto da realidade e a educação. Lembro que nos velhos tempos de discussão sobre a influência da televisão, ainda no século passado, Umberto Eco insistia no fato de que se deveriam criar espaços para o que ele chamava de “alfabetização para a televisão”. Entendia o pensador italiano que se as pessoas conhecessem as artimanhas da televisão teriam muito mais condições de se imunizar contra a manipulação, afinal, notícias falsas sempre foram constantes nos meios comerciais, sob o controle da classe dominante. 

Atualmente, a chance de uma pessoa ser manipulada pela informação falsa cresceu de maneira assustadora. E isso se deve justamente a revolução tecnológica que colocou em cena os novos equipamentos. Mas, é claro que a culpa da manipulação não é do celular esperto. De novo, questões como educação, conhecimento e poder econômico precisam ser agregadas à análise. Uma pessoa que compreenda como se dá o processo de dominação no mundo, educada para o uso das tecnologias, terá mais chance de navegar nesse mar de informação que jorra a uma velocidade estonteante. O pensamento crítico não brota como mágica. Precisa de muita leitura, muita reflexão, muito debate. Sem isso, a pessoa segue o fio da confiança. “Se foi fulano ou beltrano, em quem confio, que disse, tá dito”. 

A confiança é um ato de fé. Não é um processo de conhecimento. Mas, ao que parece, é o que dirige a vida internética nos dias atuais.

As eleições brasileiras estão mostrando de maneira bem clara como isso acontece. Existe o meio, que fatalmente muda a vida de toda a gente, mas também existe a mensagem fabricada e existe o poder econômico garantindo que essa mensagem feita de mentira, chegue aos celulares espertos das pessoas, pela via da confiança: os grupos de amigos e de família. 

Com isso, aderimos mais um elemento de análise que é a do poder econômico e como ele pode ser decisivo num processo e numa situação em que as pessoas estejam completamente despojadas da ferramenta do pensamento crítico. A guerrilha comunicacional implementada no Brasil não diz respeito apenas a milhões de pessoas que estão enojadas com a política e a corrupção e que, portanto, ficam sensíveis aos discursos moralistas. 

Estas pessoas são, de fato, importantes reprodutoras das mentiras criadas, mas sem a fabricação dessas mentiras, no texto e na imagem, elas certamente compartilhariam em seus grupos de confiança outras mensagens. O fato é que existem empresas especializadas em fabricar mentiras, existem empresas que roubam os dados disponibilizados nas redes sociais e existem empresas cujo trabalho é disparar mensagens para todos esses dados roubados e/ou comprados. Todas são empresas, logo, precisam ser pagas para fazer o serviço. E são pagas por quem? Pelos empresários que serão beneficiados com a situação que as mentiras criarão. É o círculo vicioso da dominação. Não se trata de fabricação de pós-verdades, como dizem alguns. É a mentira mesmo, a boa e velha mentira que sempre venceu as “guerras” de todo o tipo. E os meios de comunicação são os veículos perfeitos para a disseminação dessas mentiras. 

Quem insiste em dizer que os meios não têm todo esse poder, basta olhar para a história. Guerras são produzidas a partir da semeadura da mentira nos meios de comunicação de massa. Orson Welles colocou os Estados Unidos em estado de histeria com a “Guerra dos Mundos”, uma história de ficção de George Wells  transmitida pelo rádio como se fosse uma cobertura jornalística da chegada de extraterrestres, e chegou a levar pessoas ao suicídio. Naqueles dias, em 1938, o rádio era o nosso uatizapi. Mais no presente podemos falar do famigerado ataque dos EUA aos Iraque, depois de inocular o mundo inteiro com a mentira de que lá havia armas químicas que poderiam destruir o planeta.

Na atualidade a internet potencializa ainda mais esse processo de fabricação de mentiras. Foi assim na chamada “primavera árabe”, com a massiva participação do Youtube e do Facebook, criando e disseminando vídeos falsos que constituíram a “verdade” requerida pelos Estados Unidos para destruir vários países em sequência. A mentira tornando-se verdade. Não é pós-verdade, é mentira mesmo.

De novo é importante frisar: os meios não são responsáveis por isso. Os responsáveis são os governos, as pessoas, os grupos de poder. Julian Assange desvendou isso com o seu WikiLeaks, e está com a cabeça à prêmio, sem poder sair da embaixada do Equador em Londres, onde está preso, porque se botar o pé na rua é encarcerado pelos Estados Unidos, que o considera um “terrorista”. Quantos no mundo creem nisso? Outro que revelou como se dá o processo de manipulação das mentes com a apropriação de dados via facebook e redes sociais é Edward Snowden, igualmente caçado pelos EUA. A verdade está aí, às claras, mas poucos conseguem ver. 

Óbvio que as pessoas submetidas à manipulação não são campos vazios, no qual se plantam as mentiras e elas por si só comandam as vidas. Não é tão simples assim. As pessoas têm suas mentes bombardeadas diuturnamente pela comunicação da classe dominante, seja pelo jornal, rádio, televisão, outdoor, cartaz no ônibus etc... São meios que existem fora da bolha internética e que ainda têm força e incidência, por sua sistematicidade. Tudo isso vai adubando a mente para que as mentiras encontrem campo fértil onde se instalar e crescer. Nesse sentido, o celular esperto, que é só um meio – poderoso meio - acaba servindo para amalgamar e potencializar todo esse bombardeio ideológico necessário para manter o estado de coisas.

No caso do Brasil, a semeadura do ódio ao PT veio sendo feita desde o segundo mandato de Lula, crescendo exponencialmente a partir de Dilma Roussef. Foi sistemático e cotidiano e encontrou amparo na materialidade da vida das pessoas que começou a ruir também em função da crise econômica. Ancorados em meias-verdades, como os casos de corrupção – alguns verdadeiros, outros não – os grupos de poder foram fertilizando as mentes e preparando o terreno para as eleições deste ano. O que não esperavam era que um candidato, fora do circuito tradicional dos partidos e dos grupos de poder, fosse sintetizar de maneira tão bem acabada toda a carga de preconceito, moralismo, medo e ódio que a classe dominante, de maneira tão profissional, insiste em manter viva para manipular as pessoas segundo seus interesses. 

Não é sem razão que a velha elite, apesar do susto inicial, agora já vai se aproximando do candidato fascista, porque reconhece que ele hoje comanda as massas e isso é tudo que interessa. Assim, caso Bolsonaro vença as eleições, não será surpresa ver a direita tradicional governando junto, atuando novamente no sentido de semear mentiras para justificar a sistemática dominação. A culpa dos desastres governamentais sempre será de outro e o repertório de mentiras é sempre renovado, com o auxílio seguro dos meios de comunicação, todos eles. 

Contra isso, há que reinventar as formas de intervenção. Lembrando sempre que é a confiança que comanda. Por isso que a relação pessoa/pessoa não pode deixar de existir. É a confiança pessoal que determina a fé das gentes. Nesse sentido, insisto no bom e velho trabalho de base, quando o olho no olho, o conhecimento interpessoal, amoroso e comprometido, faz a diferença. Hoje, os grupos de uatizapi que disseminam ódio são grupos formados por pessoas que se conhecem, que tem laços afetivos e confiam umas nas outras. Logo, o uatizapi é só o meio que as unifica e comunga. Ele, sozinho, não provoca estragos. É toda essa trama que, usando o uatizapi, se consolida.

Correndo o risco de ser apontada como uma idealista romântica, insisto no trabalho de base, que foi abandonado pelos partidos. Um trabalho desenvolvido por pessoas bem formadas, preparadas, armadas de conhecimento crítico. 

A roda da vida não para e aconteça o que acontecer, a luta segue. Resistimos e resistiremos.