As contradições do mundo não cabem na dicotomia direita-esquerda

29 de Maio de 2018, por Maicon Cláudio da Silva

Na política, não existe manifestação sem contradição.
Na política, não existe manifestação sem contradição.

Nos últimos dias, diante da greve nacional dos caminhoneiros e das manifestações que aconteceram em diversas cidades do país, as discussões sobre a disputa entre direita e esquerda voltaram a ser centro do debate. Não foram poucas as acusações nas redes sociais feitas por pessoas de “esquerda” contra o suposto conservadorismo da greve. Alguns dos comentários, no mais rasteiro dos revanchismos, regozijavam-se com a situação atual, entendendo-a como um castigo aos “patos” e “paneleiros”.

Não é a primeira vez que recordo os limites da caracterização direita-esquerda para entender o mundo. Na verdade, a utilização dos termos direita e esquerda para designar inclinação política tem origem na Revolução Francesa, de 1789, em que após a derrota da Monarquia, sentavam-se no Parlamento, à direita, os liberais girondinos, e à esquerda, os jacobinos, mais radicais. Esquerda nada tinha a ver com movimento socialista. Aliás, não passavam pelas propostas jacobinas qualquer tipo de superação da economia capitalista.

De fato, não é a toa que Marx e Engels no Manifesto Comunista escreveram que “a história de todas as sociedades até hoje tem sido a história da luta de classes” e não “a história da luta entre direita e esquerda”. Isto porque o que move em última instância a vida das pessoas é a materialidade da classe, sua relação com a propriedade e com a produção de riqueza.

Agora é claro que na práxis social as ações não podem ser resumidas mecanicamente à materialidade da classe. Isto porque, em qualquer sociedade antagônica as classes dominantes controlam além da produção material, a produção espiritual do homem. “A ideologias dominantes são em todas as épocas, as ideologias da classe dominante”, nos dizem Marx e Engels na Ideologia Alemã.

De fato é isto que leva o Venezuelano Ludovico Silva a afirmar a existência de uma “mais-valia ideológica”. Se na fábrica o trabalhador produz uma mais-valia material que garante a reprodução material do sistema capitalista, quando esse mesmo trabalhador chega a casa e assiste televisão ou lê jornais, continua imerso no mundo das mercadorias, e passa a produzir, mesmo não estando mais no trabalho, uma mais-valia ideológica, que garante a reprodução ideológica deste mundo.

Indo na mesma linha, Gilberto Felisberto Vasconcellos defenderá que estamos inseridos no que ele chama de capitalismo vídeo-financeiro, em que a televisão, em especial a novela, tem um poder tão grande sobre a sociedade a ponto de influenciar inclusive a própria estética da esquerda.

Independente de como se queira analisar a particularidade da relação entre ideologia e classe, o fato é que as ações das classes sociais, em especial do proletariado, precisam ser mediadas pelo controle ideológico da sua forma de pensar.

Não por acaso, o boliviano René Zavaleta Mercado recorda que frequentemente as próprias massas são portadoras de reacionarismo, o que contradiz a difundida ideia da massa como portadora natural da democracia. De fato, esse exemplo de conservadorismo pode ser recordado, por exemplo, quando da primeira tentativa de independência da Venezuela promovida por Simón Bolívar, em que junto aos espanhóis e realistas, estavam massas negras e escravizadas. Ou como no caso do nazismo alemão. Nas palavras de Zavaleta:

“Também Hitler constituiu a uma massa. O povo mesmo, então, é portador de heranças contraditórias e contém ao mesmo tempo, lembranças de suas incorporações democráticas e de sua carga servil”.      (El Estado en América Latina, 1989, tradução nossa).

Essas contradições desencadeiam uma situação complexa que reforça a importância da organização e politização dos trabalhadores, bem como o papel da vanguarda revolucionária. E é nesse sentido que a compreensão das relações sociais como uma disputa entre direita e esquerda é extremamente equivocada. Isto porque o militante de “esquerda” parece querer buscar um trabalhador pronto, espelho de si mesmo. Não compreende, portanto, que o próprio trabalhador está imerso em contradições sociais, advindas tanto de sua condição de classe como da dominação ideológica a que está submetido.

Ao “exigir” que as manifestações populares tenham caráter claro de “esquerda”, esta militância revela sua impotência: primeiro, por não compreender que a sociedade é dividida em classes, e que todo trabalhador quando se manifesta expressa as diversas contradições a que está submetido, e segundo, porque submetida à lógica parlamentar, refugia-se na afirmativa de que as manifestações são “de direita” para se proteger de qualquer manifestação popular da qual não tenha controle absoluto.

Não entender as contradições às quais as massas estão submetidas é um equívoco tremendo. E foi essa lição que Simón Bolívar aprendeu há dois séculos, quando após sua derrota e exílio, volta à Venezuela numa nova tentativa de libertá-la do jugo colonial. Dessa vez, politizando o povo, lutará pela abolição da escravidão. Contará assim com apoio das massas negras e escravizadas, que lutarão ao seu lado, pela liberdade da América e por sua própria liberdade.