De Pandemia, de Ciência e de Volta à Normalidade

7 de Janeiro de 2021, por Carlos Walter Porto-Gonçalves


Sim, a pandemia bagunçou nossas vidas. E, mais, vem nos obrigando a rever os valores que emprestamos às nossas vidas, ainda que muitos estejam preocupados no curto prazo com a volta à normalidade. A morte, contra a qual uma filosofia antropocêntrica quer vencer como afirmação de um homem (varão, branco europeu e proprietário) que quer dominar a natureza, se mostra diante de cada um de nós não como uma possibilidade remota, mas ali na esquina, no vizinho, no ar. E diante da nossa impotência esperamos um milagre da Ciência como antes se esperava um milagre dos Deuses.

Sim, a Ciência ocupa o lugar dos Deuses [1] já que nós, os mortais, nessa sociedade, somos impotentes para lidar com a pandemia, é dizer, com a morte, é dizer, com a vida. Sim, a vacina. Que venha a vacina! Todos bradam, que venha a vacina, até mesmo aqueles que até aqui lutavam contra os transgênicos e nem se perguntam como se produzem as vacinas que nos serão aplicadas, sim com alguns testes, mas por quase todo lado de modo emergencial. Também aqui um curtoprazismo domina em nome do combate à pandemia e da volta à normalidade.

E não se levantem dúvidas, pois logo serão acusados de negacionistas, como se o mundo científico, tão evocado, não se movesse por elas, as dúvidas. Já Descartes invocara a “dúvida metódica” e Marx deixara como conselho que duvidássemos de tudo, ambos reivindicando-se do mundo científico, ainda que muito diferentes entre si. Outros tempos, quando o futuro ainda era objeto de disputa, ao contrário de hoje em que esse futuro é negado como opção por um presente que se quer eterno, outro modo de dizer o fim da história.

Difícil tem sido admitir que a normalidade a que se quer retornar é a mesma que nos levou à pandemia! Ela nos havia oferecido conforto, essa palavra mágica que justifica todo avanço tecnocientífico, sem que nos déssemos conta que as relações técnicas não são exteriores às relações sociais e de poder. Ao contrário, as relações sociais e de poder se fazem também por meio da tecnologia. Afinal, a revolução tecnológica em curso não foi posta em curso pela tecnologia, mas sim por homens e mulheres de carne e osso através das relações sociais e de poder.

Desde o fim da IIª Guerra passamos a demandar do planeta matéria e energia em proporções jamais vistas em qualquer período igual de tempo em toda a história da humanidade, a ponto de alguns analistas chamarem esse período do pós-guerra de A Grande Aceleração, expressão que dá sentido metabólico ao Moinho Satânico d’A Grande Transformação de Karl Polanyi. Até mesmo uma nova era geológica vem sendo proposta, o Antropoceno, que outros preferem chamar Capitaloceno. Na dúvida, chamemos Antropoceno/Capitaloceno.

De fato, as transformações sociometabólicas são impressionantes, como bem detalhou o historiador Luiz Duarte em seu livro Capitalismo e Colapso Ambiental (Cia das Letras, São Paulo, 2015). O geólogo argentino Eduardo de Mari nos alertara que, até 1945, manipulávamos não mais que 25 a 30 dos elementos da tabela periódica da química em nossos alimentos e remédios. Hoje manipulamos toda a tabela periódica, incluindo seus elementos sintéticos. Cada vez mais falamos de química fina, biologia molecular, microbiologia, física nuclear, física atômica, microeletrônica, nanotecnologia. Observe-se a escala: molecular, micro, nuclear, fina, átomo, nanômetro. Como se vê, cada vez se trabalha no nível mais íntimo da matéria transformando não só o ambiente que nos envolve como também o ambiente interno dos nossos corpos.

Desde 1960, a população mundial mais que dobrou, de 3.2 bilhões passou a 7.2 bilhões de habitantes e, mais do que isso, nos vimos diante de uma transformação metabólica que desruralizou e sub-urbanizou por todo lado, ainda que de modo desigual segundo a geografia planetária. Hoje, os não-rurais predominam sobre os rurais. De cada dez desses habitantes não-rurais, sete estão na América Latina, na África ou na Ásia e não na Europa ou nos EEUU. Não seria correto chamar de urbanos aos que se aglomeram nas periferias dessas “cidades” que pouco ou nada têm a ver com a cidadeluz que a modernidade eurocêntrica nos prometeu.

Toda essa transformação metabólica d’A Grande Aceleração e desruralização/sub-urbanização se deu junto com o mais intenso e tenso processo expropriatório jamais visto em toda a história da humanidade num mesmo período de tempo. Enfim, nunca se expulsou tantos camponeses e povos originários de suas terras e territórios como nesse período do pós-guerra, considerado como a Idade de Ouro do capitalismo. O glamour hollywoodiano e o conforto do american way of life se
apresentaram como alternativa ao que os críticos do capitalismo buscavam no que denominavam o “homem novo”. A ideia de bem-estar ganhou corações e mentes, até mesmo entre certos setores de esquerda com seu Welfare State. Nas esquerdas talvez tenha sido Ernesto Che Guevara um dos últimos a falar de “hombre nuevo”, ideia que nutria bem longe da ideia de bem-estar que, inclusive, vicejava entre muitos de seus camaradas.

Essa profunda transformação metabólica, que Luiz Marques chamou de colapso ambiental, já havia sido antecipada, ainda que em termos relativamente tímidos diante do que vem se passando, com a ideia de fratura metabólica que Marx havia proposto inspirado em Justus von Liebig. Aqui, faz todo sentido o conceito de Antropoceno, ou de Capitaloceno, considerando-se, entretanto, que todo esse processo vem sendo protagonizado por um complexo de poder capitalista tecnocientífico-industrialfinanceiro-militar-midiático. Tudo em nome do progresso, da civilização e do desenvolvimento para nosso conforto desde que, é claro, sejam garantidos os lucros do
capital realizados com a venda final do produto devidamente embalado. E embalar é não só embalar um produto numa embalagem, mas também pode ser embalar-nos, tal como uma criança sendo levada ao colo, fazendo-nos dormir e, sonhando acordados, realizemos nossos sonhos em grande parte sugeridos pelo marketing e pela publicidade.

Não haveria tanta embalagem no lixo (entropia) não fossem embalados nossos desejos. Felix Guatarri chamou a isso “fabricação capitalística da subjetividade”. A China, nos últimos 30 anos, transferiu mais de 500 milhões de sua população rural para ambientes não-rurais, uma transformação metabólica de uma magnitude jamais vivida num espaço relativamente restrito num período de tempo tão curto. E com efeitos à escala planetária, haja vista ter se transformado no país maior importador de matéria e energia do mundo nesse período (Marques, op. cit). Não estranhemos, pois, quando a China se torna o epicentro de tantos patógenos e de irradiação de epidemias e pandemias.

Evitemos aqui o maniqueísmo ideológico, interessado geopoliticamente, que tenta condenar o governo chinês esquecendo que as grandes corporações capitalistas mundiais aceitaram o convite do governo chinês e a ele se associaram na sua sanha própria por acumulação ampliada. O que não esperavam, embora fossem alertados por várias instituições (Mendez, 2020) [2] , é que um vírus poderia se expandir justamente pela logística do just in time/just in space e fizesse sua reprodução ampliada numa velocidade que pôs todo o sistema de saúde do mundo em xeque, sobretudo o dos países capitalistas avançados, como os europeus e os EEUU.

Chama a atenção que seja no continente europeu e nos EEUU, que impuseram ao mundo seu modelo de desenvolvimento, vivam hoje o drama de serem os mais atingidos por casos de contaminação e óbitos por coronavírus. Nem mesmo EPIS e respiradores esses países tinham e se viram obrigados a comprá-los da China depois que a pandemia se espraiou, justamente importando do país para onde haviam transferido suas indústrias para ali ganharem mais dinheiro aceitando o convite do governo chinês. Enfim, a bolsa acima da vida e o velho/atual negócio da China que a tantos atrai!

Vivemos, desde os anos 1970, uma nova fase do capitalismo onde o momento da circulação adquire um papel preponderante no processo global de produção. A fábrica já não é o momento privilegiado da produção, haja vista que a fábrica, hoje, já não é um lugar específico onde se dá a produção propriamente dita. É o espaço social total, interligado pela logística – estradas, dutos, portos, redes virtuais, containerização - onde a circulação deve ser a mais lisa e veloz possível para que o tempo total de rotação do capital da fábrica social total se faça de modo mais rápido, diminuindo o tempo de trabalho socialmente necessário.

Com isso, o capital impôs uma derrota à classe operária que, em parte, retirava seu poder dessa concentração nas fábricas e nos bairros e regiões operárias. Mais uma vez, uma profunda revolução nas relações sociais e de poder por meio da tecnologia. A classe operária ainda não se recuperou dessa derrota. As lutas de classes mudaram de escala atravessando o espaço social como um todo.

O que não estava no horizonte dos que protagonizaram esse processo é que essas dinâmicas societárias não escapam da inscrição metabólica e, por meio da logística, que garantiria a velocidade que o capital buscava para sua reprodução ampliada, um vírus, o coronavírus (SARS-CoV-2), cuja característica é, justamente, sua velocidade de transmissão, encontrasse nessa mesma logística as condições mais favoráveis para sua reprodução ampliada. Eis a pandemia.

Enfim, o colapso ambiental se revelou enquanto pandemia, e a fratura metabólica mostrou que, para além da devastação ambiental que tanto se denunciava, afetava também nossos corpos e não só os corpos dos mais pobres, embora sejam os que mais sofrem, mas sobretudo o dos mais frágeis, o que inclui os idosos até mesmo das classes privilegiadas. Consideremos que a melhor tecnociência esteve subjacente a todo esse processo (contraditório) de desenvolvimento, aumentando a potência na transformação da natureza não a serviço da humanidade, como esse sistema de opressão/exploração/subalternização se apresenta a si mesmo, mas a serviço do capital,
potência essa que moveu montanhas em todo o mundo e para interconectá-lo montou um poderoso sistema logístico que também potencializou a reprodução ampliada do vírus.

Diante do cenário de incertezas trazido pela pandemia, uma falsa oposição parece comandar o debate entre negacionistas e crentes na Ciência. Não me parece que os negacionistas sejam os que negam a Ciência, mas sim os que negam a vida, insensíveis à dor alheia, o que já faziam antes mesmo da pandemia. Trump e Bolsonaro, por exemplo, já negavam a vida antes da pandemia. Colocá-los como os avessos à Ciência me parece um argumento mais de conveniência dos que assim o fazem, em vez de fazer a crítica política que eles merecem. E é bom lembrar que tais negacionistas fazem a defesa da liberdade individual e da economia e, assim, colocam a bolsa acima da vida.

Podemos combater a pandemia sem questionar esses valores? Ou não consideramos devidamente que a liberdade individual sem limites politicamente estabelecidos é a lei do mais forte que, por isso, se querem sem limites. Não esqueçamos que a origem da palavra política em grego é limite, já que polis, originariamente, era a denominação que se dava ao limite entre a cidade e o campo.
Invocar acriticamente a Ciência não me parece prudente, ainda mais nesse momento em que tanto precisamos do pensamento crítico, aliás condição de qualquer Ciência digna desse nome. Desde Hiroshima e Nagasaki, pelo menos, deveríamos ter formado a convicção que a Ciência, não necessariamente, está a serviço da vida e que a Ciência é séria demais para ficar nas mãos exclusivas dos cientistas. E, se ainda for necessário, lembremos de Michel Foucault que nos alertara que a Ciência está mais politizada do que se admite.

Assim, querer voltar à normalidade esquecendo que foi essa normalidade, que sumariamente descrevemos acima, que nos deu a pandemia, não me parece uma posição cientificamente sustentável. As recomendações mais comuns que se fazem para evitar a contaminação pelo coronavírus não são propriamente científicas: manter o isolamento social, lavar as mãos e usar máscaras. São recomendações que vêm da experiência secular da humanidade, como os historiadores registram. O fato de  estarmos dependentes de uma vacina e nas mãos dos laboratórios e seus cientistas é, em si mesmo, um fato revelador de como a produção de conhecimento se afastou da vida e passou a ser feito em ambientes controlados por especialistas, cada vez mais controlados pelo capital.

Enquanto a vacina não vem, tratemos de usar o melhor do conhecimento vernacular, comum, usando máscaras, mantendo o isolamento social e mantendo a higiene, ainda que saibamos que os mais oprimidos/explorados/subalternizados não têm as condições para fazê-lo sobretudo
nos ambientes precários das periferias sub-urbanas. Enfim, valorizemos: há conhecimento além do conhecimento científico e, com isso, não vai qualquer desvalorização da Ciência. Não há vida sem conhecimento já nos ensinaram os biólogos chilenos mundialmente consagrados Humberto Maturana e Francisco Varela.

A questão de fundo, me parece, que se apresenta é a luta pela reapropriação social da natureza, como nos ensinara Enrique Leff, já que fomos, em maioria, privados das condições metabólicas de produção-reprodução da vida pela generalização de um tipo de propriedade que nos faz reféns dos proprietários privados dos meios de vida.

Mais do que nunca é necessário resgatar o sentido mais profundo da política e assumirmos nossas responsabilidades, não mais as transferindo para os Deuses ou para a Ciência. E a política, segundo Jacques Rancière, só é verdadeiramente Política, se o futuro está aberto e não necessariamente determinado seja por Leis da História, por Leis da Ciência ou por Deuses. E com todo o respeito que a História, a Ciência e a Religião merecem, enquanto criações humanas e, como tais, sempre passíveis de crítica.

Notas

1 Não esqueçamos que os deuses, com minúscula, sempre habitaram esse mundo mundano colocando limites aos homens, como registram as comunidades camponesas e os povos originários. Os santuários onde não se pode plantar, geralmente são lugares especiais de reprodução da vida. Os mitos e os ritos traduzem essas possibilidades e limites da criação da vida.

2 Nesse livro, o geógrafo espanhol Ricardo Mendez nos informa que não foram poucos os alertas de instituições de saúde para a iminência de uma pandemia e que foram menosprezadas pelos tomadores de decisão, é dizer, pelos estados e pelas grandes corporações. Em janeiro de 2020, nos mesmos dias em que se realizava o Fórum Econômico de Davos, se noticiava a presença do vírus na China. Nesse Fórum a saúde ameaçada não figurava entre os 10 maiores desafios que se apresentavam no horizonte. Que autoridade têm essas instituições para garantir uma volta à normalidade? Mendez, Ricardo. 2020. Sitiados por la Pandemia: del colapso a la reconstrucción: apuntes geográficos. Disponível na web: http://cchs.csic.es/es/article/ricardo-mendez-iegd-publica-sitiados-pand....

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Carlos Walter Porto-Gonçalves é professor  titular do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense. Ganhador do Prêmio Milton Santos conferido pelo Encontro Nacional de Geógrafos da América Latina em 2019 e do Prêmio Casa de las Américas em Literatura Brasileira (Gênero Ensaio Histórico-Social) conferido pela Casa de las Américas, La Habana, Cuba, em 2008.