Drummond: oito décadas de vida e trinta anos de saudade...

4 de Agosto de 2017, por Renisse Ordine

Foto: Blog da Poeme-se
Foto: Blog da Poeme-se

Há trinta anos a poesia está sem o criador dos versos do “Poema das sete faces”, aquele que foi um “gauche na vida” e no decorrer de sua existência tornou-se um ícone da poesia brasileira.

  
Das Minas Gerais para o mundo: apesar de ser uma frase clichê, esse foi o verdadeiro caminho de um dos maiores poetas de nossa literatura contemporânea. E o mais interessante é que Drummond de Andrade não   precisou sair dos solos brasileiros para que sua obra fosse reconhecida mundialmente. As palavras, essas que ela tanto amou, antes mesmo de saberem o que diziam, fizeram o seu destino.

Em suas obras, que reúnem poesias e crônicas, o poeta descreveu tudo o que presenciou. Nascido no início do século XX, em Itabira, Minas Gerais ele era retratado como um homem tímido, que observava a história, e a passava conforme a sua visão de mundo, com maturidade. Foi um homem que não gostava de viajar propriamente, por isso utilizava as palavras para se “locomover”. A paixão que sentia por sua filha, considerada “o seu melhor livro” foi a única razão que o fez abandonar os solos brasileiros. Porém, as suas obras viajaram mundo, sendo traduzidas em vários idiomas, sempre com grande sucesso.

Suas poesias despertam em nós um sentimento profundo, como se pudéssemos sentir o que ele passou. Não é uma poesia abstrata, tem um valor, um significado. Uma demonstração da vida, com seus momentos, de paixão, de tristeza, alegria e bom humor. 

Em sua primeira obra publicada “ Alguma Poesia”, lançada em 1936 Drummond relata os momentos de sua meninice no poema “Infância”, no qual conseguimos perceber suas condições de vida.

“Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre as mangueiras
Lia história de Robison Crusóe, 
Comprida demais que não acaba mais...”

Outro poema de Drummond que consta neste livro é um dos mais famosos do poeta: “O homem de sete faces”, um poema cubista, pois altera os ambientes. No caso, da parte espiritual vai para o um ambiente realista, simultaneamente. 

“Quando nasci, um anjo torto 
Desses que vivem na sombra 
Disse: Vai, Carlos ser guauche na vida.

As casas espiam os homens 
Que correm atrás de mulheres. 
A tarde talvez fosse azul, 
Não houvesse tantos desejos...”

Desde a primeira obra publicada, o autor já faz uma referência ao seu grande amigo, o também escritor Mário de Andrade. A amizade entre os dois iniciou-se em 1924, quando Mário de Andrade de passagem por Minas Gerais, juntamente com os artistas modernistas, o   francês Blaise Cendras, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, o conheceu. 

No entanto, Drummond fez parte da 2ª Geração dos escritores e artistas que romperam com o estilo literário europeu que vigorava no Brasil desde o período colonial, retirando assim o esteticismo para entrar num estilo popular. Na Revista de Antropofagia foi publicado o poema “No meio do Caminho” o que escandalizou e gerou inúmeras críticas por parte de outros escritores, devido a sua simplicidade.

"Drummond guardou muita coisa que saiu sobre ele ao longo da vida, mas em pastas, por assunto ou pelo sobrenome do crítico", diz Ferraz, destacando a consciência do poeta - que trabalhou por muitos anos no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional) - e a importância da preservação da memória. "A diferença, no que diz respeito a No Meio do Caminho, é que ele arquivou tudo não sobre o livro que o continha, mas sobre aquele poema." Ferraz destaca ainda que, embora não tenha escrito uma única linha da biografia - o prefácio original ficou a cargo do português Arnaldo Saraiva -, Drummond fez sua própria leitura sobre as críticas ao separá-las em capítulos com títulos como Muita Gente Irritada, Das Incompreensões e Popularidade, Mesmo Negativa. (ESTADÃO, 2010)

O que não se pode negar nos poemas de Drummond é o seu bom humor, presente em seus poemas, como por exemplo:

Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
Que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, 
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
Que não tinha entrado para a história.

Em suas obras também não faltaram as críticas e os sentimentos em relação aos fatos que estavam ocorrendo nas respectivas épocas, como as duas grandes guerras mundiais, a revolução das mulheres, a ditadura.

Em um passeio por seus poemas e crônicas podemos compreender toda a realidade de Drummond. Em suas crônicas, por exemplo, percebemos que ele retrata mais o seu cotidiano no Rio de Janeiro, e escreve sobre as pessoas, as rotinas das pessoas da cidade grande, com a vida mais agitada e capital da República.

Nesta fase, quando se muda para o Rio, Drummond além de poeta, começa a trabalhar no serviço público, chegando a trabalhar com o Ministro da Educação, Gustavo Capanema. Preocupava-se com os problemas sociais, era simpatizante da esquerda, porém não se filiou a nenhum partido, os seus desabafos foram muito bem caracterizados em sua obra “Rosa do Povo” e “Sentimento do Mundo”.

Nesses trinta anos de sua partida, Drummond não perdeu a sua importância, ao contrário, ainda é o mais importante de sua linha literária.  

Toda a sua vida, descrita por versos, é um encanto nosso, e de toda uma geração que há de vir, que sentirá nesse simples mineiro de Itabira, toda a sua paixão por aquilo que o guiou nos seus caminhos: a poesia. 

 “ Há dez mil definições de poesia, eu não tenho nenhuma própria. Você escolherá o que achar mais interessante, porque a poesia por sim mesma é a explicação do mundo. E a explicação da poesia fica por conta do leitor e da sensibilidade deles” . (Carlos Drummond de Andrade)