Elliott Abrams e a democracia

12 de Março de 2019, por Jon Schwarz


Elliott Abrams, o homem que dedicou a sua vida a destruir a democracia,  mas foi designado por Trump para levar a "democracia" à Venezuela

Em 11 de Dezembro de 1981, em El Salvador, um esquadrão militar salvadorenho massacrou até ao último todos os habitantes de uma aldeia isolada chamada El Mozote. Antes de matá-los, os soldados violaram repetidamente mulheres e meninas, algumas com apenas dez anos, enquanto riam da sua preferência pelas de doze anos. Uma testemunha descreveu um soldado atirando uma criança de três anos ao ar para a empalar na sua baioneta. A conta final foi de mais de 800 mortes. 

No dia seguinte, 12 de Dezembro, Elliott Abrams começou seu trabalho como secretário de Estado Adjunto para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, na Administração Reagan. Abrams imediatamente entrou em acção, dentro da equipe dirigente encarregada de abafar o massacre. Perante o Senado, Abrams afirmou que os boletins de notícias sobre os eventos "não eram críveis" e que a guerrilha anti-governamental tinha "escandalosamente divulgado" o caso para fins de propaganda. 

Recentemente o secretário de Estado Mike Pompeo nomeou Elliott Abrams como enviado especial do governo dos EUA encarregado da Venezuela. Segundo Pompeo, Abrams "será responsável por tudo o que se relaciona com nossos esforços para restaurar a democracia", no país rico em recursos petrolíferos. 

A escolha de Abrams é uma mensagem clara, enviada à Venezuela, mas também ao resto do mundo: o governo Trump pretende brutalizar a Venezuela, derramando um fluxo de retórica untuosa baseada no amor da América pela Democracia e pelos Direitos Humanos. A combinação desses dois factores – brutalidade, suavidade – é a principal habilidade de Abrams. 

Anteriormente, Abrams serviu nas administrações de Ronald Reagan e, posteriormente, de George W. Bush, uma multiplicidade de posições cujas designações mencionavam frequentemente um propósito moral. Foi primeiro vice-secretário de Estado das Organizações Internacionais (1981); ocupou o cargo de "direitos humanos" na Secretaria de Estado, (1981-1985); subsecretário de Estado Adjunto para Assuntos Interamericanos (1985-1989); director sénior responsável pela Democracia, Direitos Humanos e Operações Internacionais, do Conselho Nacional de Segurança (2001-2005), antes de se tornar Delegado Conselheiro de Segurança Nacional, responsável pela Estratégia para a Democracia no Mundo, de George W. Bush (2005-2009). 

Cada uma dessas posições permitiu a Abrams desempenhar um papel em algumas das mais chocantes operações de política externa dos EUA dos últimos 40 anos, durante as quais ele repetidamente declarou estar preocupado com o destino daqueles estrangeiros que ele e seus amigos assassinavam. Em retrospecto, a presença quase sistemática de Abrams durante as mais sórdidas intervenções dos EUA tem algo de inaudito. 

Abrams formou-se na Faculdade de Artes e Ciências de Harvard, depois na Faculdade de Direito da mesma universidade, antes de ingressar na Administração Reagan em 1981, com 33 anos. Foi rapidamente promovido após um golpe de sorte: Reagan queria nomear Ernest Lefevere como vice-secretário de Estado para os Direitos Humanos e Assuntos Humanitários, mas a nomeação de Lefevere foi destruída pelas revelações de dois de seus próprios irmãos, segundo os quais ele estava convencido da "inferioridade, intelectual" dos afro-americanos. Desapontado, Reagan foi forçado a usar Abrams, em alternativa. 

Na época, a América Central estava no centro das preocupações do governo Reagan – incluindo quatro nações vizinhas: Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua. Desde a sua fundação, todos estavam sob o domínio cruel de uma elite branca ultra-minoritária, apoiada durante um século pelo intervencionismo dos EUA. Em todos esses países, as famílias dominantes consideravam os outros habitantes da sociedade como animais de forma humana, que podiam explorar ou mesmo matar de acordo com suas necessidades. 

Quando Reagan assumiu o cargo, uma revolução socialista acabara de derrubar Anastasio Somoza, ditador da Nicarágua e aliado dos Estados Unidos. Logicamente, os partidários de Reagan interpretaram essa reversão como uma ameaça aos governos dos vizinhos da Nicarágua. Em todos esses países, as populações eram numerosas e, como as da Nicarágua, suportavam mal o seu destino de trabalhadores agrícolas explorados até a morte nas plantações de café e de pais cujos filhos sucumbiam sob seus olhos de doenças em que um tratamento simples teria permitido que sobrevivessem. Alguns teriam pegado em armas, outros apenas ficariam discretos, mas, do ponto de vista dos soldados da Guerra-fria na Casa Branca, todos eram potenciais "comunistas" , obedecendo as ordens de Moscovo. Convinha dar-lhes uma lição. 

El Salvador 

O extermínio dos aldeões de El Mozote foi uma simples gota no rio de eventos que ocorreram em El Salvador durante os anos 80. Cerca de 75 mil salvadorenhos morreram durante o que é chamado de "guerra civil", embora fosse o governo que – com a cumplicidade dos esquadrões da morte – perpetrou a quase totalidade dos crimes. 

Mas os números por si só não contam toda a história. El Salvador é um país pequeno, cujo tamanho é comparável ao de Nova Jersey. No nível populacional dos Estados Unidos, esse número representa um total de 5 milhões de mortes. Além disso, o regime em vigor em El Salvador realizou uma série ininterrupta de atos de barbarie, cujo grau de atrocidade não tem contrapartida contemporânea, exceto, talvez, crimes perpetrados pelo estado islâmico. Um padre católico contou a história de um deles:   a fim de poder ausentar-se por alguns momentos, uma camponesa confiou o cuidado de seus filhos à mãe e à irmã; Quando voltou, descobriu os cinco corpos que a Guarda Nacional de El Salvador havia decapitado. Eles estavam sentados em volta de uma mesa e suas mãos repousavam sobre suas cabeças diante deles, "como se cada corpo acariciasse sua própria cabeça". A mão de uma criança, muito jovem, aparentemente não se segurava na cabecinha, de forma que acabaram por a pregar. No centro da mesa havia uma grande tigela cheia de sangue. 

Na época, os críticos da política dos EUA não vinham apenas da esquerda. Foi durante esse período que Charles Maechling Jr., que havia trabalhado no Departamento de Estado nos anos 1960, como responsável pelo planeamento da contra-insurreição, escreveu no Los Angeles Times que os Estados Unidos apoiavam "Oligarquias mafiosas" em El Salvador e em outros lugares, tornando-se culpadas de cumplicidade activa "em métodos dignos dos esquadrões de extermínio de Himmler". 

Abrams foi um dos arquitectos da política de apoio incondicional ao governo salvadorenho, liderada pelo governo Reagan. Era desprovido de escrúpulos a esse respeito e não sentia piedade por alguém que conseguisse escapar do matadouro salvadorenho. Em 1984, ele fez comentários – cujo eco ressoa ainda hoje nos discursos dos membros da equipe Trump – para explicar que os salvadorenhos que entraram ilegalmente nos Estados Unidos não podiam gozar de um estatuto excepcional. Perante a Câmara de Representantes, declarou : "Alguns grupos afirmam que quando enviamos imigrantes ilegais salvadorenhos para casa, eles são perseguidos e frequentemente alvo de assassinatos. Se déssemos algum crédito a essas reivindicações, não os expulsaríamos, parece evidente". 

Mesmo depois de deixar o cargo, quando 10 anos se passaram desde o massacre de El Mozote, Abrams continuou a por em dúvida a ocorrência do mínimo acontecimento comprometedor. Em 1993, quando uma Comissão da Verdade das Nações Unidas concluiu que 95 por cento da violência em El Salvador desde 1980 havia sido cometida por amigos de Abrams no governo salvadorenho, ele qualificou o que ele e seus colegas da administração Reagan tinham conseguido como um "sucesso fabuloso". 

Guatemala 

Durante a década de 1980, a situação na Guatemala foi muito semelhante, assim como as iniciativas de Abrams. Depois de os Estados Unidos orquestrarem o derrube do presidente democraticamente eleito em 1954, o país passou por um pesadelo em que ditaduras militares se sucederam, como num jogo de cadeiras. Entre 1960 e 1996, durante mais uma "guerra civil", 200 mil guatemaltecos foram assassinados, equivalentes a 8 milhões de mortes, nos EUA. Posteriormente, uma comissão das Nações Unidas conclui a responsabilidade do Estado guatemalteco, em 93 por cento dos casos de violações de direito humanos. 

Em 2013, Efraín Ríos Montt, presidente da Guatemala no início dos anos 80, foi condenado pelo tribunal de justiça de seu país pelo genocídio da população indígena maia. Durante o mandato de Ríos Montt, Abrams exigiu o levantamento do embargo de armas dos EUA à Guatemala, em nome de "progresso considerável" para o qual Ríos Montt havia "contribuído". Segundo Abrams, era dever dos Estados Unidos apoiar o governo da Guatemala, porque "se adoptarmos a postura de não nos aproximarmos antes de ser alcançada a perfeição, não abordaremos o problema antes até que a Guatemala apresente um registo imaculado dos direitos humanos, significa que vamos deixar de fora aqueles que estão lá a procurar melhorar as coisas". Segundo ele, Ríos Montt foi um dos que não pouparam esforços. 

Graças a Ríos Montt, "uma mudança espectacular ocorreu, especialmente na atitude do governo em relação à população índia". (Posteriormente, o mais alto tribunal civil da Guatemala anulou a condenação de Ríos Montt, que morreu antes da conclusão de seu novo julgamento). 

Nicarágua 

Foi a sua participação entusiástica nos esforços do governo Reagan para derrubar o governo revolucionário sandinista, que fez Abrams ganhar notoriedade. Em 1983, logo após o ataque bem-sucedido dos EUA ao micro-estado insular de Granada, ele pediu uma invasão total da Nicarágua. Quando o Congresso acabou com o financiamento dos Contras, grupo de guerrilheiros anti-sandinistas, que os Estados Unidos haviam criado, Abrams conseguiu convencer o sultão de Brunei a gastar 10 milhões de dólares para a sua causa. Abrams operava sob o nome de código de "Kenilworth", mas, infelizmente, para ele, o número da conta bancária na Suíça que ele comunicou ao sultão não era o correcto – a sorte tinha acabado de sorrir para o sortudo destinatário desse depósito, por mero acaso. 

Abrams foi interrogado pelo Congresso sobre os Contras , ao qual ele respondeu com uma montanha de mentiras. Posteriormente, declarou-se culpado de duas acusações de retenção de informações. Um dizia respeito ao Sultão e ao seu dinheiro, o outro acusava Abrams de ter conhecimento da existência de um avião de abastecimento aos Contras, um C-123 abatido em 1986. Como se ele tivesse preparado um antecedente histórico para o seu novo papel na administração Trump, Abrams já tinha negociado com o exército venezuelano o fornecimento de dois C-123 para os Contras. 

Abrams foi sentenciado a 100 horas de serviço comunitário, mas achou que havia sido vítima de uma imensa injustiça em toda essa história. Escreveu um livro, no qual se dirigiu a seus acusadores na forma de um monólogo interno, que quase dizia isso: "inúteis, nojentos, parasitas!". Beneficiou do perdão do presidente George Bush, no momento em que este estava de saída após a sua derrota na eleição de 1992. 

Panamá 

Embora isso tenha sido esquecido, Manuel Noriega era um aliado próximo dos Estados Unidos antes da invasão do Panamá, em 1989, para o derrubar – apesar de a administração de Reagan nada ignorar das suas actividades como barão da droga. 

Em 1985, Hugo Spadafora, figura popular no Panamá, ex-vice-ministro da Saúde, acreditava ter provas do envolvimento de Noriega no contrabando de cocaína. Foi capturado pelos capangas de Noriega quando estava num autocarro a caminho da Cidade do Panamá, onde deveria fazer um discurso público sobre o assunto. 

De acordo com o livro do correspondente do New York Times, Stephen Kinder, " Overthrow: America's Century of Regime Change from Hawaii to Iraq", os serviços secretos dos EUA registaram quando Noriega deu aos seus subordinados permissão para abater Spadafora como a um "cão enraivecido". Eles torturaram-no durante uma noite inteira, antes de decapitá-lo com uma serra enquanto ainda estava vivo. Quando o corpo de Spadafora foi descoberto, o sangue que ele havia engolido enchia o seu estômago. 

Um tal horror acabou por atrair a atenção. Mas Abrams apressou-se a defender Noriega e impediu o embaixador dos EUA no Panamá de pressionar mais o líder panamenho. Quando o irmão de Spadafora persuadiu Jesse Helms, um senador republicano hiperconservador da Carolina do Norte, a realizar audiências sobre o Panamá, Abrams disse a Helms que Noriega era "de uma grande utilidade", e não colocava um problema assim tão grave... Os panamenhos prometeram ajudar-nos na luta dos Contras. Se se organizarem essas audiências, eles tornar-se-ão hostis para nós".

... mas isto não é tudo 

Abrams também foi o autor de maldades gratuitas, sem outra razão aparente senão o desejo de manter a forma. Em 1986, os Estados Unidos convidaram Patricia Lara, uma jornalista colombiana, para um jantar de homenagem aos escritores que contribuíram para o progresso da "entendimento entre as nações do continente americano, bem como a liberdade de informar". Após a sua chegada ao aeroporto de Nova York, Lara foi detida, antes de ser enviada para casa no primeiro avião. Pouco depois, Abrams apareceu no programa de 60 minutos, durante o qual afirmou que Lara era membro dos "comités de direcção" do M-19, um movimento guerrilheiro colombiano. Segundo Abrams, ela também era uma "ligação activa" entre o M-19 e a "polícia secreta cubana". 

Dada a frequência com que jornalistas colombianos são vítimas da violência das organizações paramilitares de extrema-direita, proferir estas acusações equivalia a traçar um alvo nas costas de Lara. Não havia nada para provar a veracidade das alegações de Abrams – na verdade, o governo conservador colombiano negou-as e nada veio prová-lo desde então. 

As infindáveis mentiras descaradas de Abrams esgotaram a paciência de jornalistas dos EUA. "Eles afirmam que preto, é branco", explicou Joanne Omang, do Washington Post, referindo-se a Abrams e Robert McFarlane, seu colega na Casa Branca. "Eu usei todas as minhas habilidades profissionais, mas mesmo assim, acabei por enganar os meus leitores". Omang ficou tão exausta com a experiência que abandonou o seu trabalho de tentar descrever o mundo real para tentar escrever ficção. 

Depois de sua condenação, muitos consideraram Abrams como uma mercadoria estragada, cujo retorno ao governo era impensável. Subestimaram-no. Em 1989, um confronto violento entre Abrams e o Almirante William J. Crowe Jr. – que fora Chefe de Gabinete das Forças Armadas – acerca da política adequada dos Estados Unidos para com Noriega, uma vez que este havia perdido qualquer valor a seus olhos e tornara-se uma fonte de problemas. Crowe opunha-se fortemente à ideia brilhante que Abrams apresentava:   que os Estados Unidos instalassem um governo no exílio em solo panamenho, o que exigiria a protecção de milhares de soldados americanos. Crowe apontou a estupidez estonteante de tal proposta, mas Abrams a ignorou. Crowe emitiu uma advertência sobre Abrams, que é hoje um aviso premonitório: "Esta cobra é difícil de matar". 

Assim que George W. Bush entrou na Casa Branca, Abrams voltou ao activo, surpreendendo as pessoas mais ingénuas de Washington. Conseguir que o Senado ratificasse a nomeação de um mentiroso perante o Congresso, provavelmente não teria sido fácil, por isso Bush encontrou para ele um nicho no Conselho de Segurança Nacional – onde as nomeações não exigem ratificação por nenhum ramo legislativo. Tal como há 20 anos, Abrams herdou uma agenda cujo título mencionava "democracia" e "direitos humanos". 

Venezuela 

No início de 2002, Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, já se havia tornado um motivo de profundo aborrecimento para a Casa Branca de Bush, povoada por veteranos das guerras dos anos 80. Em Abril daquele ano, um súbito golpe de Estado, vindo do nada, tirou Chávez do poder. Ainda hoje não sabemos se os Estados Unidos estiveram envolvidos, nem de que forma; isso exigirá aguardar a desclassificação dos documentos relevantes, o que provavelmente não ocorrerá durante algumas décadas. Mas se confiarmos nos últimos 100 anos, descobrir que a América não teve um papel nos bastidores seria grande surpresa. 

Cada um pensará o que quiser, mas na época, o London Observer informou que "Na periferia do golpe, Abrams era a personagem principal", aquele que "deu a luz verde para os conspiradores". De qualquer forma, o apoio popular permitiu a Chávez recuperar e retomar suas funções alguns dias depois. 

Irã

Quando o Irã fez uma oferta de paz em 2003, pouco depois dos Estados Unidos invadiram o Iraque, parece que Abrams desempenhou um papel chave na história do seu encobrimento. O fax da proposta destinava-se a Condoleezza Rice, que então aconselhava Bush sobre a segurança nacional, mas teve de passar primeiro por Abrams. Por uma razão ou outra, nunca pousou na mesa de Rice. A uma pergunta que lhe foi colocada mais tarde, o porta-voz de Abrams respondeu que "não tinha a menor lembrança de um fax dessa natureza". Muitas pessoas, como Abrams, evoluem como peixes na água nos níveis mais altos do mundo político, mas sofrem de uma memória fraca para tudo o que diz respeito às suas políticas. 

Em 1984, Abrams afirmou perante Ted Koppel que não podia se recordar com certeza se os Estados Unidos tinham levado a cabo investigações, após os relatos de massacres em El Salvador. Em 1986, o Comité Permanente do Senado sobre Serviços de Informações, questionou-o sobre o levantamento de fundos para os Contras, perguntando-lhe se ele tivera alguma discussão sobre isso com qualquer membro do Conselho de Segurança Nacional, e mais uma vez sua memória falhou. 

Israel e Palestina 

Em 2006, Abrams encontrou-se novamente no centro de uma enésima tentativa de desafiar o resultado de uma eleição democrática. Bush fizera pressão para que se mantivessem as eleições parlamentares na Cisjordânia e em Gaza, de modo que a Fatah, a organização palestina corrompida até a medula, do presidente Mahmoud Abbas, sucessor de Yasser Arafat, daí retirasse legitimidade que dramaticamente lhe faltava. Para surpresa geral, a vitória coube ao oponente da Fatah, o Hamas, o que lhe deu o direito de formar um governo. 

A administração Bush, à frente do qual se encontravam Rice e Abrams, não pôde aceitar essa indesejada irrupção de democracia. O plano que eles desenvolveram exigiu a formação de uma milícia da Fatah para assumir o controle da Faixa de Gaza, esmagando o Hamas em seu próprio território. De acordo com a Vanity Fair . o uso generalizado de tortura e execuções foi previsto. Mas o próprio Hamas recorreu à ultra-violência e ultrapassou o Fatah em rapidez.

David Wurmser, um neoconservador que trabalhava para Dick Cheney, disse à revista: "Parece-me que o que aconteceu não foi tanto um golpe do Hamas, como uma tentativa de golpe do Fatah, colocado em xeque de forma preventiva. Isto não impediu os media de publicarem desde então narrativas alternativas desses acontecimentos, em que fazem o Hamas desempenhar o papel de agressor". 

O plano dos EUA provavelmente não foi tão bem-sucedido quanto se esperava, mas do ponto de vista EUA-Israel, também não falhou em toda a linha. A guerra civil entre palestinos tornou a Cisjordânia e Gaza duas entidades separadas, governadas por rivais. Durante 13 anos, houve poucos sinais da unidade política de que os palestinos precisam, se quiserem obter meios para um dia alcançar condições de vida decentes. 

Abrams deixou o cargo um pouco mais tarde, quando Bush terminou o mandato. Mas agora voltou, para realizar uma terceira ronda nos corredores do poder – pronto para maquinações como as executadas nas duas primeiras. 

Em retrospecto, a vida de Abrams parece ser uma teia de mentiras e actos de crueldade, dos quais se pergunta como ele poderia justificá-los. É o que ele faz – usando uma estratégia de defesa eficaz. 

Em 1995, Abrams fez uma aparição no "Charlie Rose Show", enfrentando Allan Nairn, um dos jornalistas americanos mais familiarizados com a política externa dos Estados Unidos. Nairn salientou que Bush tinha um dia emitido a hipótese de Saddam Hussein ser julgado por crimes contra a humanidade. De acordo com Nairn, isso era uma boa ideia, mas "para ser levado a sério, é preciso ser justo" – a saber, processar igualmente altos funcionários como Abrams. 

O ridículo de tal sugestão fez Abrams rir. Segundo ele, isso equivaleria a "colocar no banco dos acusados, todos os altos funcionários dos EUA que contribuíram para ganhar a Guerra-fria". 

Abrams tinha em parte razão. Por mais perturbador que seja, a verdade é que ele não tem nada a ver com um dissidente marginal; pelo contrário, é um membro honrado e respeitado do centro-direita da elite da política externa dos EUA. Antes de ingressar no governo Reagan, começou por servir dois senadores democratas, Henry Jackson e Daniel Moynihan. Ele era um membro sénior do Council on Foreign Relations, considerado como centrista. É membro da Comissão para a Liberdade Religiosa no Mundo e recentemente actuou no conselho de directores da National Foundation for Democracy. Ele ensina a próxima geração de altos funcionários de política externa na Escola de Diplomacia da Universidade de Georgetown. Nem Reagan nem Bush eram idiotas de forma alguma – eles procuravam exactamente aquilo que Abrams era capaz de fazer. 

Pouco importam finalmente, os detalhes sórdidos da carreira de Abrams, que não devem ser esquecidos – enquanto as garras afiadas da águia americana acentuarem a sua pressão sobre mais um país latino-americano – Abrams não é nada excepcional. É apenas um dos dentes da engrenagem. É a máquina que é o problema, não as suas partes malévolas. 

Traduzido e publicado pelo sítio www.resistir.info