Encerram as Jornadas Bolivarianas de 2019

19 de Setembro de 2019, por Elaine Tavares

Na abertura a presença da Secretária de Cultura e Artes, Maria de Lourdes Borges
Na abertura a presença da Secretária de Cultura e Artes, Maria de Lourdes Borges

Foram três dias de intensos debates sobre o poder, tendo a mídia como elemento de análise. Os convidados trataram de temas chaves para a compreensão da realidade latino-americana, observando como aparecem ou desaparecem na imprensa e nas redes sociais. O criminoso sistema da dívida externa, por exemplo, vive sob segredo dentro dos governos e a mídia pouco faz para desvelar essa sangria de recursos que é extraída dos povos e verte para os bancos internacionais. O silêncio sobre o tema é tão perverso quanto os leoninos contratos firmados entre governos e bancos. 

A economia dos meios de comunicação foi bastante ressaltada, com a apresentação dos grupos que dominam tudo o que se vê, lê ou ouve no mundo, bem como o encobrimento da verdade que promovem em nome da sustentação do modo de produção vigente. Esteve em foco o assunto relacionado aos trâmites judiciais da Lava-Jato que recebem enganoso tratamento por parte dos meios. Nesse tema, particularmente, viceja a mentira, a desinformação e o engano.

Os processos políticos boliviano e venezuelano estiveram na pauta com a apresentação da realidade de cada um desses países que ainda ousam enfrentar o império estadunidense. A Bolívia avançando na revolução cultural, crescendo economicamente, apontando caminhos e a Venezuela submetida ao acosso, ao ataque criminoso de uma guerra econômica. Essa forma de desestabilização, que envolve mecanismos outros que não o ataque direto de um exército foi analisada também como a “guerra irregular” que os Estados Unidos seguem travando contra os países que insistem em seguir um caminho soberano e livre. 

A imprensa como bloco de poder, as empresas como espaços de manipulação e o jornalismo, especificamente como um fazer privilegiado ligado visceralmente à comunicação igualmente foram tratados em profundidade, observando-se a necessidade de um caminho autônomo nesse campo. Um jornalismo capaz de produzir conhecimento e formar as gentes em vez do vigente sistema de propaganda que segue firme nos meios. 

A filosofia também foi chamada ao debate com o aprofundamento da discussão sobre a ideologia e as falsas necessidades sociais que são criadas pelos meios de comunicação. O trabalho desenvolvido nas propostas comunitárias, populares e independentes de comunicação foi analisado desde sua atuação em um país devastado pelo ataque imperial, mas com um governo que o enfrenta, como a Venezuela, a um país que se rende como a Argentina. Em ambas as realidades pode-se perceber a riqueza da ação popular na tentativa de enfrentar os grandes conglomerados comunicacionais, ainda que se configurem apenas como resistência, visto que, por seu baixo alcance, não consigam fazer frente aos gigantes. Mas, com a formação de redes e outras estratégias vão avançando, buscando outras miradas. 

Finalmente, o tema da liberdade de expressão, tão defendido pelo mundo liberal, foi desvelado como mais um encobrimento do que os donos dos meios não explicitam como uma mera liberdade de empresa. Nos meios comerciais, essa tal liberdade é uma falácia.

Durante todos os debates, sempre bastante participativos, os convidados procuraram oferecer vias de análise para que se pense a comunicação para além dos aparentes fenômenos, tais como o suposto pode das redes sociais. Na reflexão sobre os problemas que envolvem a comunicação como elemento chave para a formação da opinião pública, os caminhos sempre passam pelo aprofundamento dos temas buscando chegar à raiz, mostrando que dentro do sistema capitalista de produção não há qualquer possibilidade de garantir que a opinião pública possa se formar com autonomia, a partir da apresentação dos vários aspectos da realidade. Sem uma revolução - que transforme radicalmente o sistema -  o trabalho dos comunicadores seguirá sendo o do encobrimento e da manipulação ideológica. E, ainda que haja resistência, manter-se nos guetos, falando apenas para os iguais não aponta para a eficácia do desvelamento da realidade. 

O jornalismo libertador é possível, na senda do que ensina o teórico Adelmo Genro, mas ele sozinho não tece a manhã esperada. Há que haver um povo em luta, revolucionando as estruturas.