Equador, uma incógnita

21 de Fevereiro de 2017, por Elaine Tavares


Nenhuma análise sobre os governos progressistas da América Latina pode ser feita sem lembrar o que significou a figura de Hugo Chávez para esse continente. Nascido de um movimento improvável, dentro das forças armadas venezuelanas, ele incendiou essa “nuestra América” no final da década de 90.

Quando tudo apontava para o fim da proposta socialista, eis que surge esse homem, na ponta norte da América, falando em poder popular e bolivarianismo, recuperando o sonho da “pátria grande”. Foi como um ciclone, passando pelas vidas e esperanças das gentes em luta. 

Com Chávez, aquilo que era apenas uma utopia, considerada mal havida, em Cuba, começou a fazer sentido em outros pontos da América baixa. Palavras como socialismo começaram a ser ditas outra vez, sem medo. E com Chávez veio, no mesmo diapasão, uma série de governos que podem ser colocados no rótulo de progressistas, para mais ou para menos.

O Equador está nesse rol. Já no ano 2000, os indígenas ocuparam as igrejas de Quito, num movimento rebelde e, além de inauguraram um processo que ficou conhecido como “o novo movimento indígena”, acabaram provocando a derrocada do presidente Jamil Mahuad, deposto por um golpe. Em 2003, elegeram um indígena, Lúcio Gutierrez, que prometeu mundos e fundos. Não cumpriu. Nova rebelião o sacou do palácio e, em 2006, em meio a uma crise política e institucional elegeu-se o jovem economista Rafael Correa, com um discurso que prometia alinhamento com Chávez, com a proposta do socialismo e com as demandas indígenas. Foi um momento de esperança para a população. 

No primeiro mandato de Correa teve início o processo Constituinte, buscando mudar as leis a partir da participação popular massiva. E a nova carta magna foi uma construção cheia de belezas e novidades. Assim, a partir das demandas populares veio à luz a proposta de um país multicultural, um capítulo inteiro de direitos da natureza e a ideia de um estado plurinacional, no qual os povos indígenas teriam autonomia. Era a consolidação de sonhos sonhados por décadas. 

Mas, com o andar da carruagem, a Constituição foi sendo recortada com a aprovação de leis complementares que foram dando um perfil mais liberal ao mundo que se buscava construir. A reforma da educação levantou os professores, a lei sobre a terra levantou os camponeses e a aposta na mineração e na ocupação das terras pelas multinacionais levantou os indígenas. Muitos foram os movimentos e protestos. Rafael Correa foi pendendo para a velha proposta socialdemocrata, tirando poder das comunidades e dos movimentos. Sua arrogância no trato com os adversários virou uma marca e boa parte da esquerda, que o havia apoiado, foi se retirando das fileiras.

O movimento indígena que sempre foi muito forte no Equador entrou em rota de colisão e foi também violentamente atacado por Correa e pelos meios de comunicação aliados do presidente.  A luta contra o extrativismo e a denúncia do desrespeito total à Constituição que garantia às comunidades o direito à consulta levou Correa a uma batalha feroz contra os indígenas. Mas, em vez de combater no campo da grande política e do argumento, o presidente passou a desqualificar as lideranças indígenas, acusando-as de estarem mancomunadas com o ex-presidente Lúcio Gutierrez.  

É importante salientar que para os indígenas equatorianos pouco se dá se quem está no governo é a direita ou a esquerda. Eles têm outros referenciais. Suas preocupações estão no campo do direito ao território e da proteção do ambiente, já que para eles existem espaços que são sagrados e não podem ser tocados. O direito da natureza, tal qual foi garantido na Constituição é algo sério demais para ficar variando conforme os humores dos interesses das petroleiras ou das mineradoras. Por isso Correa enfrentou grandes protestos e muitas marchas rebeldes contra a lei de mineração e contra a lei de educação. 

Mas, a luta do povo indígena foi sempre tratada com arrogância e autoritarismo. E o presidente, que se elegeu fazendo discursos em Quíchua, passou a atacar todas as iniciativas originárias, chegando ao ponto de fechar a universidade intercultural indígena Amawtay Wasy. No segundo mandato isso se acirrou.

Com a morte de Hugo Chávez, que era uma espécie de “grilo falante” ou a consciência socialista na América, Correa decidiu não dar mais freio a sua face liberal. Suas alianças com a China, com empréstimos vultosos, a entrega das terras para as petroleiras, a abertura para as mineradoras e o fechamento de um acordo de Livre Comércio com a Europa foram colocando o presidente cada vez mais distante dos sonhos sonhados naquele 2006, quando ele foi eleito. 

Por isso que não surpreende o fato de, agora, na eleição realizada nesse domingo, a direita ter crescido a tal ponto de disputar um segundo turno. O equatoriano comum, que vive o seu país na esperança de dias melhores já não consegue mais distinguir os projetos. Apesar de toda a retórica de Rafael Correa sobre socialismo e propostas de esquerda, a vida mesma, o mundo real, mostra que as ações governamentais estão mais para a proposta liberal do que para o socialismo. Então, se não há diferenças, porque não apostar num empresário bem falante, que promete vida boa? A mesma vida boa, ou o bom viver que está plasmado na nova Constituição.  

A esquerda organizada não apostou mais no projeto de Rafael, configurado na campanha de seu vice, Lenín. Preferiu outro candidato, que fez pouco mais do que 6%, mas que tinha uma proposta mais próxima dos interesses dos indígenas, por exemplo. Os demais se dividiram entre o oficialismo e as diversas propostas da direita. 

Foi assim, nesse nicho de desilusão e desesperança com o projeto de Correa que o empresário Guillermo Lasso foi abrindo cunha. Representa a velha política do Equador de antes das rebeliões. Uma volta ao passado oligárquico, assentado na velha classe dominante. Correa acabou fazendo um desserviço ao país que, sem vislumbrar saída, depositou votos no retrocesso. 

E agora? Se houver um segundo turno entre o candidato de Correa, Lenín, e o empresário Lasso, que pode dar? Eis o mistério! Como Lenín vai costurar a rede rota por seu próprio governo? Como fará para garantir os votos dos indígenas, por exemplo, que são uma força significativa? Como enfrentará as demandas dos movimentos que lutam por uma educação de qualidade, fora da lógica privatista? 

Esse é um momento para a autocrítica. Hora de Correa arredar a arrogância e fazer um balanço realista de seu governo. O Equador está entre a cruz e a caldeirinha. Lasso é a direita escrachada, a visão empresarial nua e crua. Lenín é o discurso do popular, do socialismo, mas sem a prática real. O segundo mandato de Correa foi um desastre do ponto de vista das esperanças populares. Agora, seu candidato, que era seu vice, terá de tecer alianças mais à esquerda se quiser garantir votos dos indígenas e dos opositores de esquerda. Ou, então, pode pender com mais força para a direita, acenando para os eleitores dos partidos liberais. É um jogo arriscado. 

Para os equatorianos, uma coisa é certa. Tanto um quanto o outro representam os interesses dos grandes negócios, das empresas petrolíferas, das mineradoras. As lutas travadas ao longo desses anos em defesa da água, dos territórios indígenas, dos espaços sagrados, estão ainda vivas, como chagas abertas. 

Resta saber como vai reagir o candidato oficial. É um momento crucial. Lasso é voltar a um passado que já provou sua ineficácia, mas ficar com Lenín não é muito melhor. Serão as novas alianças e as novas promessas que definirão o rumo da bússola. Lenín ainda tem uma pequena chance se mostrar que pode se descolar de Correa e apontar caminhos originais. Mas isso é coisa para acompanhar e ver...

Os grandes capitães, Fidel e Chávez, já não estão. Mas, por outro lado está o povo organizado e em luta.

Daí podem nascer belezas e novas propostas de vida. 

O resultado oficial ainda não foi divulgado, apenas na quinta-feira se saberá com certeza se a eleição vai para o segundo turno ou não. Apurados mais de 90% dos votos, Lenín tem 39,09%. Tudo pode acontecer. Caso vença no primeiro turno ainda assim precisará fazer costuras, pois não terá a maioria esmagadora na Assembleia Nacional.