Esportistas, de heróis a marionetes neoconservadoras

19 de Agosto de 2019, por Nilso Ouriques

Pablo Alabarces, pensador argentino
Pablo Alabarces, pensador argentino

Pablo Alabarces é um intelectual renomado no esporte da América Latina e muito pouco conhecido no Brasil, devido, obviamente, a alienação cultural em relação a América Latina, o esporte e os intelectuais. Pablo não é originário da Educação Física, o que foi a sua grande sorte, digamos um privilégio, pois só assim fugiu ao processo profundo de alienação política que este meio imprime a todos aqueles que pretensamente têm a ousadia de pensar o esporte, o corpo e suas manifestações sociais, políticas, culturais e econômicas.

Formado em letras, sociologia da cultura e filosofia, Pablo fez o papel de um desbravador, escrevendo como poucos acerca da cultura como formação histórico cultural, suas transições de fases, meios de comunicação, atletas, identidade nacional, patriotismo e outros temas transversais que tocavam a cultura esportiva. Ao terminar o curso de Letras ganhou a capacidade de escrever com qualidade.  Por sua vez, a sociologia da cultura lhe forneceu a amplidão do conhecimento, assim como o doutorado em filosofia.  

Investigador, pesquisador do Instituto Gino Germani, e coordenador dos grupos de trabalho no esporte e sociedade da CLACSO ele trata de ter uma vida intelectual intensa. Já publicou vários livros, tais como: ¨Futebol, esporte e sociedade¨ (1996) “Desporte e sociedade¨ (1998), “Futebol e pátria¨: As narrativas do futebol na Argentina¨ (2002)  ¨Futebologias. Futebol, identidades e violência em América Latina¨ (2003). Resistencias y mediaciones (2008), “Peronistas, populistas plebeyos, crônicas de cultura y política (2011), “Heroes, machos y patriotas, el futebol entre la violencia y los médios” (2014). É catedrático e diplomado em “Futebol-espetáculo, cultura e sociedade” na cidade do México, colaborador permanente do Diário Perfil, jornal Clarin e Olé. Um grande intelectual. Desde de março de 2004 é secretário de investigação da pós graduação da faculdade de Ciências Sociais da UBA.

Para Pablo, ao discutir o esporte na América Latina, sua formação e hegemonia cultural, não é necessário procurar conhecimento em ensaios universitários. O esporte está em todos os cantos e centros de nossa sociedade. Respiramos, cheiramos, observamos esporte 24 horas, pela televisão, rádio, jornais, nos cafés, em casa, chegamos mesmo a sonhar com o esporte, pois ele já faz parte da nossa consciência e inconsciência coletiva. Segundo ele, ao socializar-se e ao penetrar na epiderme do povo latino-americano, o esporte criou uma identidade latina, criando uma cultura de massa e que possui seus desdobramentos históricos que precisam ser identificados em cada país.

Como produto cultural o esporte foi transplantado para a América Latina e com ele surgiram os espaços de discussão e prática do lazer e do lúdico, além dos debates acerca da modernização das relações interpessoais, que se deram de diferentes formas.  A diversificação esportiva chamava a atenção de classes, e estratos, mas todos caminhavam em um mesmo roteiro, ou seja, disciplinar o corpo e preparar para a guerra. Os esportes, em si mesmos, representavam algumas especificidades próprias, dentre as mais presentes citamos: Secularismo, ou seja relação de oposição aos jogos antigos e aos rituais religiosos, igualdade nas competições, burocratização, especialização, racionalização, quantificação nas medições, estatísticas e a obsessão pelos recordes. Estes elementos salientados por Pablo Alabarces não representam uma novidade conceitual própria, pois já estavam presentes em Jean Marie Brohm, no seu livro ¨ Materiales del sociologia del deporte,¨ mas correspondem um processo de atualização histórica conceitual vinda da França e incorporada a linguagem sociológica local.

O conceito de transplante cultural, de Darcy Ribeiro, me parece bem melhor que a utilização do conceito de modernização esportiva de origem Uspiana. Este transplante cultural implicou na prática esportiva e na sua problematização conceitual. Na prática do nosso dia-a-dia, deu-se o contato através dos portos e da instalação das ferrovias, assim como pela importação de mercadorias. Os esportes chegavam através das elites, mas rapidamente sofriam uma expansão para o campo popular. A princípio, jogar ou praticar esportes não era permitido aos pobres, somente mais tarde esta permissão, vista com maus olhos, foi concedida. E foi preciso muita luta popular. Ainda assim a permissão veio somente para alguns esportes. Por outro prisma seria impensável conceder aos estratos rebaixados da sociedade o direito mandar nas instituições esportivas, como até hoje ainda é.

Para Pablo, assim como para outros intelectuais, a igualdade é aquela que é dada em campo de jogo, não que não haja aí uma visão de classe social, e revela muito do mérito que propicia a ascensão social, o local onde o pobre pode vencer o rico. A profissionalização, que é um processo comum na América Latina a partir da década de trinta, representa o uso legítimo do tempo livre assim como espaço de incorporação e ascensão social, mas separa cada vez mais o centro e a periferia, tanto no plano local, quanto no concerto das nações.

Na relação centro periferia, Pablo tocou com toda propriedade intelectual nos processos de implantação dos esportes no sul do continente. A influência inglesa na Argentina está presente a partir de 1806, na instrumentalização das fábricas têxteis de Yorkshire em Buenos Aires. Pablo fez um relatório extenso sobre Thomas Hogg, que fundou uma biblioteca, um colégio e, em 1819, um club de cricket. 

Na verdade, o transplante cultural esportivo segue sempre, ou quase sempre, a mesma lógica ou história sociológica. Empresários ricos vêm para a América Latina e trazem consigo práticas esportivas já existentes na Europa. Assim aconteceu com  o Squash, em 1866, o Rugby, em 1874, o Tênis de Campo, em 1880 e finalmente o futebol, em 1867. A isso estes senhores chamam de maneira inadvertidamente de processo civilizatório. Ou seja, levar o lazer e o esporte como prática civilizatória aos bárbaros. O sistema é sempre o mesmo, depois de implantado o esporte, seja ele qual for, trata-se de implantar sua organização burocrática sob o domínio de senhores brancos, de olhos azuis ou verdes. Desta forma nasce a AFA, a Argentina Football Association, representante oficial dos interesses dos clubes das elites.

Controle, burocratização, jogos e mais jogos, campeonatos e mais campeonatos que rompem fronteira e ganham espaço social e cultural, assim como econômico. Depois de feita a base é chegada a hora de levantar o edifício da instituição esportiva, montar os escritórios luxuosos e ganhar dinheiro. Neste sentido Pablo foi feliz ao colocar termos conceituais que a educação física no Brasil estava proibida de fazê-lo, como o conceito de Imperialismo. Saber separar o centro do esporte mundial e a periferia, os ricos dos pobres e a velha dinâmica que conduz a periferia a alimentar o centro e depois colher somente as suas migalhas.

Pablo foi, inclusive, estudar o beisebol no Caribe. O esporte tem origem inglesa, mas Pablo afirma que os estudantes viraram mestres e derrotaram seus professores. A primeira partida de beisebol ocorreu em 1874 e a liga de beisebol de Cuba nasce em 1878. Como o beisebol se popularizou os espanhóis proibiram a prática esportiva, que só voltaria com mais força em 1914 com a criação da liga amadora. Pablo também pesquisou o nascimento do cricket, no México, em 1827. Todos os fomentos nascem com jogos e depois vem segue-se a organização de ligas e federações, todos obviamente sobre controle dos ricos. Na República Dominicana ocorre o mesmo processo. 

Pablo ainda analisa o automobilismo de Juan Manuel Fangio (1949-1958), e salienta a importância de Airton Senna, mais recentemente, numa alusão clara entre a questão do capital e da tecnologia no desenvolvimento esportivo, assim como os vínculos destes esportistas com classes sociais abastadas.                                
Obviamente que Pablo reconhece a necessidade de estrutura econômica  e tecnológica, como no caso do automobilismo, mas também procurou investigar esportes que exigem menos investimento como o boxe, onde encontrou as histórias maravilhosas do argentino Luiz Angel Firpo, do panamenho ¨Mano de Piedra¨ Durán passando por extensa lista de campeões mundiais que, ao fugirem da miséria, encontraram a glória, a fama e depois novamente a pobreza.

O teórico argentino observou que muitos esportes transplantados para a América Latina ficaram a meio caminho e não explodiram no coração do povo, tais como o Tênis de Campo, basquetebol e mesmo o voleibol, com um diferencial único do voleibol do Brasil e de Cuba.

Ao analisar oficialmente os Jogos Olímpicos para chegar ao ranking dos países, ou seja, a sua quantificação em medalhas e troféus, Pablo considera esta numerologia, esta quantificação, menos importante. Neste aspecto cabe um parênteses importante e a necessidade de contribuir com Pablo, trazendo um novo conceito que advém de André Gunder Frank, o de subimperialismo. Ao analisar o quadro de hegemonia de alguns países latino-americanos sobre outros, ele constrói uma linha histórica e coloca o processo de modernização da Argentina, que fez este país controlar os melhores resultados esportivos locais no período que vai de 1908 até 1950. Depois, vem o Brasil, dominando o cenário na década de 1960 até 1976 nos Jogos Olímpicos de Montreal quando Cuba começa a roubar a cena, levando as medalhas e os troféus.

Pablo recorda que o século XX foi como que um espaço vazio no desenvolvimento esportivo, marcado por condições de disputa agudas e desiguais além, é claro, da distribuição desigual da riqueza, sendo que os maiores protagonistas latino-americanos vieram das classes populares, como futebolistas, boxeadores e peloteros. Esse período foi o tempo de narrativas no campo do esporte que ele chama de compensatórias, pois era uma forma de colocar em pauta a discussão da democracia., por exemplo, falando dela no esporte, já que na política de cada um destes países era negada todos os dias. O caso específico de seu país é Maradona, um plebeu, um pobre, que condensou o nacionalismo argentino, seu orgulho e sua honra, enquanto seu país vivia os resquícios da última ditadura, a miséria do povo, as crises econômicas e o neoconservadorismo das elites excludentes que só possuíam olhos para a Europa e os EUA.

No caso brasileiro a presença imperial de Pelé e, depois, a de Ronaldo fenômeno ofusca e mesmo expulsa a discussão sobre o racismo no país. Obviamente existia a figura de Garrincha, uma mistura de índio com negro, o diamante negro, e outros que rapidamente foram absorvidos pelas elites e pela mídia pertencente às elites, na negação do discurso das desigualdades e do racismo. Teríamos ainda uma lista imensa de descendentes de negros famosos e ricos como Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, e outros que jamais sacudiram a poeira das lutas sociais apesar de suas importâncias sociais e politicas como protagonistas.

AS POLÍTICAS CUBANAS

Pablo Alabarces dedicou uma boa dose de atenção ao esporte cubano assertivamente tratando-o como continuidade e divergência. Continuidade, ao compará-lo com a URSS e países do leste europeu que utilizaram o esporte enquanto mecanismo da guerra fria para demonstrar a superioridade de suas políticas esportivas e de seu povo frente aos demais. E divergência, porque sua ação demarcava e demarca o combate ao capitalismo. Afirma que em 1962 o esporte profissional foi banido de Cuba por não ter lugar em uma sociedade socialista. Em 1961, é criado o INDER-Instituto Nacional de Desportes, Educação Física e Recreación que iria organizar e planejar os esportes.

O esporte passa a ser gratuito, incorporado às escolas e universidades, com foco na saúde, nas forças armadas, e como uma política também para o campo. Sempre com a ótica de detectar talentos, construí-los e projetá-los como símbolos e resultados da revolução. Cuba cresceu em números, resultados e respeito internacional.  Se em 1959, data da revolução, o país possuía 20 medalhas pan-americanas, em 2003 este número chegou a 152 nos Jogos Pan-americanos. Se em 1964 possuía uma única medalha, em 2000, nos jogos olímpicos, chegou a 29. Mas, Cuba não produziu apenas números, criou cidadãos cubanos que honram seu país como Javier Sotomayor, Alberto Juantorena e Teófilo Stevenson, este transformado numa espécie de símbolo do socialismo cubano. Todos tentaram comprá-lo oferecendo dinheiro e valores burgueses, o que foi por ele rejeitado, ao mesmo tempo em que rejeitou também todas as ofertas do esporte profissional, por suas convicções revolucionárias.

Pablo toca também no tema do esporte como mecanismo de ação política e ideológica no plano da organização popular, contando o caso de YUCATECO, no México, onde ocorreu um processo de florescimento de organização popular através do beisebol nas primeiras décadas do século XX. Com base na organização do beisebol e seus núcleos esportivos desde as maiores comunidades até as menores processou-se todo um debate acerca da aceleração da reforma agrária. O esporte como eixo deste processo, o que mais tarde foi destruído pelas elites locais. Enquanto Cuba e YUCATECO, assim como outras experiências socialistas como na Venezuela, servem de exemplos para outros caminhos a seguir, o Brasil e à grande América Latina seguem a sociedade do espetáculo e dos lucros sem compromisso social algum.

A situação atual não deixa grandes esperanças ao esporte popular, transformando o esporte em mercadoria cada vez mais privilegiada pelos meios de comunicação de massa. Hoje, nossos heróis esportivos disputam os focos das TVs, jornais, redes sociais, rádios, para expor seus sonhos pessoais, seu individualismo, sua riqueza, balizadas pelo modelo do cinema internacional, locados nos carros, iates, casas, mansões, uma vida de luxo e glória, igual a do cinema, salários milionários, sonhos mesquinhos, verdadeiros marionetes do capital. Os heróis morreram, nossos ídolos vivem de altos salários e publicidade, são neonacionalistas de mercado, mesmo quando vestem a camisa de seu selecionado nacional, seja ele argentino, brasileiro, chileno, paraguaio, Uruguai etc.

Mas, o esporte, assim como diria Paulo Freire sobre a educação, não é alavanca de transformação social, faz parte dela. E esta transformação é produto da disputa de classes, ou da luta de classes. Assim, a qualquer momento, se as classes populares se levantarem e mudarem a sociedade tudo pode dar uma guinada e poderemos ver as normas ou regras do jogo mudarem. O esporte como um direito público à saúde e ao lazer.