A Estirpe Militar Nacionalista Contra as Forças Armadas Desbrasileirizadas

5 de Julho de 2019, por Gilberto Felisberto Vasconcellos

Ivan Proença no filme de Silvio Tendler
Ivan Proença no filme de Silvio Tendler

Indispensável e corajoso o livro de Ivan Cavalcanti Proença, publicado em 2004, sobre o golpe de 1964. Não o sabia militar por vocação, tal qual o seu pai, Manoel Cavalcanti Proença, general nacionalista que morreu em 1966 amargurado com o golpismo dos militares entreguistas.
O filho Ivan seguiu a mesma profissão do pai militar, um dos maiores críticos literários do país, ensinando gerações no trato com a análise imanente do texto literário, amalgamando abordagem linguística e sociológica.

É justa e merecida a homenagem que faz Ivan a seu pai. Deveríamos todos homenageá-lo em ginásios e universidades pelo Brasil afora. Muitos dos desatinos e equívocos cometidos pelos militares na história recente do país devem ser atribuídos ao desconhecimento dos livros de Manoel Cavalcanti Proença. É por isso que se fala pessimamente  o português recheado de anacolutias sem pé nem cabeça, a exemplo dos pronunciamentos da plêiade ignara de Bolsonaro, Mourão, Heleno, Villas Boas. Estes são formados lendo apostilas intelectualmente deploráveis e sectárias, como dizia Nelson Werneck Sodré, o historiador do povo que sabia que Engels era chamado de “general” pelas filhas de Karl Marx. 

A pergunta que está latente na reflexão de Ivan Cavalcanti Proença é a de Marx: quem educa o educador? Quais as etapas educacionais do militar? Do Colégio às Agulhas Negras. Quais os autores estudados? 

Ivan escreveu antes do pesadelo Bolsonaro sobre a falsificação do “movimento de 64”, eufemismo esse que faz parte da organização semântica trapaceira da sociedade brasileira. Escreveu depois de ter sido cassado e punido, sem elidir o orgulho de ser militar de carreira que chegou a major. 
A juventude não pode confundir militar com militarismo.

País rico e desarmado como o nosso, dizia Bautista Vidal, é alvo de cobiça dos países armados e imperialistas. Por isso sucatear as Forças Armadas significa convertê-las em milícia, termo que volta à tona com os militares que foram ao Haiti e de lá voltaram entusiasmados por Jair Bolsonaro, o apagão psíquico e neurótico nas Forças Armadas. 

Parecido no traço confessional com o escritor proletário Lima Barreto, conta Ivan Proença que o pai de sua mulher, aliás major, denunciou o casal aos órgãos de repressão. Não obstante a narrativa histórica de caráter objetiva, o livro de Ivan Proença é impressionista, no sentido de falar do que viveu. Ele viu com os seus próprios olhos os idos de 64 no interior das Forças Armadas.
Golpe branco, isto é, sem resistência. 

Não havia esquerda organizada, como não há hoje para enfrentar a paranóia anticomunista de Bolsonaro. Mais atenção: falar bem da tortura é admitir que possa vir a lançar mão dela a qualquer hora, conforme o andar da luta de classes. Os agentes norte-americanos da CIA não torturavam, pagavam para os brasileiros fazerem o serviço sujo. A moral malvada bolsonara elogia a tortura, pois guerra é guerra. 

Brasileiros torturando brasileiros.  

Ivan Proença concorda com Leonel Brizola que era possível resistir em 1964, porquanto o derramamento de sangue não iria efetivamente acontecer. Os golpistas estavam inarticulados. Nem tudo pendia a favor do golpe. Um dos grandes intelectuais marxistas e nacionalistas, Paulo Schilling, dizia que Leonel Brizola diante dos inequívocos sinais golpistas insistia para que Jango reagisse. Debalde. O esquema militar de Jango era precário. Quem eram os oficiais contra Jango? Este não se preparou para enfrentar o golpe. 

O livro de Ivan Proença é uma notável contribuição à ciência sobre o golpe. Cada golpe possui uma característica histórica específica. O de 1945, o de 1954, o de 1961 (abortado pela Campanha da Legalidade) e o de 1964. Outros viriam depois, mas não com feitio militar, e sim videofinanceiro como o cruzado, o real, acrescido do Dilma’s impiti derrubada pelo judiciário.

Ivan Proença pergunta em todo o seu livro se o golpe “fácil” de 64 era de fato inevitável ou se haveria alguma maneira de evitá-lo.  Pergunta crucial e embaraçosa porque não nos livramos de suas sinistras consequências, a tal ponto que a telenovela evangélica de Jair Bolsonaro quer fazer do golpe uma data cívica e libertadora da nação. Em 64 o objetivo era por ordem na casa e varrer os “comunistas”. Reedita-se atualmente o mesmo clima de 64 com corrupção e petistas empurrando o perverso kit gay nas crianças.

A “macheza” de pára-quedista chega ao poder pelo voto, diferente de Castelo Branco que chegou pelo tanque e pelo telefonema da CIA. O pesadelo de 64 persiste e pode assumir a mesma forma repressiva. Os colaboracionistas da ditadura (Olavo de Carvalho é citado) não têm condições intelectuais de escrever uma versão consistente do golpe; e a cada década surge um bacana de direita propondo uma terminologia safada para designar aquilo que foi o nosso Vietnã, como dizia Darcy Ribeiro.