EUA: O século de guerras perdidas

19 de Setembro de 2018, por James Petras


Apesar de ter o maior orçamento militar do mundo, cinco vezes maior do que os seis países seguintes, o maior número de bases militares no mundo – mais de 180 – e o complexo industrial militar mais caro, os EUA não conseguiram ganhar uma única guerra no século XXI. Neste artigo, vamos enumerar as guerras e analisar porque é que, apesar da poderosa base material para guerras, elas acabaram em fracassos. 

As guerras perdidas 

Os EUA têm estado envolvidos em múltiplas guerras e golpes desde o início do século XXI. Incluem o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria, a Somália, a Palestina, a Venezuela e a Ucrânia. Para além disso, os serviços secretos de Washington têm financiado cinco grupos terroristas no Paquistão, na China, na Rússia, na Sérvia e na Nicarágua. 

Os EUA têm invadido países, declarado vitórias e, subsequentemente, enfrentado resistência e guerra prolongada o que tem exigido uma enorme presença militar americana apenas para proteger as guarnições dos postos avançados.

Os EUA têm sofrido centenas de milhares de baixas – soldados mortos, estropiados e desequilibrados. Quanto mais gasta o Pentágono, maiores as perdas e subsequentes retiradas.  Quanto mais numerosos são os regimes vassalos, maior é a corrupção e a incompetência. 

Todos os regimes sujeitos à tutela dos EUA têm fracassado em cumprir os objetivos pretendidos pelos seus conselheiros militares norte-americanos. Quanto mais é gasto no recrutamento de exércitos mercenários, maior é a taxa de deserção e a transferência de armas para os adversários dos EUA. 

O êxito em começar guerras e o fracasso em terminá-las 

Os EUA invadiram o Afeganistão, tomaram a capital (Cabul), derrotaram o exército regular… e depois passaram os vinte anos seguintes atolados em guerras irregulares perdidas. 

As vitórias iniciais prepararam o terreno para as derrotas futuras. Os bombardeamentos empurraram milhões de camponeses e agricultores, pequenos comerciantes e artesãos para as milícias locais. Os invasores foram derrotados pelas forças do nacionalismo e da religião, ligadas às famílias e às comunidades. Os rebeldes indígenas recolheram armas e dólares em muitas das aldeias, cidades e províncias. 

Resultados semelhantes repetiram-se no Iraque e na Líbia. Os EUA invadiram, derrotaram os exércitos regulares, ocuparam a capital e impuseram os seus clientes – que prepararam o terreno para guerras de longa duração, a grande escala, com os exércitos rebeldes locais. 

Quanto mais frequentes os bombardeamentos ocidentais, maior a oposição para forçar a retirada do exército por procuração. 

A Somália tem sido bombardeada com frequência. Forças Especiais recrutaram, treinaram e armaram soldados fantoches locais, apoiados por exércitos mercenários africanos, mas têm-se mantido refugiados na capital, Mogadíscio, rodeados e atacados por rebeldes islâmicos, fracamente armados, mas fortemente motivados e disciplinados. 

A era das guerras imperialistas 

A Síria está na mira de um exército mercenário financiado e armado pelos EUA. No início, avançaram, desenraizaram milhões, destruíram cidades e lares e apoderaram-se de território. Tudo isso impressionou os senhores da guerra dos EUA-UE. Depois de o exército sírio ter unido a população, com os seus aliados russos, libaneses (Hezbollah) e iranianos, Damasco expulsou os mercenários. 

Decorridos quase dez anos, os curdos separatistas, juntamente com terroristas islâmicos e outras forças de aluguel, retiraram-se e mantêm um último reduto ao longo das fronteiras norte – os derradeiros bastiões das forças de aluguer ocidentais. 

O golpe da Ucrânia em 2014 foi financiado e dirigido pelos EUA e pela UE. Tomaram a capital (Kiev) mas não conseguiram conquistar a Ucrânia do Leste e a Crimeia. A corrupção entre os cleptocratas sob o domínioa norte-americano devastou o país – mais de três milhões fugiram para a Polónia, para a Rússia e outros países em busca de subsistência. A guerra continua, os clientes corruptos dos EUA estão desacreditados e vão sofrer uma derrota eleitoral, a não ser que viciem as eleições. 

Os levantamentos encomendados na Venezuela e na Nicarágua foram financiados pela National Endowment for Democracy (NED) dos EUA. Arruinaram a economia, mas perderam a guerra na rua. 

Conclusão 

As guerras não são ganhas só pelas armas. Na verdade, os pesados bombardeamentos e as prolongadas ocupações militares aumentam a resistência popular, em última análise levam a retiradas e derrotas. 

As grandes e pequenas guerras dos EUA no século XXI não têm conseguido incorporar os países visados ao seu império. 

Ocupações imperialistas não são vitórias militares. Apenas alteram a natureza da guerra, os protagonistas da resistência, o âmbito e a profundidade da luta nacional. 

Os EUA têm tido êxito a derrotar exércitos regulares, como aconteceu na Líbia, Iraque, Somália e Ucrânia. Mas a conquista ficou limitada no tempo e no espaço. Surgiram novos movimentos de resistência armada, liderados por antigos oficiais, ativistas religiosos e ativistas de base… 

As guerras imperialistas chacinaram milhões, destruíram as relações tradicionais da família, do local de trabalho e dos vizinhos e puseram em marcha uma nova constelação de líderes anti-imperialistas e combatentes em milícias. 

As forças imperialistas decapitaram líderes instituídos e dizimaram os seus apoiantes. Assaltaram e pilharam antigos tesouros. A resistência reagiu recrutando milhares de voluntários desenraizados que serviram de bombas humanas, desafiando mísseis e drones. 

As forças imperialistas dos EUA não têm ligações à terra ocupada e à população. São "estranhos" que trabalham à hora; procuram sobreviver, garantir promoções e ir-se embora com um bónus e uma dispensa honrosa. 

Em contraste, os combatentes da resistência estão ali para ficar. À medida que avançam, visam e abatem os representantes imperialistas e os mercenários. Denunciam os governantes corruptos que negam à população as condições elementares de existência – emprego, água potável, eletricidade, etc. 

Os vassalos imperialistas não comparecem a casamentos, dias sagrados nem funerais, ao contrário dos combatentes da resistência. A presença destes últimos assinala um juramento de lealdade para com os mortos. A resistência circula livremente nas cidades, vilas e aldeias, com a proteção da população local; e à noite, dominam o terreno inimigo, protegidos pelo seu povo, que lhes passa informações e logística. 

A inspiração, a solidariedade e as armas ligeiras podem mais do que um conflito com drones, mísseis e metralhadoras em helicópteros. 

Até os soldados mercenários, treinados pelas Forças Especiais, desertam e traem os seus amos imperialistas. Os avanços imperialistas temporários só servem para as forças da resistência se reagruparem e contra-atacarem. Consideram a rendição como uma traição à sua forma de vida tradicional, como a submissão à bota das forças da ocupação ocidental e aos seus funcionários corruptos. 

O Afeganistão é um bom exemplo de uma "guerra imperialista perdida". Depois de vinte anos de guerra e de mil milhões de dólares de despesas militares, dezenas de milhares de baixas, os Talibãs controlam a maior parte do campo e das cidades; entram e conquistam capitais provinciais e bombardeiam Cabul. Assumirão controlo total, no dia em que os EUA se retirarem. 

As derrotas militares dos EUA são o produto de um erro fatal: os planeadores imperialistas não podem substituir com êxito a população indígena por governantes colonialistas e comparsas locais. 

As guerras não se ganham com armas de alta tecnologia, dirigidas por funcionários ausentes, divorciados da população; não partilham do seu sentido de paz e justiça. 

A população explorada, imbuída de um espírito de resistência comunitária e de abnegação, tem demonstrado maior coesão do que soldados em rotação, ansiosos para regressar a casa e soldados mercenários com sinais de dólar nos olhos. 

As lições de guerras perdidas ainda não foram aprendidas por aqueles que pregam o poder do complexo militar-industrial, que fabrica, vende e lucra com as armas, mas têm falta da massa humana com menos armas mas com maior convicção, que tem demonstrado a sua capacidade de derrotar exércitos imperialistas. 

A bandeira dos EUA mantém-se desfraldada em Washington, mas está bem dobrada nos gabinetes das embaixadas em Cabul, Trípoli, Damasco e noutras zonas de batalhas perdidas. 

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O original encontra-se em www.globalresearch.ca/the-us-the-century-of-lost-wars/5653844
Tradução de Margarida Ferreira. 

Este artigo foi traduzido por https://resistir.info/ .