Florianópolis e a política catarinense

4 de Outubro de 2018, por Maicon Cláudio da Silva

Gerson Merisio (PSD) e Mauro Mariani (MDB).
Gerson Merisio (PSD) e Mauro Mariani (MDB).

As eleições estaduais estão chegando e na disputa pelo governo do estado, as pesquisas indicam que os dois primeiros colocados são Gelson Merisio (PSD), Mauro Mariani (MDB).

Nenhum desses candidatos é nascido em Florianópolis, nem representa diretamente interesses particulares da capital do estado. Merísio é de Xaxim, Oeste de Santa Catarina. Mariani, nascido no Paraná, fez carreira em Rio Negrinho, no Norte do Estado. Nenhum deles, tampouco, é grande conhecido da população catarinense.

De fato, o último governador catarinense nascido na região foi Esperidião Amim, eleito há quase 20 anos. Governador que começou sua carreira política como prefeito biônico na capital, indicado em plena ditadura.

Mas o que explica esse pouco peso de Florianópolis na política catarinense? Um escritor boliviano, René Zavaleta Mercado, talvez contribua para nossa compreensão desse fenômeno.

Zavaleta, discutindo o tema da formação dos Estados, lembra a importância da formação de um mercado interno para configuração do Estado Nacional. É a existência de um mercado, uma comunidade de trocas, que permite “a passagem da ideologia da aldeia para a ideologia da nação”.

Isto se explica ao entendermos que na formação de um processo de produção e circulação de mercadorias em um mesmo território, se conforma uma comunidade que desenvolve entre si relações de proximidades que não existiam até então, quando suas vidas pareciam seguir independentes umas das outras.

Santa Catarina nunca formou essa verdadeira comunidade, e Florianópolis, pelas condições particulares de seu desenvolvimento produtivo (falta de um setor produtivo de peso), nunca pode exercer esse poder centralizador em relação ao interior do estado.

De fato cada região catarinense desenvolveu um mercado próprio que, além de ter poucas relações com Florianópolis, muitas vezes tem inclusive maior proximidade com outros estados ou países. Para o Norte do estado, o Paraná e São Paulo têm talvez até mais importância do que Florianópolis na dinâmica de seu desenvolvimento. O mesmo se poderia dizer a respeito do Oeste de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul, ou os países de destino de suas exportações agrícolas.

Na prática, a consequência da não existência dessa articulação regional, é a manutenção do poder das elites regionais. A Assembleia Legislativa acaba se tornando, portanto, uma espécie de “Câmara dos Lordes”, com representantes senhoriais de cada um dos territórios que compõem essa unidade federativa. Das oligarquias do agronegócio do Oeste catarinense, às elites industriais do Norte do Estado e Vale do Itajaí, cada um segue mandando em seus próprios feudos, e atuando na manutenção de suas próprias dominações regionais.

Isso talvez explique o fato de os dois primeiros colocados na disputa pelo governo do estado serem ilustres desconhecidos. Em Santa Catarina, para se eleger um governador, basta que antes um acordo seja firmado entre cada elite regional. Modalidade estranha de “feudalismo”, em que os diferentes suseranos elegem seu próprio rei.

Na Grande Florianópolis, a falta de um setor produtivo de destaque, e a existência de um funcionalismo público relativamente expressivo, acaba por acentuar também esse caráter reacionário, de manutenção dos mesmos no poder. Em períodos eleitorais, é fácil ver, por exemplo, o “toma lá, dá cá”, e a troca de favores pelos votos.

Esta configuração regional tem impacto decisivo sobre a atuação da esquerda no estado. Na medida em que as regiões têm dificuldades em se articular entre si, a própria esquerda passa a sofrer, ela mesma, de dificuldades para alcançar expressões efetivamente catarinenses, que ultrapassem as fronteiras da “aldeia”.