A Genealogia de uma Paixão Jaircirorobertofernandojanaína

14 de Novembro de 2018, por Gilberto Felisberto Vasconcellos

O mundo nu
O mundo nu

A vida pode ser encarada na compreensão dos signos e sinais em seus aspectos visual, tátil e acústico. É isso que tem mostrado Jean-Luc Godard em sua revolucionária prática fílmica.

O poeta concretista Décio Pignatari nomeou esse procedimento de transcodificação semiótica. Decodifiquem a mensagem assimilando-a e simultaneamente cruzando-a com todos os níveis de correspondência. É isso que está na obra de Rimbaud, Joyce, Baudelaire, Eisenstein, Marx e Epicuro. 

No cotidiano fazemos montagem ao falar no celular e pagar a conta de luz, ou senão quando vemos na TV que Fernando Gabeira, o ícone meia oito da luta armada, entrevista a histérica deputada bolsonariana Janaína Pascoal. 

Os códigos se misturam e ao mesmo tempo permanecem autônomos. A fala dócil, pausada e arrastada de Gabeira sobressai junto com o coletinho pretopunk de Janaína passando as mãos em seus longos cabelos.

O primeiro gesto feminino na história foi alisar os cabelos com as mãos. De cabelos soltos aos cabelos presos. 

É solteira ou casada? 

A imagem pública pela qual Janaína Pascoal se notabilizou foi a batalha Lava-Jato do Tororó contra a corrupção. Dane-se o Brasil injusto. Ela quer uma nação honesta, como se diz de um comerciante honesto. Ela acredita em lucros honestos para pagar os seus honorários honestos.

A ex-professora de Direito Penal da USP é entrevistada pelo mui midiático adversário da ditadura. Ambos estão convencidos de que a punição é o que conserta o mundo. 

Evoca-se o passado sem o presente, por exemplo, Janaína está de tanga maconhada na praia e Gabeira desfila com a toga careta de Sergio Moro. Surge aos nossos olhos citado o livro de Fernando Gabeira com o título invertido, tal qual Marx fizera com Hegel: alvorada machona e homo crepúsculo. 

Associamos o meia oito estudantil à vitória do capitão raitequi, mas não ficamos no entanto comovidos com o choro de Darcy Ribeiro em Copacabana por ter perdido as eleições de 1986. Nessas eleições cancerígenas para o governo do estado do Rio de Janeiro disputaram em consórcio amoroso Fernando Gabeira e Moreira Franco. Com isso, conforme fofocou o sacana Glauber Rocha, a casa de Caetano Veloso foi franqueada para Gabeira fazer sua cama de sucesso. 

Charles Pierce nos ensinou que a transcodificação semiótica não tem nada de arbitrária. É a busca da lógica sígnica na história feita de luta de classes. 

O ex-brizolista Roberto D’Ávila, com o seu proverbial saber jurídico, é o repórter da ponderação democrática ao entrevistar Ciro Gomes que perde a eleição mais para o PT do que para o Jair.

Se você quiser pode me chamar pelo meu apelido. 

A casa grande trepa com a senzala e diz oi. O que conta é o presente, a vida como ela é cheia de merda, não o passado que ainda não passou. Corta-se o passado em função de um futuro apoio tucano para pavimentar a trilha de Ciro Gomes rumo ao Planalto.

O PDT antigo de Leonel Brizola, não mais que de repente, é chapado na tela, porque nunca foi o partido brizolista e marxista de D’Ávila. 

O ex-ministro Lupi é mais relevante e épico para Ciro do que o historiador Leonel Brizola na explicação do fiasco ideológico de Lula que começou em 1989.

Não deu Brizula. O sol não juntou com a lua. Brizola foi desprezado por Lula em função da pesquisa de intenção de voto manufaturada pela Standard Oil.

Ambos, Ciro Gomes e Roberto D’Ávila na vaidade cosmética diante da câmera de TV, são os desenvolvimentistas da telenovela capitalista, ou seja, é a alternativa transformadora de Mangabeira Unger, o eufemismo de Harvard que adoça a dominação imperialista denunciada por Gunder Frank e Leonel Brizola.