A Guiana Francesa se levanta outra vez

31 de Outubro de 2017, por Maicon Cláudio da Silva

Manifestantes em frente ao prédio da Prefeitura de Caiena, exigindo um encontro com o presidente francês Emmanuel Macron.
Manifestantes em frente ao prédio da Prefeitura de Caiena, exigindo um encontro com o presidente francês Emmanuel Macron.

O presidente francês Emmanuel Macron esteve na Guiana Francesa na última semana para participar da 22ª Conferência de presidentes das regiões ultra-periféricas. O encontro reuniu as autoridades de diversas regiões não-autônomas da União Europeia, tais como Guiana Francesa, Guadalupe, Reunião, Martinica, Mayotte e Saint-Martin, territórios pertencentes à França, Açores e Madeira, pertencentes a Portugal, e as Ilhas Canárias, pertencentes à Espanha.

A vinda de Macron foi a primeira de um presidente francês desde que a Guiana viveu em Abril a maior manifestação popular de sua história.  Na época, a região passou por três semanas de uma greve geral que atingiu todo o território, além da construção de uma série de barricadas em importantes rodovias e realização de diversas passeatas.

Mesmo que o objetivo de Macron fosse participar da Conferência, estrategicamente marcada na Base espacial europeia na cidade de Kourou (distante da capital Caiena), as mobilizações populares acabaram por colocar o presidente de frente com os problemas reais da Guiana Francesa.

O território da Guiana acumula grandes desigualdades sociais. A proporção de homicídios é quatro vezes maior que a da região de Marseille, na França, por exemplo. Uma em cada quatro famílias da Guiana Francesa vive abaixo da linha da pobreza e o índice de desemprego atinge 22%, contra 9,7% na França metropolitana. Cerca de 40% dos jovens deixam a escola sem diploma. Além disso, o fato de ser um território pertencente à União Europeia e, portanto, submetido à sua legislação comercial, mas que está geograficamente encravado na Amazônia, contribui para que o custo de vida guianês, sobretudo de alimentos, seja até 40% maior que na França metropolitana.

Diante dessa situação, em Abril último foi assinado o Acordo da Guiana, entre a então ministra de Ultramar e as organizações populares que encabeçaram a greve geral. Dentre as conquistas, estavam investimentos em segurança, educação e saúde, além de um comprometimento do Estado em ceder 250.000 hectares de terra à Coletividade Territorial Guianesa, bem como 400.000 hectares às populações indígenas e aos bushinengués, comunidades similares aos quilombos brasileiros. Vale lembrar, que mais de 90% das terras da Guiana é de propriedade estatal francesa. Outra conquista importante foi uma promessa de alteração estatutária da relação entre Guiana e França.

As manifestações dessa última semana exigiam um encontro entre o presidente francês e o coletivo Pou Lagwiyann Dékolé (Para a Guiana Decolar), formado nas manifestações de Abril. Macron se recusou a se reunir com o grupo, alegando que “seus interlocutores legítimos são aqueles democraticamente eleitos”, em alusão à representação territorial da Guiana. A atitude do presidente reprovada pela população acabou desencadeando um confronto entre os manifestantes e a polícia. Danos materiais e algumas pessoas feridas foram registrados.

Ainda que tenha se recusado a encontrar os movimentos populares, Macron se comprometeu a adaptar a legislação da República Francesa às necessidades da Guiana. Resta saber até que ponto a decisão ficará só na promessa ou não. O fato é que o povo permanece mobilizado e atento às medidas do governo francês. A criação de um coletivo como o Pou Lagwiyann Dékolé e sua atuação nesta visita presidencial confirmam esta situação.

Vale mencionar que diferente do que se passou na França metropolitana, em que o primeiro lugar nas eleições presidenciais foi do banqueiro Emmanuel Macron, na Guiana venceu o candidato do Partido de Esquerda Jéan-Luc Mélenchon, com 24,7% dos votos, seguido de perto pela conservadora Marie Le Pen, com 24,3%. A popularidade do presidente, já baixa, deve diminuir ainda mais após o ocorrido. Por outro lado, a construção de uma identidade guianesa segue firme, como a presença constante de bandeiras da região nas manifestações populares tem demonstrado.

Confronto em Caiena entre a polícia e a população da Guiana Francesa.
Confronto em Caiena entre a polícia e a população da Guiana Francesa.