Honduras, quase uma Macondo

24 de Dezembro de 2017, por Elaine Tavares

Foto: Telesur
Foto: Telesur

As eleições presidenciais em Honduras encerram-se com a constatação de mais um golpe dentro do golpe que foi dado em 2009, quando Manuel Zelaya foi derrubado. O mundo “patas arriba”, mergulhado na anomia (tempo sem lei).  Ou seja, a lei vale dependendo de quem a usa. É um jogo de cartas marcadas, no qual aqueles que estão  no poder – e com todas as forças da repressão – mandam e desmandam.

A derrota do candidato apoiado por Mel Zelaya, e a vitória do atual presidente Juan Orlando Hernández, levou milhões de pessoas às ruas, em protesto contra o que consideram mais uma grande fraude. Nasralla, candidato de oposição era dado como vencedor, sem que houvesse possibilidade matemática de virar o jogo, quando os números começaram a mudar, garantindo a vitória ao atual presidente. Pelo menos 20 pessoas foram mortas nos enfrentamentos com a polícia, mas esses são os números oficiais. E o mais incrível: Juan Hernández foi reeleito, coisa que a Constituição de Honduras proíbe, e motivo pelo qual deram o golpe em Zelaya, acusando-o de tentar se perpetuar no poder. Ou seja, para Juan, vale. Pelo menos foi o que decidiu o poder judiciário local, que permitiu a reeleição. Vejam que esses superpoderes do judiciário são uma real em todo o continente, sobre passando, inclusive, a Constituição.

Não bastasse todo esse teatro, o candidato derrotado, Salvador Nasralla,  decidiu se desvincular da frente de partidos que o apoiava, desistindo também da luta de resistência contra a fraude eleitoral que o povo trava nas ruas. Em declaração à imprensa informou que seu “contrato” com a Aliança de Oposição era apenas eleitoral e que agora estaria imbuído na construção de um diálogo nacional com o presidente eleito.

Mel Zelaya criticou duramente o seu até ontem companheiro de aliança dizendo que Salvador nunca poderá explicar como pode abandonar a aliança em plena batalha, desmotivando todo o povo que está nas ruas.

Salvador anunciou sua retirada de cena logo depois de os Estados Unidos reconhecerem a eleição de Juan Orlando como legítima. “Sendo assim, eu fico fora da cena”, declarou, como se a decisão estadunidense fosse o oráculo. Ele perdeu as eleições por 1,5% dos votos, num pleito marcado por irregularidades.

A coalização a qual encabeçava esperava que Salvador fosse a figura que iria liderar a luta pela retomada da democracia, mas foi surpreendida pela decisão do candidato de formar uma força nacional que buscará o diálogo com o presidente eleito.

Mel Zelaya se manifestou dizendo que toda essa trama de traição à Aliança aconteceu na viagem que Nasralla fez a Washigton para buscar apoio contra a fraude. A própria OEA já estava convencida de que tinha havido fraude nas eleições. “O que aconteceu lá é que o enredaram em uma armadilha. O povo foi suplantado pelos organismos internacionais que convenceram Nasralla sobre a legitimidade da eleição ”.

Agora, Zelaya pretende seguir com a luta junto da população, mas certamente os ânimos deverão arrefecer, uma vez que o próprio candidato derrotado pela fraude desistiu. Entre a população fica uma grande frustração, pois afinal pessoas morreram para defender a liberdade e a democracia em Honduras, e não poderiam ter sido traídas assim.

E assim vamos assistindo mais um triste capítulo da história latino-americana, sempre uma espécie de eterno retorno no qual os Estados Unidos definem as cartas do jogo, muito bem acompanhados das elites locais, dispostas à subserviência desde que permaneçam no poder.   

Honduras, que tem cerca de 70% de sua população (seis milhões de pessoas de um total de oito milhões) enquadrada no mapa da pobreza, com metade desse número em pobreza extrema, seguirá sua luta, afinal, o povo unido é sempre maior do que seus pretensos líderes.