A informação e o direito à cidade

11 de Dezembro de 2019, por Elaine Tavares


Conversa sobre informação e o direito à cidade realizada no I Congresso de Direito à Cidade realizado nos dias 9 e 10 de dezembro de 2019.

1 – A mídia comercial, tal qual a justiça, é um instrumento da classe dominante e se ampara em duas pedagogias fundamentais: a Pedagogia da Sedução e Pedagogia do Medo. Uma olhada no seu conteúdo e pode-se perceber que os conteúdos estão voltados ora para seduzir, ora para amedrontar.  Na sedução: o capitalismo é bom, compre isso, compre aquilo, seja bonito fumando tal cigarro, seja feliz comendo tal margarina, veja como os empresários da novela são bonzinhos. É o que o pensador venezuelano Ludovico Silva chamou de mais-valia ideológica. O trabalhador, ao acessar a mídia, não se descola do sistema que lhe rouba vida. Assim que da mídia comercial não podemos esperar nada, democratiza-la, dentro do sistema capitalista, não significará absolutamente nada para os trabalhadores, para a maioria da população. O sistema capitalista, para se consolidar e seguir poderoso, precisa desse braço armado, sedutor, por onde divulga suas ideias, expressa a cultura do sistema, trabalha a pedagogia da sedução e define os inimigos que precisam ser combatidos. Ele pode conceder uma coisinha aqui, outra ali, para se dizer “democrático”, mas na essência continuará mentindo e seduzindo.

2  - A mídia comercial não mostra nem nunca mostrará a cidade real, essa cidade dos desvalidos, dos condenados, dos sem casa, dos sem esgoto, dos sem lazer. Não tem interesse nisso, porque ao apresentar a realidade expõe as contradições do sistema. Assim, quando a cidade aparece na mídia é sempre de maneira ritual e fragmentada. Matéria sobre buracos de rua, sobre problemas estruturais são dadas como se fossem pequenos furúnculos num corpo sadio. Aí os repórteres mostram a denúncia e depois mostram o poder público dizendo que vai arrumar. Pronto. Problema resolvido.

3 – Já com relação aos que enfrentam o sistema, a proposta da mídia comercial é aprofundar a  pedagogia do medo. Tudo é feito para amedrontar as pessoas e para criar os estereótipos do que vem a ser o inimigo da ordem e do progresso. Programas como os do Datena, que tem sua filial em todos os estados do país, são usinas do medo. Mortes, assassinatos, coisas horríveis sendo praticadas por quem? Por gente pobre, preta, desempregada, favelada. Raramente um crime de gente rica, branca, bem alimentada. E quando aparece soa como algo assim, quase inusitado. Parece que nada de ruim acontece nos palácios. A parada ruim é só nas comunidades empobrecidas. Por isso que massacres como os de Paraisópolis são vistos como normal, já que aquele povo lá, nos bailes funk, é pobre, preto e favelado, logo, para a maioria alfabetizada pelo medo é “tudo bandido”.

4 - Quando as gentes se levantam em luta, a mídia também mostra. Mas essas lutas igualmente aparecem como uma parte doente de um corpo saudável, reforçando o preconceito instalado pela pedagogia do medo. São pessoas que incomodam. E sobre elas já está manufaturado o conceitos necessários para fazer com que a sociedade encare esses movimentos como coisas ruins. São os baderneiros, os contra tudo, os eco chatos, os vagabundos que querem mordomia sem trabalhar, que querem casa sem pagar por ela. Ou seja, tudo de ruim. Gente ruim. Isso não é por acaso. É preciso fortalecer essa ideia para que a sociedade os veja como seus inimigos também. Então, a pedagogia do medo já fez o seu trabalho.

5  - A mídia mostra como inimigos de todos aqueles que são apenas os inimigos do capital, da classe dominante, ou seja, uma pequena parcela da humanidade que domina o mundo e que produz tanta dor, destruição e desgraça. É um trabalho eficaz e a conjuntura nos mostra isso. De novo estamos enfrentando o ódio de nossos iguais. Esse ódio foi apaziguado por um tempo, durante a era do “politicamente correto”, mas ele não desapareceu. Permaneceu vivo. Porque a mídia continuou seu trabalho de sedução/medo. É importante frisar que o ódio de classe é bom e necessário. Só que o capital faz com que o ódio fique entre a classe trabalhadora, sem envolver a classe dominante. Odeia-se o índio e não o sistema que rouba suas terras (os ricos, os latifundiários, os grileiros). Odeia-se o negro e não o sistema escravocrata que o aprisionou, odeia-se o pobre e não o sistema que o produz. Odeia-se o gay, o trans, o anarquista, o sem teto, o sem terra, o comunista, porque eles desestabilizam a “paz”. Uma paz que não existe, mas que as pessoas acreditam que exista, porque bombardeadas com toda a maquinaria ideológica do capital que também se reproduz na família, na escola, na igreja e na mídia. 

6 – O dramático de tudo isso é que a luta dos empobrecidos pelo direito a cidade sempre se volta contra eles. Quando ocupam um vazio urbano, por exemplo, na batalha por moradia, estão abrindo caminhos para que se expresse a renda da terra, já muito bem explicada por Marx. As famílias ocupam, sofrem a ação da polícia, e quando finalmente conquistam a terra, o posto de saúde, os caminhos, acabam por valorizar os espaços. E os endinheirados olham para o que era um vazio sem estrutura e querem tomar para si. Porque já está ocupado, já conquistou a estrutura, valorizou. Então, os empobrecidos voltam a sofrer a pressão do capital querendo tomar suas terras. Vivemos isso todos os dias na nossa cidade, nas praias e nos morros.  

6 – Diante disso, que fazemos? Como informar sobre a cidade real num sistema de contrainformação? Como desfazer as armadilhas ideológicas montadas via rádio, tv, jornal, internet, redes sociais? Como enfrentar o monstro midiático? 

7 – Ao longo dos tempos sempre procuramos montar nossa própria mídia. Os jornais de bairro, jornais sindicais, as rádios comunitárias. Processos importantíssimos de resistência, mas praticamente ineficazes, porque não atingem a massa. Tem pequeno alcance e, no geral, são incapazes de trabalhar a notícia com a totalidade, igualmente fragmentando a informação, passando um discurso ideologizante que não ajuda no processo de emancipação do sujeito. O que quero dizer com isso? Que não basta mostrar a ocupação, por exemplo, há que dizer que ela só existe por conta de um sistema de produção que tem como norma básica a existência do empobrecido. Para que um viva, outro tem de morrer. Esse é o tema. Então, se há uma ocupação de luta por moradia, a nossa mídia tem de contextualizar de tal maneira que quem está na ocupação entenda sua posição dentro da realidade, e quem está de fora perceba que a responsabilidade daquela situação não é só do prefeito de plantão, mas de um sistema que se organiza pra que as coisas sejam assim , um sistema global do qual o prefeito é braço. Temos dificuldade com isso. Em mostrar isso. 

8 – Adelmo Genro Filho, um teórico do jornalismo, já nos mostrou como é possível fazer jornalismo sem manipular. Usar a informação como formação de conhecimento e não só como uma informação a mais. Mas, infelizmente, nossos companheiros jornalistas, que atuam nas mídias independentes, comunitárias e populares, apesar de conhecerem a teoria, ainda não se apropriaram desse modo de escrever e narrar e, no mais das vezes, produzem ideologia também. Agora nas redes sociais isso é ainda mais óbvio. Quanta mentira sai no campo da esquerda. Não é só a direita que mente. Isso não pode acontecer. Na nossa mídia a informação tem de ser veraz, confiável, correta, totalizante. 
9 – E, diante do assombroso volume de informações que hoje nos chega via redes sociais, como atuar, como se defender, como encontrar a verdade? Não é coisa fácil e demanda um trabalho conjunto entre partidos políticos, movimentos sociais, educadores, lutadores sociais, no sentido de ajudar a criar o pensamento crítico em cada pessoa com a qual atua. 

10 – Partilho da ideia de que ainda é muito preciosa a formação cara-a-cara, a comunicação interpessoal e ainda aposto no impresso. As pessoas querem saber das coisas, elas têm fome de informação, porque hoje a informação é uma necessidade social. Mas, elas também estão mergulhadas num redemoinho de palavras que lhes chegam no celular, fragmentadas e sem amarração totalizante. Então, temos dois caminhos:

a) Ou tentamos responder a enxurrada de ideologia e mentiras que são divulgadas pela mídia comercial e pelas redes sociais, coisa que não conseguimos, porque não temos o controle dos meios. Uma emissora de TV chega a milhões de pessoas. Uma empresa disparadora de uatizapi chega a milhões e nos não temos isso. Não temos essa estrutura, esse alcance de massa. Não temos como competir. Nossa mídia é pequena. Não é de massa. 

b) Ou enfrentamos com criatividade, fugindo do modelo que nos é imposto. A loucura do roubo do tempo nos é imposta pelo capital. O sistema nos quer enredados nessas maluquices informativas que desinformam, nos rouba o tempo para que não pensemos. E entramos na loucura, querendo competir com o tempo do capital. Um exemplo: estamos hoje em Florianópolis sem nenhum jornal. As empresas fecharam, atuando só nas redes sociais.  Acredito firmemente que um jornal pode ter papel importante nesse momento histórico. As pessoas querem ler, gostam disso. A Igreja Universal – que é uma usina ideológica tremenda – sabe disso e distribui um jornal bonito e capaz de tocar as pessoas. Eu as vejo no ônibus, lendo o jornal, que é standard ( grande). E por quê? Porque ali têm coisas que lhes interessa. Então, o que nos falta para ter um jornal, capaz de mostrar a cidade real, provocar o desequilíbrio, fazer a pessoa sair do uatizapi?

11 – Finalizo dizendo que a mídia popular sozinha não faz a revolução, não é o motor da mudança. Hoje, é apenas resistência. Mas, já passamos do tempo da resistência. É preciso avançar e construir o processo da revolução brasileira. Garantir o país para os trabalhadores, os empobrecidos, os oprimidos. Garantir uma cidade para quem a constrói cotidianamente. Para isso nossa mídia tem de atuar para além da resistência. Tem de formar gente. E claro, precisa que também existam partidos políticos forjando o novo, sindicatos formando seus trabalhadores, movimentos sociais lutando, mas também estudando, vanguardas políticas e intelectuais fazendo seu trabalho de pensar em profundidade, totalizar os desejos e concretizar em propostas as demandas populares. O trabalho tem de ser conjunto. Uma andorinha sozinha não faz o verão. 

12 – E finalmente, deixo como provocação final a seguinte afirmação: não é possível democratizar a comunicação no capitalismo. Isso nunca vai acontecer. Não gastem cartuchos com isso. Há que destruir o capitalismo como modo de produção, como maneira de viver. Um novo modo de produção, uma nova cosmovivência apontará também uma nova comunicação, na qual os meios de informação de massa estarão nas mãos dos trabalhadores, da maioria das gentes. Precisamos avançar para além da resistência. Essa é a nossa hora histórica.