Jair, Edir e Bannon maracutaiam a festa dos pobres e oprimidos

10 de Outubro de 2018, por Gilberto Felisberto Vasconcellos

Cena de  Terra em Transe - Glauber Rocha
Cena de Terra em Transe - Glauber Rocha

Da telenovela à Lava-Jato

Minha hipótese é que Bolsonaro inaugura uma nova etapa dos signos em rotação cyberzapycapytalysta. Seu cabo eleitoral não é a telenovela Fernando Collor, a cocaína dos pobres manufaturada pelos ricos. 

Bolsonaro não saiu dos capítulos da telenovela, pelo menos das telenovelas made in Globo, que são hedonistas e afeiçoadas ao consumo conspícuo; ao contrário das telenovelas evangélicas que tematizam a Bíblia com recorte kitsch apelando para a antiguidade, não ambientadas no Rio de Janeiro com camelô e gurizada avião passando droga. 

Sem querer chocar os pruridos da esquerda sentimental, eu diria que Bolsonaro é menos uma necessidade econômica da burguesia do que a expressão da decadência psíquica do pobre e do shopping classe média. 

Que desejo a massa tem nele? Desejo de quê? Qual é o sentimento que se interpõe entre o Capitão e o seu eleitorado? 

Pequeno burguês suburbano que se alfabetizou como paraquedista no Exército. Ele é o falso contra tudo, o candidato que quer ver o circo pegar fogo, se diz anti-sistema, mas mama na Câmara Federal há mais de 20 anos. 

A sua programática é exterminar a massa excedentária, convencido da impossibilidade de incorporar essa força de trabalho no mercado. Inteiramente desprovido da ilusão da legalidade. 

Apontar-lhe os erros e os vacilos linguísticos para detectar-lhe o vazio repleto de anacolutos de sua fala: quanto mais emite absurdos mais parece seduzir o eleitor. Chamem o Steve Bannon. Dinheiro não é o problema para nós. Pagamos o que ele pedir. O ex-Trump está desempregado.  

Não deve soar esdrúxulo dizer que Jair é hermano do Dória paulista, almofadinha da classe dominante que está fazendo campanha em São Paulo para o Capitão. Dória chifrou o seu padrinho Geraldo Alckmin. É o caso de perguntar se em todo tucano grã-fino e filho de papai não medra um Capitão soltando a franga a fim de tacar fogo na massa sobrante. Há um quadro aí de coerência na loucura. Por exemplo, o titio Edir Macedo lançou como palavra de ordem o seu filme contra tudo e contra todos, inspirando-se no Trump roliudiano. 

O âmago da mensagem de Jair Bolsonaro é a moralidade e não a economia. Se ele vai enxugar ou não o Estado, se dará ou não atenção ao Pré-Sal, à política de grãos e à biomassa energética caso chegue à Presidência da República, pouco importa: o que realmente importa em sua campanha é o moralismo.

Seu discurso moralista está ancorado na questão da homossexualidade, colocando-se contra essa “liberalidade” de costumes e à permissividade homoafetiva. Nisso ataca os governos anteriores, principalmente os do PT quanto aos escândalos sexuais “promovidos pela escola” com o “kit gay” da infância. Nesse “kit”, segundo ele, o PT e o MEC estariam conjuntamente arquitetando um ataque à família, colocando uma norma homossexual nos materiais didáticos perversos. 

Há a questão da falsa coragem. O cara rompe com sistema político, caubói valente, rebelde, anti-sistema, anti-establishment, talqualmente Fernando Collor em 1989, só que um Collor mais tosco e agressivo. Isso não é nenhuma novidade, pois Hitler e Mussolini se apresentaram como líderes anti-sistema. Hitler tomando cerveja nas tabernas de Berlim e Mussolini entusiasmado com os futuristas italianos. 

Ao contrário de Collor que estudou em bons colégios na Europa e Estados Unidos, que se alimentou bem na infância, eugênico, televisível, filho de Senador da alta classe oligárquica do nordeste, Jair Bolsonaro é um tremendo provinciano, língua presa, pequeno burguês suburbano proveniente do interior de São Paulo. Mudou-se depois para o Rio de Janeiro e, se não tivesse entrado para o Exército, não teria sido alfabetizado. 

Sua deputança do ponto de vista cultural não o aprimorou em nada, continua sendo um personagem medíocre. A coragem de araque, isso de tocar fogo no circo persuade os incautos por causa do saco cheio que rola na sociedade brasileira. Essa insatisfação é confundida com as baixarias proferidas por Bolsonaro. É claro que os ricos sabem muito bem que ele não vai quebrar com nada, que isso é uma performance,  um show, que ele é um bom moço, obediente, não vai contrariar nenhum interesse da classe dominante. 

Os pobres com certeza vão ficar mais pobres.