Encerram-se as Jornadas Bolivarianas de 2018

10 de Maio de 2018, por Elaine Tavares


As Jornadas Bolivarianas desse ano discutiram Marxismo e Revolução e foram três dias de intensos debates, permeados por profundas análises e polêmicas. O primeiro ponto a considerar foi o desvelamento de que o mundo no qual vivemos está em estado permanente de guerra. Um conflito cirúrgico que se faz – violento ou brando - em um bem demarcado corredor , no qual se pode constatar a cobiça pelas riquezas naturais e a intenção de dominar espaços estratégicos.  Esse corredor passa pelo Oriente Médio, África, parte da Ásia e América Latina. São diversos tipos de guerra, com gradações diferenciadas, mas com o mesmo objetivo: apropriação da riqueza pelo capital. O Brasil não está fora desse corredor e também tem sua cota de “situação de guerra”. Tudo isso provocado pelas forças dominantes que se digladiam para decidir quem controla a riqueza.

Outra revelação que surpreendeu a alguns assistentes foi a de que os chamados “governos progressistas” vividos pela América Latina nos  últimos anos não lograram dar combate aos grandes dilemas do subdesenvolvimento e da dependência. Os números se apresentaram implacáveis. Muito pouco se mexeu nas questões estruturais e, em alguns casos, a dependência até se aprofundou. É o caso do Equador, que no primeiro governo de Correa chegou a fazer a auditoria da dívida, abrindo uma possibilidade concreta de soberania sobre o tema, e que voltou a se endividar de maneira surpreendente nos anos que se seguiram. 

A financeirização da economia, da vida e a centralidade do capital fictício foram apresentadas de forma muito didática e o debate sobre vários aspectos da obra de Marx e da sua teoria revolucionária estiveram  igualmente em foco. A discussão sobre a pós-modernidade, fragmentação das lutas, a assunção das identidades e a falta de uma perspectiva de classe nesse debate  também foi feita, buscando realizar o encontro entre temas que são específicos e a totalidade. A cultura nacional e a emergência do pop como uma característica do capitalismo levantou a plateia, bem como o trabalho fotográfico sobre as gentes latino-americanas, fruto de uma colheita em sete países pelo fotógrafo argentino Facundo Cardella. 

As jornadas contaram ainda com a apresentação de dois importantes filmes: "Araguaia, presente!" de André Queiroz e Arthur Moura, sobre a guerrilha do Araguaia, e “Socialismo limpo, capitalismo sujeira”, de Gilberto Vasconcellos e Bruno Abdias, sobre as ideias do cientista brasileiro Bautista Vidal. Dois debates preciosos que trouxeram a história recente e uma nova concepção de energia para a vida universitária, tão carente de referências.

A presença de um dos criadores da Teoria Marxista da Dependência e um dos mais importantes teóricos latino-americanos, Orlando Caputo, fechou o seminário, com um profundo debate sobre a situação econômica mundial. 

Os grande dilemas da realidade latino-americana foram apontados e dissecados. Agora, cabe aos estudantes e pesquisadores darem maior concretude aos estudos que estão em andamento, a ponto de serem capazes de apontar cenários para os dias que virão, e que não serão fáceis, como nunca foram dentro do capitalismo. 

Todo o material das conferências e os debates serão disponibilizados na página do IELA em breve.