Londoño: “A sigla FARC expressa o sentimento dos combatentes”

17 de Setembro de 2017, por Katu Arkonada

 

Rodrigo Londoño - Timochenko
Rodrigo Londoño - Timochenko

O comandante das FARC-EP, Rodrigo Londoño, agora máximo dirigente do partido da Força Alternativa Revolucionária do Comum [FARC], sustenta que ter mantido a sigla, porém com outro significado, reflete o sentimento acumulado na subjetividade dos combatentes.

Também reflete sobre os Acordos de Paz em Havana. Sempre se pode sonhar mais, porém distanciando-se de todo voluntarismo é o que objetivamente se pode conseguir. Porém o importante, segundo se desprende de suas palavras, é ter dado um passo significativo para trabalhar por uma paz estável e duradoura.

Katu Arkonada {KA]. – Quem é Rodrigo Londoño, o homem por trás do guerrilheiro Timochenko, Comandante-Chefe das FARC-EP?

Rodrigo Londoño (RL).- Na realidade, Rodrigo Londoño não é o homem situado por trás de Timochenko, é o mesmo homem, um colombiano comum e corrente que um dia, movido pelos sonhos e as condições de perseguição contra o movimento popular imperantes em seu país, optou por se somar ao movimento armado que lutava por profundas transformações em prol da democracia, da justiça e da paz. Nas FARC, por razões de segurança para sua família, como sucedia com todos, teve que adotar um pseudônimo. O processo de paz pôs de presente ante o país que se tratava da mesma pessoa. A Jorge Rojas lhe fiz a mais ampla retrospectiva de minha vida, que publicou sob o título de O último guerrilheiro.

KA.- Que avaliação faz dos Acordos de Havana? Se podia conseguir algo mais? As FARC-EP cumpriram sua parte? Que avaliação faz do nível de cumprimento dos acordos por parte do governo?

RL.- A avaliação dos Acordos tem sido reiteradamente exposta nos documentos de nossa organização e nos discursos pronunciados uma e outra vez por ocasião deles. Os consideramos um instrumento valiosíssimo, porque contêm a potencialidade de desencadear em Colômbia um protagonismo inédito dos setores inconformados e portanto a capacidade de precipitar profundas mudança na vida nacional.

Sempre sonhamos em conseguir mais. Porém há que ser objetivos mais que voluntaristas. Se chega até onde as circunstâncias reais o permitem. Colômbia é um país polarizado em extremo. Há os que sustentam que se trata de um Acordo no qual se entregou o país às guerrilhas, porém também os que dizem que se trata de um Acordo anódino. Nós estamos satisfeitos com o imenso respaldo nacional e internacional a eles.

As FARC temos dado provas contundentes de nossa vontade de cumprir ao pé da letra o pactuado. E o seguiremos fazendo. Eu disse isso na praça de Bolívar, oxalá o governo, o Estado colombiano em seu conjunto houvesse demonstrado a mesma diligência em cumprir sua palavra.

KA.- Que avaliação faz do Congresso das FARC que deu nascimento ao novo partido Força Alternativa Revolucionária do Comum?

RL.- O Congresso representa um passo histórico na vida da Colômbia. No centro internacional de sua capital, as FARC, cercadas de todo tipo de garantias, dão o salto a partido político, eliminando qualquer dúvida em torno da terminação de um conflito armado de mais de meio século.

KA.- Quais foram os principais pontos de acordo e de desacordo durante o Congresso?

RL.- Em linhas gerais, as FARC em seu conjunto estamos unidos no mesmo propósito. Digamos que no Congresso se destacaram duas tendências em torno à amplitude com que devemos nos apresentar ao país. O nome e a orientação ideológica concentraram em boa medida esse debate.

KA.- Por que FARC e não Nova Colômbia?

RL.- As posições se apresentaram franca e livremente. Na votação ganhou por esmagadora maioria o nome de FARC. Creio que o peso dessa sigla no sentimento dos combatentes jogou um papel importante, em política também os afetos contam.

KA.- Com que prioridades nasce este novo partido?

RL.- A primeira é óbvia, trabalhar com importantes setores do país e do exterior pela implementação cabal do acordado. Isso entranha conseguir que as forças opostas à paz e à reconciliação não sejam as que acessem o poder no debate eleitoral do ano de 2018. Por isso nossa proposta de um governo nacional de transição.

KA.- Como vão se conjugar as diferentes culturas políticas que chegam ao novo partido, a ex-guerrilheira e a urbana do PC3? Como vai o novo partido FARC se expandir e trabalhar o urbano?

RL.- Temos pela frente um desafio imenso. Nosso propósito fundamental aponta a conseguir a unidade de todas as forças que lutam pela justiça social, a democracia real e a paz em nosso país. Isso implica nos colocar de acordo entre nós mesmos. Os Acordos entranham nossos consensos principais. Conseguir sua implementação necessitará do aporte e do esforço de setores muito variados. Me atreveria a dizer que a multidão da praça de Bolívar em nosso lançamento público é a melhor prova do que se consegue com a unidade de setores rurais e urbanos.

KA.- Que alianças vão ser feitas com outros setores sociais e âmbitos de luta?

RL.- Nossa proposta de governo de transição deixa claro que estamos dispostos a nos aliar com qualquer colombiano que se pronuncie pela paz e reconciliação no país. O governo de transição deve ter o compromisso expresso de trabalhar sem trégua pela implementação exata dos Acordos de Havana.

KA.- Qual é a posição do novo partido FARC frente às eleições presidenciais colombianas em maio de 2018? [se se pode, explicar a aposta por um governo de transição, e por uma coalizão]

RL.- Creio ter afirmado em respostas anteriores.

KA.- Que leitura as FARC fazem do momento político que a América Latina vive? Qual vai ser sua relação com outras forças de esquerda do continente e espaços de articulação política como o Foro de São Paulo?

RL.- Nossa América, que inclui, ademais da América Latina, o Caribe, atravessa por uma época de enorme agitação social e política por mudanças profundas no sentido da democracia, justiça social e da paz. Isso se relaciona diretamente com o empenho por construir um modelo econômico diferente do neoliberal dominante. É notória a oposição aberta dos setores representativos do grande capital transnacional a esse anseio dos povos, assim como seu interesse por impedir ou sabotar qualquer conquista nessa direção. De algum modo se trata em escala continental da luta que travamos no campo nacional. Somos parte desse trânsito, e são obrigatórias para nós a identidade, a unidade, a solidariedade, o respaldo e apoio a todas essas lutas que são nossas. Governos, partidos e organizações trabalham nessa direção contar&at ilde;o com nossa amizade e fraternidade.

Tradução > Joaquim Lisboa Neto

Fonte: Telesur