México: uma cidade alisada pelo silêncio e pela morte

20 de Setembro de 2017, por Waldir Rampinelli

Na foto, Igreja de Coyacán, do período colonial, com sua cruz espatifada.
Na foto, Igreja de Coyacán, do período colonial, com sua cruz espatifada.

Caminhei, agora pela manhã, pelas ruas de Coyacán. Respirava-se um ar de dor e de espanto. Pessoas sentadas nos bancos do jardim, tomando seu atole e olhando pra lugar nenhum à espera, talvez, de alguma resposta: "Por qué nos há tocado esto, otra vez?" Neste bairro refugiou-se o genocida Hernán Cortez, em 1521, logo após massacrar os mejicas, em Tenochtitlán, pois não aguentava o cheiro de morte da cidade destruída.

Ontem (19/09), as pessoas se organizaram de maneira rápida e eficaz para atender quem estava soterrado. A força da juventude apareceu mais uma vez, quer escavando escombros com as mãos, quer levantando o punho pedindo silêncio para escutar gemidos esperançosos, quer gritando “Viva México!” pelo vivo que saía do edifício caído.

A televisão não deu atenção às cadeias humanas destes brigadistas, que sem serem convocados, assumiram um papel protagônico na salvação das pessoas. É o medo de que os organizados de hoje, resolvam atuar politicamente, amanhã. Afinal, este país vem experimentando uma decomposição social há mais de trinta anos, devido à sua submissão aos interesses dos Estados Unidos e por conta dos sucessivos governos corruptos que chegaram ao poder.

O capitalismo destruidor, na sua forma mais selvagem, a neoliberal, predomina com força por aqui. A Revolução Mexicana, de Zapata e Villa, foi assassinada pela burguesia que assaltou o poder. Resta, apenas, a urgente necessidade de outra.

O dia em que o povo se der conta da força que tem e passar a acreditar na sua própria organização, todos estes governos serão varridos do mapa da terra.

O México, hoje, é uma cidade alisada pelo silêncio e pela morte, diria Júlio Cortázar. Do meu stúdio, só escuto o ruído das sirenes e o barulho dos helicópteros. Mas o grito do povo diz: O México segue de pé!