Mineração matou o Rio Doce e ameaça Serra da Gandarela

3 de Junho de 2016, por Elaine Tavares


“o trecho do rio está morto, mas podem-se proteger os afluentes”

Vai longe o dia em que a represa do consórcio Samarco/Vale/BHP rompeu próximo a localidade de Bento Rodrigues, em Minas Gerais sepultando 300 anos de história do lugar, 19 pessoas e desalojando centenas de outras. Sob o rio de lama tóxica, além dos 19 mortos, ficaram os bichos, as casas, a vegetação e a história de dezenas de famílias. Foi uma tristeza sem precedentes. Se isso fora pouco, a lama que seguiu pelo curso de água também destruiu o rio Doce, responsável pela vida de milhares de outras pessoas. Aquele dia, 5 de novembro, está marcado nas retinas e na alma dos mineiros, uma vez que boa parte deles sabia que isso era possível de acontecer.

Não é de hoje a batalha do povo mineiro contra a destruição da vida no estado, por conta da mineração. Já em 1940, Osório da Rocha Diniz apontava para os riscos que esse tipo de empreendimento poderia trazer para as gentes. Tanto que em 1980 Minas Gerais vivenciou a campanha “Olhem bem as montanhas”, que era uma tentativa de conscientizar sobre a destruição, conforme contam as professoras da UFMG, Angela Carrato e Sofia Diniz, filhas de Osório e herdeiras da luta do pai. “Nós vivenciávamos a devastação na Serra do Curral, da qual ficou só uma casquinha”. Elas apresentaram seu trabalho de pesquisa em uma conferência durante o 5 Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais, em Belo Horizonte.

O ano de 1997 marcou mais um sofrimento para a família Diniz. Foi a venda da Vale do Rio Doce - empresa criada por Getúlio Vargas contra a predação internacional, por apenas 3, 3 bilhões. Foi uma das mais nefastas privatizações de Fernando Henrique Cardoso. Na verdade, uma entrega, um presente de amigo, uma vez que a empresa valia 92 bilhões de reais. Por conta desse crime de lesa pátria correm 107 ações na Justiça, sem solução.

Com a privatização da Vale todo o processo de cuidado e fiscalização mudou e problemas como esse da barragem da Samarco já eram anunciados. FHC nunca preocupou com isso e, no governo Lula, que assumiu em 2003, a fiscalização tampouco foi eficaz. As barragens de rejeito se erguiam e pronto. No caso da de Mariana estava sob os cuidados da Samarco, que é consorciada com a Vale e com a BHP-Broken Hill Proprietary (o nome diz tudo “quebra montanhas”). E o que se anunciava, aconteceu. 

Ainda segundo as professoras da UFMG, por diversas vezes a Samarco foi denunciada sobre obras da barragem, na qual fizeram alterações estruturais. Alterações essas que apontavam tremenda insegurança, pois o levantamento da barragem fora feito fora das normas, e a Vale também passava a usar a estrutura para depositar seus dejetos, aumentando assim o volume de lama. Todos os estudos feitos sobre a obra mostram que ela não era segura. Logo, pode-se dizer que o que aconteceu foi, de fato, um crime.

E o mais terrível em tudo isso é o fato de a cidade de Mariana estar organizando movimento para que a Samarco volte a operar na região, como se o município fosse o que depende da empresa. Na verdade, é Mariana quem deveria dar as cartas no trato com a Samarco visto que é lá que estão as reservas de mais de sete bilhões de minério de ferro.

Emocionadas, as professoras da UFMG alertaram ainda para outro projeto da Vale que está em andamento no estado de Minas Gerais, na Serra da Gandarela, um desses lugares mágicos e ainda protegidos da mata mineira. Segundo elas, a empresa comprou 1.500 hectares da Mata Atlântica, numa localidade chamada de Fazenda Velha, e lá pretende construir uma barragem 10 vezes maior que a do Fundão, dando vida a um extenso mineroduto.

Agora imaginem o que pode acontecer se um acidente como esse acontecer? A barragem do Fundão matou o Rio Doce e levou a lama tóxica até o Espírito Santo. O que aconteceria se uma barragem 10 vezes maior se rompesse? Segundo os estudiosos, um acidente dessas proporções acabaria com Minas Gerais, destruiria as praias do Nordeste, chegaria a foz do Amazonas, indo para o Caribe e a Flórida. Portanto, mais do que nunca é hora de rejeitar o rejeito da Vale e não permitir que mais um espaço de mata e de montanhas se esgote. 

O grito dos pesquisadores não é coisa de alarmistas. É fruto de investigações de anos e anos a fio. Eles são os mesmos que gritavam contra as barragens da Samarco, e olha o que deu. Pois ainda assim, a voracidade do capital não tem limites. Se Bento Rodrigues se acabou, engolida pela lama, que se ocupem outros lugares, e que outras cidades fiquem sob a mira da catástrofe. 

Hoje, em Minas Gerais, desde as salas de aula e de investigação da UFMG, as professoras Angela e Sofia seguirão seu trabalho de arqueologia do desastre, mas fundamentalmente informando aos mineiros e ao Brasil sobre o que pode vir se não pararem com essa destruição.

"Rejeite o rejeito da Vale". Segue a campanha. Os mineiros querem que a Serra da Gandarela vire um parque, protegido da ganância da Vale. Essa campaha já tinha começado antes do golpe que derrubou a presidenta Dilma e agora seguirá com mais força, visto que o governo interino é composto pelos mesmos que entregaram a Vale às mãos privadas.