A necessária revisão histórica: sem o midiólogo João Carlos Guaragna não haveria Campanha da Legalidade em 1961

18 de Setembro de 2019, por Gilberto Felisberto Vasconcellos


O presidente Jânio Quadros manteve relações comerciais com os países socialistas, se aproximou de Cuba, condecorou Che Guevara e fez o pacto de Uruguaiana com o presidente da Argentina Arturo Frondizi. Juntos Argentina e Brasil para pôr fim à rivalidade entre os dois países, rivalidade fomentada pelo imperialismo inglês e norte-americano.

O tratado de Uruguaiana pode ser visto como um prenúncio do Mercosul. 

Os historiadores argentinos e uruguaios assinalam que esse tratado foi concebido por Leonel Brizola quando governador do Rio Grande do Sul. Esse é um fato pouco lembrado na história do Brasil. Em Punta Del Leste, dentre os conferencistas de vários países latino-americanos, estiveram presentes Che Guevara e Leonel Brizola. 

Eu coloquei em meu livro, Depois de Leonel Brizola, uma bela foto dos dois. Leonel Brizola tinha boa relação com Jânio Quadros, inclusive o jornalista Castelo Branco relata que quando da renúncia de Jânio, Leonel Brizola não acreditou nisso. Ele achava que havia sido um golpe obrigando Jânio Quadros a abandonar o poder. Só depois (Jânio saindo de Brasília rumo ao aeroporto de Cumbica), é que Brizola conseguiu falar com o assessor de Jânio Quadros que confirmou a renúncia. 

Leonel Brizola achava que o tratado de Uruguaiana estava na origem dos transtornos de Jânio com o imperialismo norte-americano, pois esse tratado retomava a aliança Vargas/Perón.  Diante desse antecedente histórico, Leonel Brizola pensou que talvez Jânio não tivesse renunciado, mas pressionado pelo imperialismo americano por causa do tratado de Uruguaiana que uniria Argentina e Brasil, e que seria uma maneira de estabelecer a unidade latino-americana. Unidade bolivariana, diria Hugo Chávez. 

Com a renúncia de Jânio Quadros, começou a conspiração entre determinados setores das Forças Armadas. Os três ministros militares começaram a conspirar. João Goulart estava na China de Mao-Tse-Tung. Esses militares colocaram o veto: Jango não poderia tomar posse porque, alçado à presidência da república, iria retomar o nacionalismo getuliano. Os militares alegavam que Jango era comunista e haveria uma conturbação no país se ele viesse a ser presidente da República. 

O veto foi captado em Porto Alegre pelo telegrafista João Carlos Guaragna que comunicou a notícia para Leonel Brizola. O bom e velho Guaragna tinha ouvido arguto porque, guri pobre vendedor de balas e doces no Teatro São Pedro, aprendeu a assoviar óperas de Giuseppe Verdi. 

João Carlos Garagna era adorado por dona Neusa Goulart que lhe ofereceu uma viagem para conhecer a Itália. Meu amigo Beto Almeida, o jornalista da biomassa tropical, precisa tomar ciência dos horrores históricos que Guaragna fala sobre Tancredo Neves durante a Campanha da Legalidade. 

O governador do Rio Grande do Sul tomou a atitude ousada: os militares golpistas querem ferir a constituição porque ela coloca claramente que uma vez o Presidente renunciando, o direito inalienável é o vice tomar posse. Então, dizia o governador, João Goulart vai tomar posse, e para isso nós vamos organizar a população para numa eventual intervenção federal no Rio Grande do Sul. Leonel Brizola no palácio do Piratini distribuiu armas para a população a fim de garantir a posse de João Goulart. Isso tudo graças à mediação midiológica de João Carlos Guaragna que escreveu um grande livro sobre Leonel Brizola em seu exílio no Uruguai.