Nem as cruzes ficam ou Sobre a perda de memória do jornalismo

29 de Outubro de 2020, por Miriam Santini de Abreu


Quem faz pesquisa em jornal certamente tem a preocupação que eu tenho: a proteção dos acervos físicos e digitais. O tema merece uma boa tese. Se já há, desconheço. Por isso, desde que concluí minha tese, defendida no Curso de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ando às voltas com iniciativas que estimulem o cuidado com a memória da produção jornalística. É nessa vereda que caminha o livro “A rebelião do vivido no jornalismo independente de Florianópolis”, produção da revista Pobres & Nojentas e da Letra Editorial, a ser lançada de forma virtual nesta sexta-feira (30/10). É porque sinais da perda de memória são muitos e de diferentes causas. 

Toda vez que os grupos de comunicação alteram os portais de notícias, um conjunto expressivo de notícias e/ou de edições digitalizadas desaparece dos sites. Foi o que ocorreu com os arquivos do extinto ANCapital. Os links, corrompidos, já não levavam aos textos. Com o passar do tempo, até mesmo essas cruzes digitais – os links que remetem ao vazio – desaparecem. Outro tipo de perda é física, caso de parte do acervo do extinto jornal O Estado. 

Para fazer pesquisa nas edições digitais dos jornais em seus respectivos portais, um empecilho é o fato de essa possibilidade ser limitada ao período no qual o processo de oferta iniciou. Ou seja, os grupos não investem na digitalização de todas as suas edições impressas. A saída é buscar no site da Hemeroteca Digital Catarinense, onde o jornal O Estado, por exemplo, está digitalizado de 1915 a 1965.  Mas, a depender da pesquisa, é preciso consultar o acervo físico, disponível na Biblioteca Pública de Santa Catarina, na rua Tenente Silveira, em Florianópolis.

Por isso a importância de trabalhos como o “Catálogo Jornais Catarinenses - 1831-2019”, em dois volumes, um grande inventário dos 1.907 títulos de jornais catarinenses guardados na Biblioteca. O trabalho foi organizado por Helen Moro de Luca, Alzemi Machado e Roseléia Marcelino e pode ser consultado em https://www.cultura.sc.gov.br/.../22770-biblioteca... 

Estão no Catálogo, por exemplo, Bernunça e Daqui, dois jornais impressos cuja história é contada no livro “A rebelião do vivido no jornalismo independente de Florianópolis”. O desafio hoje é manter também o acervo dos novos veículos completamente digitais da mídia independente/alternativa/contra-hegemônica se por algum motivo for interrompido o acesso aos arquivos guardados nas “nuvens” digitais.  

Por isso é imprescindível trazer à luz a história dos veículos independentes em Santa Catarina e manter vivo seu legado. Os veículos tradicionais, hegemônicos, são fartamente estudados, mas os independentes são, de modo geral, ignorados. Pela falta de financiamento, esses veículos têm dificuldade de se manter, mas mesmo os de vida curta trazem experiências tanto de jornalismo (formas de organização, de sustentação financeira, de distribuição, de seleção de pautas) quanto de compreensão da vida da cidade e seus habitantes. 

Nos oito artigos do livro “A rebelião do vivido no jornalismo independente de Florianópolis” há descobertas valiosas, entre elas, por exemplo, a forma como os veículos hegemônicos orquestram campanhas contra os independentes quando a cobertura jornalística neles feita não convém os grupos de poder na cidade e a construção teórica fundamental que move os independentes, como a de soberania comunicacional.

É nessa linha que o livro, apesar de trazer exemplos de Florianópolis, tem interesse para todo e qualquer veículo, jornalista ou comunicador que tenha o compromisso de efetivamente narrar a experiência vivida de uma cidade e seus habitantes e de manter vivo o legado dessas interpretações tão singulares.

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Entrevista realizada pela jornalista Elaine Tavares