O espírito do tempo e o modo de produção

14 de Agosto de 2018, por Dalton Rosado


O espírito do tempo corresponde ao consenso social que estabelece valores comportamentais e conceitos tidos espontaneamente ou coercitivamente como a síntese daquilo que é correto ou incorreto como prática social e se expressa no modo de mediação social e no direito codificado ou consuetudinário. 

Trata-se de conceito diferente daquele do tempo cronológico, linear, contado em segundos, horas, dias, meses, anos, séculos e milênios, servindo, principalmente, para a contagem do tempo de trabalho abstrato necessário para a sobrevivência do trabalhador (trabalho remunerado) e o tempo de trabalho excedente (trabalho não remunerado). Este último viabiliza a mágica da acumulação do capital, riqueza abstrata (valor).

Os homens, vivendo socialmente, agem de acordo com um determinado código comportamental estabelecido pelo modo de produção vigente. 

Os índios que eventualmente ainda existam no interior mais profundo da Amazônia, sem contato com o que se costuma chamar de civilização (termo que por muitos motivos deve ser questionado), têm um padrão de valores e crenças que se coadunam com os modos de produção e saber que dominam para a sua sobrevivência. 

É que o precário domínio do saber obriga-os a uma colaboração coletiva para a obtenção dos incipientes meios de subsistência. 

Ali, tudo que é produzido (cestas de palhas ou outros objetos simples) ou conseguido pela caça, pela pesca rudimentar ou, ainda, pela coleta das frutas amazônicas é dividido coletivamente, pois qualquer hierarquia social tem como pressupostos virtudes humanas e idade, mas nunca representam privilégios de consumo. 

Em desconformidade com uma aldeia indígena amazônica, a cidade de São Paulo tem um ritmo de produção e de vida absolutamente distinto, embora ambas as comunidades estejam sob o mesmo território brasileiro e no mesmo ano do que se convencionou chamar de 2018 da era cristã.

O que se pode concluir desta diferença comportamental entre uma comunidade e outra vivendo sob o mesmo espaço nacional e momento temporal é que o tal espírito do tempo decorre do padrão de possibilidades e consenso coletivo existente em cada comunidade.

Tal consciência coletiva se forma a partir de uma conjuntura de condições intelectuais e funcionais que, por sua vez, é formatada pela apreensão do saber e do modo como esse saber é utilizado socialmente no sentido da forma de provimento (modo de produção) das necessidades de consumo em suas mais variadas ramificações.  

Assim, é o modo de produção estabelecido aquilo que determina o caráter das sociedades; e cada espírito do tempo estabelecido se constitui, também, numa construção social histórica, não ontológica e, por isto, em constante mutação.

P. ex., durante o feudalismo a faina rural dos feudos era a forma de produção social predominante; foi o que criou a aristocracia rural dos donos das terras no âmbito econômico e o poder monárquico clerical no âmbito político, defendido pelos fisiocratas. 

Do mesmo modo, o crescente modo de produção industrial manufatureira foi aquilo que criou a consciência social do capital a partir do desenvolvimento e expansão geopolítica da forma-valor (dinheiro e mercadorias) e seu suporte institucional, o Estado nacional burguês (capitalista).

Foi na esteira desse acontecimento histórico que ocorreu a derrubada da monarquia absolutista (embora se aceitem, hoje, as figuras caricatas das monarquias constitucionais burguesas, nas quais os reis reinam mas não governam), defendida pelos mercantilistas.     

Sob a ordem burguesa, tal consciência social é, por sua vez, um conjunto de valores socialmente admitidos por fatores como ordem jurídica, força de coerção institucional e, principalmente, pela coerção tácita de um modo de produção social que é introjetado pelos indivíduos sociais que o fazem e praticam.

Trata-se de uma consciência social (modo social estabelecido) imposta aos indivíduos sociais inconscientes e que, assim, forma um consenso social que os subjuga; portanto. uma consciência social  inconsciente, tanto do ponto de vista individual como coletivo.

A consciência da sociedade atual, ou o seu espírito do tempo, é inconsciente de si mesma.

Como disse Marx n'A ideologia alemã, as idéias dominantes são, em todas as épocas, as idéias da classe dominante; ou seja, a classe que se constitui na força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força espiritual dominante. 

Mas, também segundo Marx, essa classe dominante sob a égide do capital, ainda que tenha a força do poder econômico e político, é ela mesma dominada por uma lógica por ela criada, mas que se tornou maior do que sua criadora; e tal lógica conspira, contraditoriamente, contra essa mesma classe dominante.

Este comportamento autofágico corresponde ao paralelo metafórico do ente mitológico grego ouroboros, representado por uma serpente que devora a própria causa.

A consciência social atual (consenso social coercitivo, ainda que tácito) é inconsciente de si mesma, sendo estabelecida a partir de um modo de mediação social e ecologicamente predatório, o qual, por sua vez, foi facultado pela coerção da subjugação histórica escravista de humanos contra humanos.

Tal processo evolutivo (melhor seria o chamarmos de socialmente involutivo, tanto do ponto de vista moral como, em muitos aspectos, do material) formata, hoje, um espírito do tempo condicionado pelas contradições internas do consenso social irracional que, agora, atinge o seu limite existencial, denunciando a sua ideologia.