O Haiti e o golpe ainda em curso

7 de Abril de 2016, por Elaine Tavares

Platéia ávida por informação de qualidade
Platéia ávida por informação de qualidade

Todas as fotos são de Marino Mondek

A aula magna do IELA trouxe a vivência do professor Ricardo Seitenfus, que vivenciou por dentro das estruturas governamentais todo o processo de exploração a que foi submetido o Haiti, depois do golpe que tirou do poder o presidente Jean Bertrand-Aristide. Sequestrado e tirado para fora do país, com o argumento mentiroso de que o estavam salvando, o presidente democraticamente eleito do Haiti entrou para a lista dos governantes sacados do poder sob a força dos grandes conglomerados internacionais. Mais um golpe articulado desde Washington.       

A partir da geração do caos, que como bem lembra a jornalista Naomi Klein é a prática da instalação do desastre para que os ricos possam ganhar cada vez mais, o Haiti foi também invadido pelas tropas da ONU no que foi chamado de “missão de paz”. Nada poderia ser menos real. A chegada dos soldados só piorou a vida já tremendamente frágil do povo haitiano.

Participando do processo como representante da OEA, Ricardo Seitenfus  passou de um crédulo e bem intencionado professor – que pretendia colaborar com a construção da paz – a um crítico sistemático e contumaz da invasão do Haiti. Viveu experiências extraordinárias no Haiti, viu a realidade com os próprios olhos, conheceu as entranhas das negociatas e não se calou.

Ele poderia voltar, escrever um livro ritualístico e seguir desfrutando das benesses que giram em torno de quem defende o estado das coisas como estão. Mas, não. Ele preferiu seguir sua consciência. Falou o que tinha de ser dito aos governantes, aos que ainda estão no Haiti decidindo sobre a vida de toda a gente, aos empresários e aos ladrões. Bradou em bom som que o que estava sendo feito no Haiti era um golpe contra a democracia, contra o povo haitiano. E todo o caos que ainda envolve aquela pequena extensão de terra – cheia de uma gente valente – é um crime de lesa humanidade.

Depois, de volta ao Brasil escreveu um livro, no qual conta tudo o que viu e todo o terror  que é a construção do desastre haitiano desde 2004. Um livro indigesto. Um livro difícil. Um livro duro de ser lido até o fim. Porque é um livro que grita, com provas documentais, o que uma pequena fatia da esquerda latino-americana vem dizendo desde o sequestro de Aristide: O Haiti é um crime a céu aberto, promovido pelos Estados Unidos e pelas grandes corporações, apoiado pelos exércitos latino-americanos. 

Naqueles dias, apenas o grande Hugo Chávez e Fidel Castro, lideranças mundiais, acompanhavam esse discurso e denunciavam. Mas, suas vozes foram abafadas pela algaravia de “solidariedade ao Haiti”. Seitenfus mostra os dados dessa “solidariedade”, números, informações governamentais, documentos. 

Foi uma noite difícil, porque ouvir a verdade nunca é fácil. Mas foi uma noite necessária. Quem veio saiu melhor informado e capaz de observar a realidade do Haiti a partir de outros olhares. E quem já sabia de tudo isso saiu ainda mais indignado e disposto a lutar para que o país da primeira revolução de escravos vitoriosa, possa encontrar seu caminho, sem a mão criminosa dos que hoje o aprisionam.  

A aula magna do IELA inaugurou essa nova prática do Instituto que é a de começar o ano sempre com um tema explosivo, capaz de sacudir as estruturas carcomidas da academia.

A filmagem da palestra será divulgada em breve, bem como a entrevista exclusiva dada ao Iela.