O menino que vê o mundo

26 de Junho de 2019, por Elaine Tavares

Capa: Frank Maia
Capa: Frank Maia

O professor Waldir Rampinelli, do IELA, lança mais um livro no dia 28 de junho, no Museu Histórico de Santa Catarina, Palácio Cruz e Sousa, às 19h. Nesse trabalho ele mistura a história e a ficção para dar vida a um rico mosaico do cotidiano numa pequena cidade de imigrantes italianos. Conta  ainda com a parceira de Frank Maia, que assina as belíssimas ilustrações, bem como a capa do livro. A editora é a Insular, de Florianópolis. 

O livro é eivado de belezas e assombramentos. Uma cidade e um povo inteiro vistos pelos olhos de um menino, na sua pureza e nas suas perplexidades. O cenário é um lugar qualquer, desses que foram sendo construídos no Brasil a partir das mãos imigrantes, e as histórias poderiam ser as histórias de qualquer lugar, nas mesmas condições. É um relato singular, fruto das memórias do gurizinho que, ávido, perscrutava a vida, procurando entender a realidade que o cercava. Mas, apesar de expor as lembranças de um menino particular, o relato nos toca de maneira universal, porque está repleto da dura, espantosa e, por vezes, bela humanidade. Por isso, a história do garotinho nos arrebata. Porque ela pode ser também a nossa história.

Caminhando pelo texto vamos encontrar a avó amorosa, a bucólica vida no campo, as funções da igreja, o pai trabalhador, o comércio, a mãe sem ternura, a realidade sem tintas de uma comunidade que se encrava num país estrangeiro e que se nega a uma abertura amorosa para o diferente. O retrato em preto e branco de um lugar onde o racismo se expressa sem medo e o preconceito contra o que não se entende cresce. Impossível não se assombrar com a indiferença no trato com os “brasileiros” ou a exclusão de uma mulher que, roubada pelos índios, volta para a casa tempos depois e é deixada no canto, punida por ter sido um dia sequestrada.  

A Nova Belluno - cidade onde se passa a história - que espanta o menino do texto é a nossa própria cidade, nossa aldeia. Aquela que finca raízes em nós e que de alguma forma nos determina. Por isso, o ato de deixá-la é necessário para nossa própria libertação. O guri que sobe no trem, com uma pequena mala, rumo ao não-sabido, somos todos nós, tentando encontrar nosso lugar no mundo. E, como ele, caminhamos, esperando mudanças para, no final da jornada, ainda voltarmos ao mesmo lugar que nos pariu. Só que desta vez, não mais com assombramento, e sim com a consciência crítica.