O nacionalismo do esfacelamento da nação ou a nação do esfacelamento do nacionalismo?

28 de Março de 2018, por Raphael Lobo Duarte Batista Teixeira

 

O nacionalismo revolucionário defende as riquezas da população.
O nacionalismo revolucionário defende as riquezas da população.

Se tudo se confirmar, no dia 7 de Outubro de 2018 haverá eleições para a presidência do Brasil. De saída, ressaltamos a premissa de que o Golpe perpetrado neste país não será encerrado com uma nova eleição e a escolha de um novo governo “eleito”. Gilberto Vasconcelos, ainda em 1989, em plena euforia da redemocratização, já nos chamava a atenção para a falácia do voto popular universal como único critério de definição de democracia – a essência de 2015 não está na mera interrupção do processo democrático.

Desta maneira, cabe frisar que a dicotomia superficial e abstrata entre autoritarismo e democratização – prolixa nas universidades brasileiras – já não dá conta da totalidade histórica; democracia em pátria sem patrimônio só existe nos objetivos de desenvolvimento do milênio do Banco Mundial, ou seja, apenas na esfera da fantasia.

Tanto Brizola quanto Gilberto Felisberto afirmam que a razão mística é mais importante do que a razão política para que o poder seja alcançado, se isso for verdade, a razão mística de nosso artista principal – Jair Messias Bolsonaro – é o nacionalismo.  Importante pontuar aqui a estupidez da esquerda ao negar e desprezar esse elemento sagrado, deixando-o sobe total monopólio – da direita - de mãos sorrateiras; e em último tempo, até celebridades como Alexandre Frota e pastores neo-pentecostais argentos andaram bicando o alpiste do despertar das massas.

Contudo, nem sempre assim: o “nojinho” da esquerda brasileira pela “questão nacional” é um fenômeno pós-64. Vale lembrar que um dos maiores marxistas latino-americanos – Nelson Werneck Sodré – foi General do Exército Brasileiro e autor de “Introdução à revolução brasileira”, lançada ainda em 1958.

Mas voltemos para o nosso protagonista, que se apresenta como “O Salvador da Pátria”, mas não é o Caudillo - longe de ser um – e elaboremos o nosso problema: quem é Jair Bolsonaro na América Latina? Na verdade, temos que refazer a pergunta: quem o Jair não é na Pátria Grande? Dos nacionalismos históricos latino-americanos, certamente ele não é Simón Bolívar; nem José Gervasio Artigas; também não é um Gaspar Rodríguez de Francia; tampouco José de San Mantín; Mariano Moreno e Miguel Hidalgo. Talvez a geneticidade do “mito” brasileiro contemporâneo se encontre no nacionalista estadunidense de James Monroe e o seu slogam de 1823, mas aí já não vem ao caso, já é outra América e, até onde nos conste, Bolsonaro não é norte-americano.

Pois bem, é impossível dizer – de forma concreta - quem é Jair Bolsonaro no Brasil colonial e neo-colonial, pois o paulista e vereador pelo Rio é um  fenômeno de classes médias ressentidas, e classe média no Brasil só a partir do século XX.  O mitômano messiânico pós-pato da FIESP é invólucro na bandeira nacional e no nacionalismo. 

O patriotismo pacóvio é o que move esta averiguação - não podemos cair no erro crasso, de confundir essência com aparência - e nisso consiste o objetivo central deste artigo: desmistificar e denunciar o nacionalismo picareta.  

Nossa metodologia parte em considerar as relações de produção econômica, o elemento fundamental na interpretação da sociedade brasileira; ainda assim, convém acrescentar o elemento estético da imagem midiática televisiva para decifrar o supercandidato a presidente.
Segundo Gilberto Felisberto, num país de tradição e formação oral, semi-ágrafo, é imperdoável desconsiderar o aparato da mídia televisiva como agente socializador e organizador da cultura, a estética da telenovela, a publicidade dos Bancos e das multinacionais interfere realidade mais do que mil disciplinas universitárias sobre o golpe.

O que aparece no boca a boca, a transmissão oral, o boato que circula entre o povo, “o popular“, quase sempre tem sua gênese na linguagem estética da TV.

Contudo, Bolsonaro é um caso sui generis, o princípio de seu esplendor não se encontra na telenovela, mas sim no cinema. Por ironia do destino, é do cinema que surge a nova cara dos anti-pátria. O que Glauber Rocha falaria das câmeras “velozes” e “agressivas” de José Padilha? 

Quer queira ou não, a verdade é que o alter-ego dos bolsominions está na contemplação do capitão do BOPE, em Outubro, serão milhões de Capitão Nascimento indo votar com a “faca na caveira”.
A sociedade horizontal civil organizada – que se fortaleceu depois de 1989 - indignou-se com as reivindicações populistas das jornadas de junho de 2013, se unindo espontaneamente de forma democrática, formando o “MBL”; o “Vem pra Rua”; o “Revoltados OnLine”, etc., se empoderou com as Think Tank Made in USA e está bem próxima do “belo dia” - data em que a classe média patológica finalmente se libertará da tutela do Estado.

Destaca-se que nesse artigo não vamos entrar na baderna conceitual em volta do populismo, haja vista que desprezamos essa tipologia; uma ideia que consegue embarcar Leonel Brizola, Donald Trump, Margaret Thatcher, Josef Stalin e João Doria no mesma jangada não é digna de credibilidade; uma coisa que ser serve para denominar tudo não serve para conceituar nada. Aliás, se tem alguma coisa em comum entre o nacionalismo do Bolsonaro e a teoria do populismo é que ambos são uma fraude. 

Saindo do levante da mediocracia, observamos que dentro do espectro da própria direita este personagem é uma achincalhação, Roberto Campos e o Diplomata José Guilherme Merquior eram aristocratas demais para embarcar na enxurrada de asneiras e idiotices pronunciadas pelo “Alborghetti” das eleições 2018.

O fascista clássico tupiniquim - Plínio Salgado – sentiria asco ao vê-lo bater continência à bandeira Estadunidense, sentimento não tão distinto sentiria Nelson Rodrigues ao observar o deslumbramento meteco de Bolsonaro pela Flórida, Israel, e por Donald Trump, que segundo o pré-candidato a presidente é “um grande aliado no hemisfério sul” [sic]. 

Na realidade, Jair Messias é a degeneração pornográfica de uma simbiose orgânica entre Golbery do Couto e Silva, Carlos Lacerda e Castelo Branco - é a “periferização por dentro”, para citar Bautista Vidal - lembrando que Golbery em 1957 escreveu “Aspectos geopolíticos do Brasil”, essa pérola do cosmopolitismo colonizado (para não dizer Cipaio) na qual advoga que devido a sua posição geográfica, o Brasil não pode escapar à influencia estadunidense, restando como única alternativa inteligente o desenvolvimento dependente e associado _ para citar outra pérola, esta cunhada em 1969 pelo príncipe das privatizações -, isto é, ser protetora da burguesia Yankee.
Bolsonaro atualizará Golbery em sua linguagem da resignação - a “barganha leal” já não é mais moderna - ele irá por em prática o “entreguismo total”, já que o nosso ator reúne as credenciais para tornar-se um grande Jorge Rafael Videla (Argentina, 1976) em razão de congregar moralismo, conservadorismo político e liberalismo econômico - será o nosso Pinochet pós-moderno. 

Nesse quesito – economia - ele é mais nacionalista que o Chileno Pinochet, trouxe Milton Friedman de Chicago, o mito foi buscar as luzes na Casa das Garças no Rio de Janeiro, lugar onde o “fetiche da indústria” é uma doença arcaica e caipira: Menos Friedman, mais Gustavo Franco! O “nosso” candidato é tão nacional quanto um comercial da Volkswagen. 

Nosso General – Nelson Werneck Sodré -, refletindo sobre o fracasso do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB, comenta que a burguesia brasileira se interessou tardiamente pela indústria e precocemente pelo capital financeiro – é difícil convencer quem nasceu com sorte. A “sorte” do rentismo afetou – e segue lesionando - a vida do país, seja em 1954 (suicídio de Vargas), 1964 (golpe civil-miliar-empresarial) e 1994 (plano real), - poucas são as pessoas que consideram essas datas acontecimentos trágicos.

Esse último é o responsável imediato do cenário político contemporâneo, o prestigiado tripé câmbio flutuante, metas de inflação e meta de superávit fiscal, com o embuste de promover “estabilidade monetária” e uma “moeda forte”, na prática viabiliza a internacionalização dos patrimônios naturais, minerais, energéticos, estratégicos do país, além da intensa desindustrialização, new-plantations (agroindústria) que importa 40% dos insumos e maquinário; causador de situações ultrajantes como a importação de arroz e feijão. As tão famosas “perdas internacionais” eternizadas por Leonel Brizola se exacerbaram no Brasil moderno do plano real.

Nunca a frase de Darcy Ribeiro fez tanto sentido: “doentes doemos em dólares”; - o estrangulador das contas do Brasil com o estrangeiro e mistificador da sociedade brasileira. 

A fábula do “Real forte” colaborou com a formação de uma classe média desprovida de soberania nacional, globalizada, onde nada que é nacional serve: Estado eficiente é Estado sem patrimônio. 
Bolsonaro se põe como candidato do capital-imperialismo – foi estrela, e aplaudido de pé, em um evento de elite do mercado financeiro, realizado no dia 06/03/2018 - conquistando banqueiros e investidores; a classe média; os fazendeiros e as igrejas.

A ocorrência de esse deputado alcançar tamanha notoriedade já é um angustiante sinal de que a sociedade brasileira está gravemente adoentada. 

Se por acaso ele ganhar as eleições, o cenário, provavelmente, não será o Estado de contra–insurgência descrito por Ruy Mauro Marini em 1978, mas sim o da Ucrânia de hoje, onde grupos fascistas conseguiram transformar um conflito sobre política econômica e relações exteriores numa luta genocida; em que milícias armadas tomaram as ruas e algumas funções do Estado, balcanizando o território, rastreando e perseguindo os vistos como “indesejáveis” no campo ideológico.

A culpa obviamente não é do povo, o núcleo de decisão da vida brasileira está longe do voto popular-universal. O que fazer? É o que pergunta José Walter Bautista Vital no seu livro “O esfacelamento da nação” escrito em 1995. 

Segundo o engenheiro e físico brasileiro, resta-nos congregar todos os brasileiros que tenham compromisso sagrado com a pátria, civis e militares, de todos os todos os recantos deste solo continental que é o nosso e dar um basta aos sugadores da renda nacional, redimindo nosso sofrido povo com a implantação de um Estado justo, poderoso e solidário. 

O autêntico nacionalismo brasileiro é defensivo, se dá no contexto de uma nação dependente e subdesenvolvida. Tem como baluartes: Sílvio Romero, Luís da Câmara Cascudo, Monteiro Lobato, Nelson Werneck Sodré, Darcy Ribeiro, Glauber Rocha e Gilberto Felisberto Vasconcelos, pensadores que crêem em uma missão histórica a ser realizada pelo Brasil, - não é xenófobo, reflexo e/ou regressivo, se assim for, então é fraude, farsa, falsificação.

Em “Introdução à Revolução Brasileira”, Nelson Werneck admitia dois pontos como fundamento mínimo da Revolução Brasileira: manutenção e ampliação do regime democrático e solução nacionalista dos problemas de exploração econômica de nossas riquezas. Hoje, após as ruínas do pós-real, esse mínimo, igualmente, está de pé.

Referências

VASCONCELLOS, Gilberto Felisberto. As ruínas do pós-real. Espaço e Tempo, 1999.
VASCONCELOS, Gilberto Felisberto. Brazil no prego. Revan, 2004.
VASCONCELOS, Gilberto Felisberto. Collor: a cocaína dos pobres: a nova cara da direita. Icone Editora, 1989.
VASCONCELOS, Gilberto Felisberto. O príncipe da moeda. Espaço e Tempo, 1997.
VIDAL, José Walter Bautista. O esfacelamento da nação. Vozes, 1995.