O pesadelo Bolsonaro e o ódio ao seio da Mãe Gentil

28 de Setembro de 2018, por Gilberto Felisberto Vasconcellos

 


O professor Nildo Ouriques ousou ao escrever um artigo intitulado Reflexão sobre a Ameaça Fascista: O Segredo de Bolsonaro. Nele bagunçou o senso comum acadêmico que, sem entender o conceito de fascismo, acaba usando-o a torto e a direito. Ainda que não tivesse escarafunchado em que consiste o enigma irracionalista desse personagem tosco, medíocre, desprovido de carisma e charme, que atingiu espantosa notoriedade nos últimos seis meses. Parece um produto fugaz da mídia, uma canção do Teló de efeito efêmero, todavia é uma opção de poder que envolve o povo e o país. 

O professor adverte: não exagerem a ameaça do fascismo na sociedade brasileira. Talvez o tema de maior complexidade social e política no século XX tenha sido o fascismo, junto com o stalinismo que, embora não sejam simétricos, mantêm entre si determinadas correspondências, conforme mostrou em suas análises pioneiras o bolchevique Leon Trotsky. 

Nildo Ouriques brinca dizendo que não é toda segunda-feira que temos fascismo. Cuidado com as palavras. Qualificar de fascista qualquer coisa é perigoso e não esclarece a realidade. Grossura, arbitrariedade, atentado à liberdade, censura, violência - isso por si mesmo não caracteriza o fenômeno do fascismo. 

A boçalidade sub-cultural da sociedade de massa no capitalismo videofinanceiro abriga com certeza determinados traços fascistóides. Todavia, do ponto de vista político, para existir fascismo é preciso que haja uma ofensiva da classe operária organizada tendo por horizonte a revolução socialista. Trotsky dizia que o fascismo tinha por objetivo destruir as organizações operárias. A vitória de Hitler foi preparada pela política stalinista do Kremlin, ainda que não se deva confundir fascismo com stalinismo. 

O contrário do fascismo não é o socialismo, pois o primeiro é o oposto à democracia liberal burguesa, ou seja, o fascismo é a supressão das liberdades burguesas. O fascismo é uma arma que a burguesia pode lançar mão para erradicar os valores da democracia liberal. Isso é o fascismo clássico que medrou na Alemanha e na Itália durante a década de 30. Os países fascistas, Alemanha e Itália, como reparou Trotsky, eram sequiosos de colônias no Terceiro Mundo. Daí o seu expansionismo, ao contrário do imperialismo democrático da Inglaterra e França, que não foram expansionistas porque tinham colônias. 

A reflexão de Trotsky foi retomada na década de 40 por Ernest Mandel na Bélgica e Jorge Abelardo Ramos na Argentina e, recentemente, por Samir Amin e John Bellamy Foster. Não se esqueçam do livro Fascismo ou Socialismo de Theotônio dos Santos na década de 70, quando o continente latino-americano estava sob uma ditadura milico-civil-multinacional. 

A análise clássica de Trotsky foi feita em Prinkipo, Turquia, quando de seu exílio da União Soviética, distante do palco dos acontecimentos fascistas na Europa, como assinalou Ernest Mandel para realçar o seguinte aspecto: para existir fascismo é preciso que haja uma pequena burguesia enlouquecida. É célebre a frase de Trotsky, mais ou menos assim, nem todo pequeno burguês se transforma em Hitler, mas há um Hitler em todo pequeno burguês enlouquecido. O temor do pequeno burguês em época de crise econômica se traduz no pânico de se ver rebaixado à condição operária ou sub-proletária. Não vamos abusar da analogia, mas já se observou que a lulofobia decorre do fato da classe média não ter sido alavancada pelos governos petistas durante 2005 e 2012. 

Há que realçar que o fascismo serve aos interesses da burguesia financeira e não aos da pequena burguesia. Não resolve grande coisa apelar para a palavra “autoritarismo”, que foi usada de maneira astuciosa pelos sociólogos tucanos para ocultarem os interesses econômicos e de classe. O tucanismo supostamente democrático entrou no enredo de acionar “o golpe legal” contra Dilma Rousseff a partir da contestação arbitrária do resultado eleitoral empreendida pelo senhor Aécio Neves, o ponto inicial da chanchada sinistra de Jair Bolsonaro. 

A ponte Michel Temer foi construída para privatizar a Petrobras e a geral, preparando o retorno dos tucanos ao poder, seja um Alckmin ou um Dória. A Lava-Jato de Harvard teria de colocar Lula no xilindró para ser esquecido e morto politicamente com o auxílio da Rede Globo e TV Bandeirante. A lente de aumento incidindo na corrupção do governo petista tinha por objetivo impulsionar as manifestações da classe média nas ruas.

O problema é que nessa orquestração, que inclui a demonização da Venezuela e do bolivarianismo de Chávez e Maduro, surgiu o personagem Bolsonaro que não estava nos cálculos e previsões do tucanato. Isso não quer dizer que haja incompatibilidade substancial entre este e aquele. Na verdade há em cada tucano um Bolsonaro latente, mas este personagem não estava na prateleira do PSDB. Ele surgiu de maneira súbita e inesperada, quase como um raio em um céu azul, e está sendo agora um candidato da classe dominante, referendado pela burguesia bandeirante, o latifúndio, os setores financeiros internacionais e os proprietários dos meios de comunicação de massa, sem deixar de mencionar o patriciado jurídico e os altos escalões da igreja. O economista de Jair Bolsonaro é um cidadão badameco chamado Paulo Guedes, um Chicago boy que fez a cabeça genocida no Chile contra Salvador Allende, uma reduplicação intelectualmente piorada do entreguista Roberto Campos.

Recordo-me do cineasta Pier Paolo Pasolini que desde 1942 refletiu sobre o fascismo na Itália de Mussolini, a mistura de maldade com estupidez para salvar o capitalismo. Distinguiu o fascismo psicológico do fascismo histórico. Opressão dos ricos. O fascismo encarado como uma reserva mental da burguesia italiana. Ele sempre se valeu da palavra cléricofascista, a aliança do Estado com a Igreja. 
A raiva analítica, como Pasolini dizia, semelhante à atitude incisiva e peremptória de Nildo Ouriques avessa ao bom mocismo dos candidatos de esquerda, deve ser usada para diagnosticar e se opor à barbárie na sociedade brasileira. Ainda que Bolsonaro não venha a ser Presidente da República, o fato de ter ele alcançado tamanha nomeada já é sinal de uma patologia social e cultural coletiva. 

Haja capitalismo invariavelmente haverá o germe do fascismo. A interação contraditória entre democracia liberal e fascismo não deve supor que este será suprimido definitivamente pelos democratas liberais. Somente o socialismo pode eliminar de vez o perigo do fascismo. 

Há cor local diferente no fascismo conforme sua latitude. Na Itália deu força para o legislativo em detrimento do judiciário, mas em outros contextos pode acontecer o contrário, por exemplo: por que entre nós não poderá acontecer uma hipertrofia do judiciário? 

Como já foi mencionado, o impiti, o Lava-Jato, a panelada na rua, a infernalização da Venezuela - tudo isso sem dúvida gerou a cruzada boçal de Bolsonaro. A prisão do Lula tinha por escopo matar o PT, porém isso não aconteceu. O afável tratamento do judiciário dado aos demais políticos processados ensejou a martirização do líder metalúrgico que indicou o seu candidato para substituí-lo. Parece ter dado certo a fusão de Lula com Haddad, de modo que a ciência política da Rede Globo foi por água abaixo. Isso se percebe no desespero de seus jornalistas jabaculizados entrevistando com pedras na mão Fernando Haddad. O close televisivo no triplex Guarujá, por mais que tivesse sido repetido milhares de vezes, não surtiu efeito. 

Há que realçar, não obstante as qualidades intelectuais de Fernando Haddad, que não há abismo entre ele e a burguesia culta do tucanato. Infortúnio histórico seria o PT chegar de novo ao poder e passar a mão na cabeça dos inimigos do povo brasileiro, como fizeram Lula e Dilma. O PT fofinho. O PT comovido com a Avenida Paulista e a favela do Capão. O PT que acredita ter superado a contradição entre capitalista e trabalhador assalariado. A tarefa histórica a que foi incumbido Fernando Haddad é de cortar o câncer Bolsonaro. 

Trotsky comparou a liderança fascista ao gangster Al Capone. Tal qual Bolsonaro, Mussolini e Hitler ganharam fama sem terem feito nada de extraordinário. Hitler exibia traços de monomania e de messianismo, “ideologia epiléptica”, enquanto Mussolini era uma fanfarronada cínica e egoísta. Como explicar o êxito dessas duas figuras? Esse é um assunto sempre recorrente na teoria política do século XX. 

Eu não estou convencido que a epilepsia gestual do Hitler possa ser aplicada à performance falsária de Bolsonaro porque este, pusilânime e hedonista, carece da energia necessária de líder fascista. Dificilmente ele terá a audácia da atitude ascético-sacrificial da personalidade básica do fascismo.   
Pasolini em seu livro Empirismo Herético sublinhou que a sociedade interclassista de massa permite juntar o manager com o proleta. Não se admire que Jair Bolsonaro seja curtido como herói em Wall Street e na Ilha da Maré. Nem chorar nem rir, aconselhava Karl Marx citando Baruch Espinoza, mas compreender. A ofensiva reacionária é mundial. Já foi dito que o ocaso do capitalismo vai ser mais doloroso do que foi o seu início. 

O pai do Trump era da Ku Klux Klan. O guri foi mimado vendo o linchamento de negros. O seu guru é o Henry Kissinger que bombardeou o Camboja e sabotou o Pró-Álcool de J. W. Bautista Vidal. O João Dória é o Trumpinho paulista querendo imitar o Trampão. Foi o prefeito “CEO”. O bilionarismo é um tesão cultuado em São Paulo. O povo precisa ser governado por gente nababo. A plutocracia exibicionista. Isso começou com a coluna Joyce Pascowitch no jornal A Folha de São Paulo. Exiba o seu carrão e o seu jatinho. Não esconda o seu consumo conspícuo. Essa burguesia exibicionista não terá nenhum prurido de escancarar o seu papel na derrubada de João Goulart. Viva o golpe de 64. É isso o que se ouve nos salões da Fiesp. Essa é a palavra de ordem da burguesia bandeirante que se espraiou pela Rede Globo e pelos cursos de pós-graduação nas universidades. 

Não seria descabido afirmar que foi dessa superestrutura política que surgiu o caubói Bolsonaro, mas não podemos nos ater a essa esfera da realidade para explicá-lo. Temos que investigar à Wilhelm Reich e com a psicologia de massa da personalidade autoritária estudada por Theodor Adorno. Bolsonaro deve ser explicado do ponto de vista psicológico com o seu caráter sádico-anal. A misoginia coloca em primeiro plano a obsessão neurótica com o encontro exclusivo do pênis / ânus e o sequestro do órgão sexual feminino.

Atreveria dizer que o Bolsonaro expressa um sentimento terrível que está se configurando na sociedade brasileira: o repúdio do homem brasileiro ao seio da mãe. E mais: a raiva contra a mãe que reverbera na raiva contra a mulher em geral. Isso é um escândalo porque até agora a mãe segurou a sobrevivência da família do brasileiro pobre, e não apenas com o leite de seu seio. É preciso fazer uma análise da caracterologia neurótica de Bolsonaro como um epifenômeno sócio-cultural da situação existencial do homem brasileiro. A recusa do seio da mãe não está desconectada do hábito da Coca-Cola, da macdonização do paladar e do adubo cancerígeno da Monsanto. 

Bolsonaro não deixa de ser um fenômeno culinário, um acontecimento gástrico. Não estou aqui a fim de psicologizar esse desastre civilizacional. O problema não está em Bolsonaro, e sim nas coisas que geraram esse tipo de personagem. A sociedade brasileira está doente, cada vez mais miserável e assolada por um rentismo que corrói o corpo e a alma. Bolsonaro começa por um bonapartismo de baixo nível e já tem apoio da alta burguesia paulista e dos estamentos multinacionais. Não é a toa que os jornalistas venais estão botando Bolsonaro no colo, chamando-o de queridinho e de homem providencial. 

O rentismo está consubstanciado na finança de Edir Macedo que o apóia por ser antiecológico. Alérgico à natureza, o pastor gosta é de dólar. Edir Macedo é o nosso Murdoch, que atua afinado com Medina, o empresário que trouxe a Aids para o Brasil com o Rock in Rio. Isso revela que Bolsonaro tem o seu lado pop. O empresário de marketing e publicidade, Medina, cuida da campanha de Bolsonaro, e Medina é comensal da Rede Globo, então conclui-se que não há antítese entre Edir Macedo, o proprietário da Record, e a Marinho family; o que existe é uma espécie de ultraimperialismo midiático, ou seja, a fusão de rentistas na classe dominante.

Edir Macedo gosta de sublinhar o caráter sanguinário e bélico da Bíblia. Jair & Edir seria a chapa evangelical gun ideal, e não um general de vice que pinta o cabelo. A filantropia de Rockfeller queria a matança de todos os pobres. Os pobres são responsáveis pela pobreza. Bolsonaro é aliança gospel videofinanceira armada com os brinquedinhos de Israel. Quanto mais miséria, mais igrejas. A expansão evangélica corresponde ao caráter rentista e especulativo do capitalismo monopolista. Todo fundador de Igreja, seja qual for, revive o São Paulo gestor, burocrata e empreendedor.

E no embate Bolsonaro versus Haddad a Igreja católica vai tirar férias?

Em 1968 Gustavo Gutiérrez escreveu a Teologia da Libertação que teve enorme repercussão nos meios católicos da América Latina. Em Roma o Vaticano não gostou da “opção pelos pobres” denunciando a desigualdade social. 

Há quem diga que o papa Francisco esteja retomando a teologia da libertação para enfrentar a ascensão evangélico-protestante no continente latino-americano, cuja expressão máxima é o Bishop Macedo, o rival, o adversário, o concorrente da igreja católica.

O Vaticano sabe que Edir Macedo não é Lutero, mas preocupa-se com a sua audiência, que no fundo é política. Edir não se apresenta como protetor dos despossuídos. Não é o Messias que vai nos livrar de todos os males. No país da conciliação de contrários poderá haver uma “entende cordiale” de católicos e evangélicos, Edir, Globo e Record.

A disputa Bolsonaro Haddad traz o fantasma de Edir Macedo como o Czar que poderia unir todas as facções evangélicas. O Templo de Salomão é uma escada kitsch para alcançar o Palácio da Alvorada com Jair Bolsonaro. A diferença é que Edir Macedo é pós-moderno, não se preocupa com os comunistas nem com o materialismo histórico. Isso não atrai o povo de Deus. O papa Francisco sabe que o catolicismo poderá não sobreviver na América Latina se a Igreja abandonar o pobre, deixando-o votar em Jair Bolsonaro.