O que diria Theotônio dos Santos ao movimento antifascista?

2 de Julho de 2020, por Itamá do Nascimento


O que Theotônio dos Santos, um mineiro de Carangola que faleceu no Rio de Janeiro em 2018, teria a dizer para o movimento antifascista? O termo fascismo cresceu de uso nos últimos anos. O processo político que deu força a Jair Bolsonaro, culminando em sua vitória eleitoral, foi o principal motivo desta popularização. De antemão, é importante deixar claro que o crescente uso do termo gerou como consequência sua vulgarização por parte de setores da esquerda. Por outro lado, o bolsonarismo (entendido aqui como um fenômeno político organizado e com um conjunto de ideias estabelecidas) carrega consigo elementos fascistas, mas se definindo como uma expressão limitada do fascismo dependente e não do fascismo clássico que vimos durante o século XX, na Itália.

Utilizo a palavra “limitada” para designar o bolsonarismo porque, diferente dos regimes militares que infestaram o continente latino-americano entre os anos de 1960 a 1980; Bolsonaro e suas hordas não conseguem (pelo menos ainda) furar à constitucionalidade burguesa, instalando sobre ela uma ditadura declarada com base na doutrina de segurança nacional. As tentativas existem, mas o anseio é logo reprimido por outros setores da classe dominante que parecem desejar a manutenção da democracia burguesa; tendo em vista que não existe uma alternativa política à esquerda (como tínhamos em 1964) que venha a colocar em risco o establishment. É por isso que o bolsonarismo movimenta ruas e redes sociais, mas não consegue colocar em prática seu projeto golpista e autoritário de poder.

Mas, afinal, o que diria Theotônio? Ele diria que a ascensão do Bolsonaro, assim como das ditaduras militares do cone sul, fez parte de um contexto internacional que se fundamentou na direitização de partidos e movimentos tanto na América Latina quanto em outras regiões do globo. Essa direitização a nível mundial, pode ser vista em exemplos como: vitória eleitoral de Narendra Modi na Índia, 2014; vitória eleitoral de Mauricio Macri na Argentina, 2015; vitória eleitoral de Donald Trump nos EUA, 2017; vitória eleitoral de Sebastián Piñera no Chile, 2018; vitória eleitoral de Boris Johnson na Inglaterra, 2019 etc. A essas vitórias eleitorais se somam o crescimento orgânico da extrema-direita europeia, causada em resposta ao aumento da imigração no continente. Foi dentro deste contexto que Viktor Orbán consolidou seu poder na Hungria e a extrema-direita francesa voltou a causar impacto no país, sob liderança da Marine Le Pen. No mais, olhando para a América Latina, não podemos esquecer do recente golpe de Estado na Bolívia e da radicalização da direita venezuelana contra o Chavismo.

Logo, o bolsonarismo é uma expressão nacional de uma ofensiva internacional, sendo uma parte da crise do capitalismo contemporâneo. Sendo essa direitização um processo que surge em consequência da crise desse sistema, Theotônio colocaria para o movimento antifascista atual duas opções: ou avançar na luta pelo socialismo ou se aventurar em projetos políticos conciliatórios que, mais cedo ou mais tarde, serão responsáveis (por manterem o capitalismo) e vítimas da fascistização gerada pelo capitalismo em sua ânsia de permanecer vivo. Isso porque, segundo o próprio, “A opção fascista é transformada, portanto, numa necessidade de sobrevivência do grande capital internacional e local. Esta é a verdadeira natureza do fascismo dependente, por mais que possam variar suas formas” [1] . Surge então o lema que dar o título de suas mais célebres obras: socialismo ou fascismo.

É por isso que, segundo Theotônio, a luta pela democracia nos países periféricos devem estar atreladas com a luta anti-imperialista e anti-latifundiaria. Faz-se necessário uma atuação política prática que entre em confronto com as forças externas e seus representantes internos. Dessa luta anti-imperialista e anti-latifundiaria, brotaria o gérmen de uma luta maior: à luta pelo socialismo, considerado como “único regime capaz de permitir a consolidação das transformações democráticas, anti-imperialistas e anti-latifundiarias”[2] . Além desse horizonte socialista, iniciado por uma luta anti-imperialista e anti-latifundiaria, Theotônio chamaria a atenção para outro importantíssimo ponto: a criação de alternativas outras que os setores mais politizados do grande capital serão responsáveis por criarem.

Essas alternativas, apresentadas como eficientes e seguras, faz parte da disputa ideológica que pode existir dentro do movimento antifascista. A luta pela hegemonia burguesa, pequeno-burguesa ou proletária na luta antifascista passa a ser um aspecto importante na construção deste movimento. Se pegarmos o caso brasileiro, vale o questionamento: quem seria a liderança e o beneficiário imediato do avanço da luta antifascista contra Bolsonaro? No processo de redemocratização nos anos de 1980, a liderança foi capitaneada pela burguesia que tratou de realizar uma transição gradual e segura, gerando o que conhecemos na historiografia oficial como Nova República. Mas essa Nova República não impediu a gestação de um fenômeno político com claras tendências fascistas, como é o bolsonarismo. Isso porque não rompeu (e nem era o seu objetivo) com a causa desse processo: o capitalismo de tipo dependente.

Atualmente vários atores políticos andam disputando a hegemonia pela oposição ao governo, sejam lideranças burguesas como Rodrigo Maia ou lideranças pequeno-burguesas como Ciro Gomes. Sem falar, obviamente, do Lula e o grande partido de massas que o cerca. Não sendo um intelectual da burguesia e crítico do reformismo desenvolvimentista, fato que marcou sua trajetória intelectual, Theotônio aconselharia a construção de um movimento antifascista de teor proletário que fosse responsável pela formação de organizações e lideranças que objetivassem à ruptura do capitalismo dependente que sufoca o país. Seu foco deveria romper com aquilo que à Nova República não rompeu e ainda incentivou.

Assim sendo, o objetivo seria “lhe dar um conteúdo radical de liquidação de suas raízes econômicas e, assim, de conduzir de modo contínuo e revolucionário a etapa de derrubada do fascismo para a etapa imediatamente superior de lançamento das bases para a revolução socialista” [3] . Sem nenhuma crença nas alternativas burguesas e reformistas, o caminho ditado por Theotônio seria a imediata luta por um novo sistema. Após essas indicações e possíveis conselhos que o autor daria ao movimento antifascista atual, o leitor poderá questionar: mas existem condições subjetivas e objetivas para a construção de um movimento antifascista radical que supere o bolsonarismo e construa a ruptura com o capitalismo dependente, apenas possível pela via socialista?

O texto tem como finalidade descrever possíveis conselhos que Theotônio daria ao movimento antifascista, caso ainda estivesse vivo. A base para tal abstração não é outra a não ser os textos e as reflexões feitas pelo próprio autor, durante sua vida. Com isso, não cabe aqui fazer inferências conjunturais sobre a possibilidade (ou não) desta alternativa ter impacto prático na realidade brasileira e latino-americana. O objetivo do texto se limita a trazer à tona reflexões de um autor importante para o entendimento do que vivenciamos atualmente, inspirando leitores a mergulharem em sua obra.

Se o estudo aprofundado do Theotônio resultar em um salto qualitativo da esquerda brasileira formando movimento antifascista organizado e com horizonte socialista, apenas o tempo dirá. Até esse futuro ser alcançado, sua obra e legado devem ser descritos e analisados criteriosamente para que militantes e intelectuais de esquerda tirem suas próprias conclusões. Afinal, é da apropriação da teoria que se constrói à práxis. O que podemos afirmar é que, no momento, inexiste um movimento antifascista no Brasil bem consolidado e que à esquerda brasileira, em sua esmagadora maioria, ainda não se apossou da obra de Theotônio. Pelo contrário, ofuscou do debate público temas urgentes como o imperialismo. Ademais, a esses militantes e intelectuais que desejam construir um movimento antifascista orgânico no Brasil, fica a sugestão de uma alternativa, resumida nos seguintes termos pelo próprio Theotônio dos Santos:

“A única segurança do triunfo sobre o fascismo depende também que o movimento operário seja capaz de entender a unidade intrínseca das tarefas democráticas e anti-imperialistas como tarefas socialistas, que são as únicas capazes de assegurar a consolidação das primeiras; por outro lado, de sua capacidade de entender que o êxito das tarefas socialistas está condicionado por sua capacidade de dirigir vitoriosamente as tarefas democráticas, sem sectarismos, mas ao mesmo tempo sem compromissos paralisantes; de não perder o apoio de nenhuma força nem de um só aliado contra o fascismo, os monopólios nacionais e internacionais e contra o latifúndio; de não atar suas mãos com nenhum aliado ou força social que restrinja a profundidade da luta. Este é o desafio tático que enfrente o movimento operário em processo de amadurecimento” [4].

Notas

[1]SANTOS, Theotônio dos. Socialismo e Fascismo na América Latina hoje. Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas. V. 12, n.1, 2008, p. 19.

[2]SANTOS, Theotônio dos. Socialismo e Fascismo na América Latina hoje. Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas. V. 12, n.1, 2008, p. 18/19.

[3]SANTOS, Theotônio dos. Socialismo e Fascismo na América Latina hoje. Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas. V. 12, n.1, 2008, p. 20.

[4]SANTOS, Theotônio dos. Socialismo e Fascismo na América Latina hoje. Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas. V. 12, n.1, 2008, p. 20/21.