O terror da crise capitalista é a única saída possível

22 de Junho de 2017, por Dalton Rosado


"Um cenário de crescimento ligeiramente em queda, frágil, fraco e certamente não alimentado pelo comércio" (Christine Lagarde, presidente do FMI, avaliando o momento econômico mundial)

Qualquer análise macroeconômica que se faça do capitalismo em 2017 vai apontar para um quadro de recessão mundial, independentemente das análises pessimistas de organismos como o Fundo Monetário Internacional e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, insuspeitos de tendenciosidade ideológica já  que exercem funções de sustentação e positivação dos princípios capitalistas. 

Para citarmos apenas a América do Sul, constatamos que Brasil e Argentina, os países mais populosos e economicamente desenvolvidos do continente, amargam recessão econômica renitente nos últimos três anos. A Argentina registra queda no PIB (-2,8%) em 2014, crescimento (2,6%) em 2015 e nova queda (-2,1%) em 2016. E o  Brasil, crescimento (0,5%) em 2014, queda brusca (-3,8) em 2015 e nova queda (-,3,6%) em 2016.   

Os únicos indicadores favoráveis, como o crescimento de 7,8% no PIB indiano, se devem a um fato lamentável: somente está bombando a produção de artigos que requerem mão-de-obra humana em larga escala, e isto por causa da remuneração irrisória dos trabalhadores! O capitalismo expõe as suas vísceras apodrecidas quando a concorrência mundial de mercado exige o achatamento de salários ou a simples dispensa de trabalho abstrato nos setores produtivos nos quais as automações da produção se tornaram possíveis.  

Uma recessão econômica renitente fustiga o Brasil...

Apesar da depressão econômica evidente e da concentração de renda que se acentua, todos os partidos políticos, todas as instituições do Estado, bem como as entidades civis patronais e de trabalhadores, entoam, uníssonas, o mesmo mantra: é preciso promover o desenvolvimento econômico! 

Parece não incomodar a ninguém o fato de que é a própria lógica econômica que está impulsionando a crescimento da desigualdade. Hoje, oito homens detêm a mesma riqueza que as 3,6 bilhões de pessoas mais pobres do mundo; o 1% mais rico da população tem mai$ que os outros 99% juntos! 

E as pessoas não estabelecem nenhuma conexão entre o pretendido desenvolvimento econômico e a recente morte de 62 pessoas num incêndio florestal no coração de Portugal, causado pelo aquecimento global resultante da emissão desmedida de gás carbônico na atmosfera! Trata-se, evidentemente, de uma consequência da produção industrial e desmatamento irracionais; ainda assim, a democracia burguesa concede a um ridículo tirano ungido pelas urnas o direito de negar os sôfregos acordos internacionais de redução dessa emissão poluente suicida.     

O Brasil é um dos campeões em concentração de renda, na medida em que apenas seis pessoas bilionárias detêm a riqueza de quase 100 milhões de brasileiros empobrecidos. E elas ainda posam de beneméritos empregadores e empreendedores!

...e a Argentina, os dois gigantes da América do Sul.

Enquanto isso, o governo Temer, obedecendo ao comando do alto mundo empresarial e dos seus representantes no parlamento, conduz um ajuste fiscal no qual se priorizam medidas que congelam os investimentos em educação e saúde, cortam benefícios sociais e mudam o sistema das aposentadorias. Como sempre, a conta da crise e dos escorchantes juros da divida pública será paga com o sacrifício da população. Mantenha-se o Estado, ainda que o povo padeça! 

Diante deste quadro, quais são as saídas? 

O modelo de estruturação social capitalista, mercantil, atual, está fundado em dois pilares obsoletos:

a) o sistema produtor de mercadorias; 
b) a institucionalidade estatal que dá sustentação e indução ao sistema produtor de mercadorias. 

O sistema produtor de mercadorias é comprovadamente irracional, na medida em que apenas se utiliza da necessidade de consumo dos indivíduos sociais para dar azo ao objeto teleológico de reprodução aumentada da riqueza abstrata, predadora e concentradora, sem que se importe com os nocivos efeitos colaterais de seu desiderato autotélico.

Para o capitalismo, tudo é mercadoria. Até o crack.

É deste modo que tanto faz produzir pedras de crack, cocaína, bombas ou uma vacina: o objeto da produção é sempre o mesmo, qual seja a manutenção do ritmo crescente da produção de mercadorias, sem o qual o sistema capitalista não sobrevive. 

Agora, quando a produção de mercadorias atinge o seu limite expansionista (comprovado pela renitente estagnação do PIB mundial) e se torna incapaz de remunerar as dívidas pública e privada contraídas numa aposta de crescimento futuro que não vem nem virá, explicitam-se as crises nos vários setores: sistema financeiro internacional, desemprego estrutural, concentração de riqueza abstrata, aumento da divida pública e falência estatal, emissão de dinheiro sem valor causador de pressão inflacionária, etc. 

Mesmo assim, muitos continuam acreditando que a questão se restrinja apenas à questão da governabilidade, atribuindo ao Estado um poder político soberano que ele não tem. Daí cultivarem a ilusão de que os problemas sociais possam ser superados mediante iniciativas periféricas como a troca de governantes incapazes por governantes capazes; combate à corrupção; taxação de grandes fortunas; maior intervenção estatal na economia; eficiência na cobrança de impostos aos sonegadores e outras medidas administrativas, sem que se mexa no Santo Graal da vida social, o desenvolvimento econômico e sua lógica reificada que nos dá ordens suicidas. 

Trocar governantes incapazes por capazes? E lá eles existem?!

A questão que se coloca não é, obviamente, a boa escolha dos dirigentes governamentais, mas sim a própria superação do poder do Estado, preso a uma lógica da qual é dependente via cobrança de impostos. 

Não é, também, como querem tantos, uma melhora do nível de produtividade de mercadorias para a vitória na guerra da concorrência de mercado, pois isto vai acarretar sempre a derrota de outros, que verão aumentar os seus índices de miséria (o capitalismo é uma eterna batalha na qual os vencedores subjugam os vencidos.

Ao invés disso, cabe-nos superar tal busca de desenvolvimento econômico genocida e promovermos o desenvolvimento humano, que passa, inexoravelmente, pela superação do sistema produtor de mercadorias e pela priorização da produção de bens destinados à satisfação das necessidades, de modo ecologicamente racional.

É evidente que, com a superação das mercadorias, extinguir-se-ão a forma-valor e os impostos, bem como (por consequência) o Estado e suas instituições, da maneira como as conhecemos. Esta transformação, por mais irrealizável e estranha que possa parecer, está-se impondo como uma necessidade irrecusável pelo próprio empirismo da dinâmica capitalista em fim de feira.

Dizem que o pior cego é o que não quer ver. Está mais do que na hora de querermos ver.