A ofesiva socialista e os limites da oposição entre direita e esquerda

26 de Junho de 2017, por Coletivo Ofensiva Socialista

Com a crise, crescem as lutas sociais
Com a crise, crescem as lutas sociais

Notabilizou-se o discurso da necessidade de unidade da esquerda para combater a direita e desenvolver uma ofensiva contra o crescimento dos setores conservadores no Brasil e na América Latina. No entanto, é preciso atentar que a defesa de unidade da esquerda se constitui num discurso vazio dado o fato que no seu interior se expressam tendências que são profundamente contrapostas e até inconciliáveis. É preciso compreender os limites da direita e da esquerda e entender porque a esquerda está completamente enredada à lógica do capital e impossibilitada de apresentar uma alternativa de fato para a classe trabalhadora.

Para entender a oposição entre direita e esquerda é preciso lembrar o período histórico que precede a Revolução Francesa. A disputa política entre direita e esquerda afirma-se mediante o fato de que a direita comparecia como aquela ala que tentava preservar as relações sociais existentes, enquanto que a esquerda comparecia como a ala que tentava apresentar algumas mudanças. A direita era representava pela nobreza e o clero, enquanto que a esquerda representava o terceiro estado. A direita era considerada como conservadora e a esquerda como defensora das transformações sociais, do ponto de vista da burguesia (VIANA, 2016).

O movimento socialista (formado por lassallistas, anarquistas, marxistas social-democratas, bolcheviques etc.) adotou essa terminologia e acabou interpretando de forma equivocada essa oposição como se fosse uma disjunção entre proletariado e burguesia, socialismo e capitalismo; mas é preciso considerar que nem toda esquerda é socialista e revolucionária; pelo contrário, grande parte da esquerda é reformista e contrarrevolucionária (VIANA, 2016). Por sua vez, a direita é formada por liberais, democratas, nacionalistas, fascistas, nazistas, integralistas etc, ou seja, não se constitui como um todo uniforme, mas é formada por distintos setores, alguns defendem forte intervenção estatal no mercado e outros c0mbatem qualquer espécie de interferência no mercado (neoliberais); no entanto, todas elas estão articuladas no sentido de subordinar de maneira absoluta o trabalho e intensificar os processos de superexploração da força de trabalho.

O termo direita e esquerda serve para fazer desaparecer a essencialidade de seus participes. E nessa arena novos termos são adotados, como centro-direita, centro-esquerda, extrema-direita, extrema-esquerda etc. Essas subdivisões servem para aprofundar ainda mais a confusão e impedir uma efetiva compreensão da oposição fundamental, à proporção em que os governos denominados de esquerda serviram para aplicar as mesmas políticas repressivas dos governos de direita ao longo de todo o século XX e início do século XXI. Assistiu-se os governos socialistas na França, trabalhistas na Inglaterra, comunistas na Itália, social-democrata na Alemanha aplicarem as mesmas políticas de ajuste contra os trabalhadores desenvolvidas pela direita. Isso quer dizer, que muitos setores da esquerda serviram para controlar os trabalhadores e submeter os trabalhadores aos interesses do capital, mediante sua inusitada política de conciliação de classes.

É preciso esclarecer que a verdadeira oposição se inscreve entre capital e trabalho, entre burguesia e proletariado. Não subsiste a menor possibilidade de conciliação entre capital e trabalho. Diferentemente da esquerda, que pode conciliar com o capital e chegar ao poder político com apoio total dos banqueiros e empresários, jamais o trabalho poderá participar de qualquer forma de controle da produção no interior do sistema do capital.

Como afirma Viana (2016), oposição entre direita e esquerda se inscreve no terreno da arena burguesa e no interior do sistema do capital, não representando uma contraposição radical ao sistema do capital e uma mudança estrutural no sistema metabólico existente; por isso que a esquerda acaba elegendo como bandeira o tema da cidadania (política de cotas raciais), da redistribuição de renda, da governança ética, da relação entre ética e política, dos direitos humanos, dos conselhos tripartite (Fundos de Pensão, FAT, FGTS etc.). Geralmente a esquerda se contrapõe à direita mediante a defesa da institucionalização de uma política de conciliação de classes e de concessões aos trabalhadores. No entanto, como o capital não pode fazer qualquer espécie de concessões aos trabalhadores nos tempos hodiernos, a única concessão possível é aquela relacionada às políticas compensatórias como “bolsa família” ou programas “Fome Zero”. A conexão dessas políticas com o capital pode perfeitamente ser observada no fato de que todas elas comparecem como orientações do Banco Mundial, do FMI etc.

Diferentemente da oposição entre capital e trabalho, burguesia e proletariado, que se constitui como um antagonismo impossível de ser conciliado, a oposição entre direita e esquerda não se constitui como uma oposição irreconciliável, mas como uma oposição perfeitamente possível de ser conciliada, pois tem como corolário fundamental submeter os trabalhadores aos propósitos do capital. Não é à toa que toda a luta da esquerda tem como estratégia fundamental a conquista do Estado pela mediação da disputa parlamentar.

Nota-se que a oposição entre direita e esquerda acaba enredada no terreno da disputa política eleitoral, tentando sempre fazer desaparecer a centralidade do trabalho e o papel fundamental que desempenha a economia perante os demais complexos parciais. E enquanto enredada no terreno da disputa política, a oposição entre direita e esquerda serve para fazer desaparecer que o verdadeiro centro emancipatório passa pela forma como se organiza a produção e que a revolução política não pode se inscrever de maneira cindida da revolução social.

A oposição entre direita e esquerda está impossibilitada de desenvolver uma ofensiva de massa socialista, porque o seu centro de comando continua sendo a ilusão de reformar o capital e jamais de extinguir o sistema do capital. O vértice da esquerda é a constituição de políticas defensivas, ou seja, de políticas que visam sempre submeter o trabalho ao capital. Por isso que a esquerda não abre mão do cretinismo parlamentar, da burocracia sindical e da estrutura partidária.

A ofensiva socialista precisa superar completamente os programas reformistas da esquerda que tentam oferecer uma face humana ao capital. A ofensiva socialista se faz necessária porque está completamente condenada ao fracasso as tentativas do intervencionismo estatal para instituir o “Estado de Bem Estar Social” ou o “socialismo de mercado” (Cuba etc.); pois todas elas não passam de formas variadas de conservação da dominação do capital sobre o trabalho.

A oposição direita e esquerda tem como propósito essencial fazer desaparecer o antagonismo existente entre capital e trabalho, bem como o papel fundamental do proletariado na transformação radical das estruturas socioeconômicas existentes no capitalismo. Somente o proletariado se constitui como a classe revolucionária, pois nada tem a perder num processo revolucionário a não ser as suas algemas. A revolução política com alma social começa pela constituição de um poder político que lance abaixo as instituições burguesas e todas as estruturas que servem para assegurar o controle do trabalho. É preciso ter claro que a esquerda não representa o proletariado e muito menos o partido da revolução proletária, pois está enredada na defesa do capital e da conquista do Estado burguês. É preciso ter claro que um processo revolucionário não tem sua gênese na conquista do Estado burguês, mas na sua completa destituição pelos conselhos e comitês operários e camponeses.

Referências

VIANA, Nildo. Direita e esquerda: duas faces da mesma moeda. Revista Posição. Ano 3, vol. 3, n. 10, abr./jun. 2016.