A Petrobrás dos sonhos

25 de Agosto de 2020, por Sylvio Massa de Campos


No ocaso de seu império, Napoleão Bonaparte, condutor da glória francesa e profundo conhecedor da natureza da elite que o cercava, sintetizou uma dolorosa reflexão para a posteridade: "Um simples canalha destrói uma nação."

Tancredo Neves, um século e meio depois, encontra um ponto comum com o Imperador francês: era profundo conhecedor da natureza da elite brasileira, representada no Senado, e sentencia também sua reflexão para a posteridade: "Canalhas, Canalhas, Canalhas."

Usando esse adjetivo no plural ele indica a dimenção e a natureza que atribuia a nossa classe dirigente. A partir desse marco histórico, o projeto de nação, as bases materias da infraestrutura construidas - Petrobrás, Eletrobras, Telebras ,Vale do Rio Doce, Embrapa, Embraer, siderurgia, engenharia civil, industria bélica, empresas privadas na área de metal mecânica, cimento e tantas outras - lançavam o país rumo à soberania e a independência de seu povo. Esse acervo de realizações, principalmente a partir do período FHC, vêm sendo descaracterizadas, desmontadas, desnacionalizadas, vendidas sob as mais falaciosas argumentações.

A subserviência dos últimos dirigentes da Petrobrás e, em especial, da atual administração ao poder imperialista da indústria do petróleo envergonha qualquer cidadão que tenha consciência politica da importância de manter a empresa integrada em sua estrutura industrial e comercial para o desenvolvimento do país. O atual presidente da Petrobrás, em certo momento, com seu medíocre percurso profissional, confessa que sempre sonhou em vender a empresa, o que vem realizando a qualquer preço, sob o estranho silêncio do seu abnegado corpo de profissionais.

Em 18/08/2020, o presidente recebeu o apoio público da "www.moneytimes.com.br " que publica o artigo "Petrobras-dos-sonhos está muito perto de virar realidade". Esse pesadelo que se abate sobre a Petrobrás e sobre outras empresas públicas, só tem paralelo na orientação do também medíocre economista Paulo Guedes, pois é incapaz de formular um projeto econômico para o país, e opta por mandar vender o patrimônio nacional.

Na memorável reunião de ministros de 22/04/2020, conduzida pelo presidente da República, em certo momento, são registrados aspectos da privatização do Banco do Brasil, e o ministro Paulo Guedes sintetiza a sua natureza arrogante e desrespeitosa determinando: "Tem que vender essa PORRA logo", segundo transcrição do Instituto Nacional de Criminalista. A reação dos  funcionários do Banco, Associação de Funcionários do Banco do Brasil –ANaBB foi imediata. Formularam uma notificação extra-judicial ao ministro para sua retratação. Contrariamente ao silêncio dos técnicos da Petrobrás em relação ao desmonte da empresa e, mais grave ainda, a mudez dos generais presentes à reunião que, ainda acredito, deveriam estar envergonhados
de serem subordinados a esse governo.

Torna-se necessário destacar que os generais do período de 64 escolheram ministros da economia de conceito e respeitabilidade internacional em suas áreas de saber, formuladores de projetos para o pais, expostos abundantemente em suas obras publicadas, cujo olhar ideológico não era seguido pelos generais, ocorrendo exatamente o contrário, pois os respeitados e cultos economistas da época seguiam as determinações dos generais presidentes que formulavam e exigiam politicas para construir uma nação soberana.

Os historiadores, técnicos e estudiosos sobre nosso país, em futuro próximo, encontrarão no acervo de publicações da AEPET as análises honestas dos balanços da empresa; a resistência técnica à venda dos ativos rentáveis da empresa; as denúncias ao sistema de preços dos derivados vigentes; a ociosidade deliberada do parque de refino, permitindo a importação dos derivados e a consequente perda de parte do mercado interno; e, finalmente, as mentiras construídas para
enfraquecer a imagem da Petrobrás divulgadas pela mídia.

Até quando teremos que presenciar outras "PORRAS" a serem vendidas nesse periodo sombrio de nossa história. Espero que surja, pois, como augurou Voltaire: "Uma grande personalidade é suficiente para salvar uma nação".

Sylvio Massa de Campos é economista.