A presença "natural" das Forças Armadas estadunidenses na América Latina

29 de Novembro de 2015, por Silvina M. Romano

 


O discurso de liberdade, democracia, aproximação diplomática e relações amistosas com a América Latina, tão característico da administração Obama em seu afã de reforçar o "poder blando" de sua política exterior, encontra seus limites reais na necessidade de "ordem” e “estabilidade” (consignas muito usadas durante a implementação da Doutrina de Segurança Nacional na América Latina). Atualmente, as Forças Armadas estadunidenses no hemisfério estão presentes não só nas mais de 70 bases militares, mas se materializam também nos diversos acordos de segurança multi e bilaterais: Plano Colômbia, Iniciativa Regional Andina, Iniciativa Mérida, Iniciativa para a Segurança Regional da América Central, entre outros.  Esses pactos incluem programas de treinamento, cursos de capacitação, venda de armas e equipamentos, envolvendo desde as empresas provedoras desses materiais e as agências de segurança estadunidenses como a DEA e o FBI, até os governos, empresas e polícias dos países latino-americanos[1].

A razão dessa presença é a "segurança dos Estados Unidos", que implica por definição a segurança e a estabilidade em territórios que poderiam resultar em uma ameaça para os EUA. Nos manuais de treinamento do final dos anos 1960 podia se ler claramente o vínculo entra ambas: “A falta de estabilidade política e de ordem socioeconômico em um país latino-americano põe em cheque a segurança nacional norte-americana. Por conseguinte, os EUA devem adotar em matéria de treinamento e programas de ajuda militar, táticas destinadas a evitar os riscos de tal falta de estabilidade mediante o desenvolvimento econômico e a imposição da ordem”[2].

É assim que a busca de “estabilidade” faz parte do discurso que vem penetrando fortemente na região desde inícios da Guerra Fria e que opera como legitimador das intervenções que passam por cima da soberania nacional dos Estados.  Atualmente, na página web do Comando Sul, se pode ler que um dos objetivos de operações como a UNITAS “Southern Seas 2015”, é  “a continuação do compromisso com a região, orientado a estreitar o trabalho conjunto e promover a estabilidade hemisférica”.  Claro que este trabalho conjunto se realiza com países e governos que se encontram alinhados com as pautas político-econômicas e de segurança que não alteram os preceitos de Washington, tais como Peru, Chile, Colômbia e Panamá.  Os exercícios de treinamento chegam até o Brasil: UNITAS adestra as Forças Armadas desse país para combater no campo da guerra eletrônica, em matéria de guerra aérea e submarina, em operações de interdição, uma vez que levam a cabo diversos exercícios conjuntos[3].

Em termos gerais, O Comando Sul tem por missão brindar as nações amigas com cursos de treinamento, mecanismo para "compartilhar informações", equipamentos e assistência tecnológica, assim como assistência em infraestrutura (note-se que isso acontece especialmente com as empresas estadunidenses dedicadas ao tema da segurança).  Além disso, assessora especialmente em questões de inteligência e em operativos para combater o narcotráfico e o terrorismo, sempre “respeitando os Direitos Humanos”[4].  Chama a atenção o pouco que isso está difundido entre a opinião pública. É como se essa presença, das Forças Armadas cooptadas, fosse um componente “natural” da soberania dos países da região ainda em um contexto de reconstrução da memória no que diz respeito a contrainsurgência, as desaparições forçadas, os operativos paramilitares, etc., entre a década de 1950 e finais de 1980.  Precisamente, durante a Guerra Fria, já se dizia em relação ao treinamento de tropas latino-americanas nas academias estadunidenses, que se tratava de um treinamento técnico e não  “político-ideológico”.  Essa afirmação foi desmentida com os acontecimentos no Chile e depois na Argentina, onde as Forças Armadas ocuparam a esfera da política formal.

É por isso que hoje nos alarmamos ao ler a seguinte notícia: “Suboficiais da Colômbia recebem lições de liderança nos Estados Unidos (…) receberão instrução em liderança compartilhada, resolução de conflitos, liderança e comportamento organizacional e treinamento emocional durante dez dias nas instalações do forte militar de Sam Houston em San Antonio Texas, por pessoal do Exército Sul dos EUA"[5].

Algumas cifras que ilustram o grau de dependência das Forças Armadas latino-americanas. A venda de armas estadunidenses para a América Latina e o Caribe em 2014 alcançou um bilhão e 605 milhões de dólares, e em 2012 foi de dois bilhões e 408 milhões de dólares. Os militares latino-americanos que receberam treinamento em 2013 foram 12.157 enquanto que em  2014 foram 14.600[6].

A “estandartização das Forças Armadas” segundo as necessidades dos EUA é uma constante desde inícios da Guerra Fria e prossegue na atualidade. O inimigo interno e externo a combater vai mudando de nome, mas sempre está aí para justificar o impulso/imposição de uma Segurança Hemisférica que garanta uma mínima estabilidade para os negócios (legais, ilegais, locais, transnacionais).  Por isso desde o  império nunca escutaremos o conceito de “fim de ciclo” mas apenas o de “renovação de estratégias”.

Notas:

[1] Borón, A. (2012) América Latina en la geopolítica del imperialismo. Bs As: Luxemburg, pp. 161-188.
[2] Tapia Valdés, J. (1980) El terrorismo de Estado. La doctrina de la seguridad nacional en el Cono Sur. México: Nueva Imagen p. 58
[3] http://www.southcom.mil/newsroom/Pages/US-Marines-train-with-partner-nat...
[4] http://www.southcom.mil/ourmissions/Pages/Supporting-Our-Partners--Build...
[5] http://www.infodefensa.com/latam/2015/11/03/noticia-estados-unidos-capac...).
[6] http://www.securityassistance.org/latin-america-and-caribbean

- Silvina M. Romano es investigadora del Instituto de Estudios de América Latina y el Caribe, UBA, CONICET, Argentina.

Traduzido do alainet.info