A retomada do crescimento econômico é uma ilusão nefasta, com prazo de validade há muito vencido

17 de Agosto de 2017, por Dalton Rosado

 


"Toda unanimidade é burra. Quem pensa com
a unanimidade, não precisa pensar"
(Nelson Rodrigues)
Ouço repetidas ad nauseam as afirmações na linha de que “precisamos acreditar na retomada do crescimento econômico", "temos de voltar a investir", "é necessário um pouco de otimismo”, etc. Para não ir muito longe, foi o que disse uma conceituada jornalista da área econômica no último domingo, ao entrevistar dois empresários, que prontamente a corroboraram.
 
Alguém já notou que nada se parece mais com a crença mística do que a crença na política. Eu acrescento que nada é mais irracional do que a aposta no crescimento econômico global, nestes tempos que em tudo o desfavorecem, uma vez que  o uso da alta tecnologia da microeletrônica na produção de mercadorias elevou a racionalização e a mecanização do processo produtivo aos níveis de incompatibilidade com a geração do valor, o sangue que irriga todo o organismo econômico.  
 
Pode, evidentemente, haver crescimento setorizado, muitas vezes favorecido pela própria crise, como é o caso do aquecimento da venda de carros usados por falta de dinheiro para a aquisição de carros novos. Mas, as tendências da economia não podem ser identificadas a partir de ocorrências marginais. A economia globalizada mexe com um conjunto de fatores que devem ser analisados de modo conjuntural, e não setorial. 
 
A verdade é que vivemos sob um modo de relação social que sempre foi segregacionista, mas que agora encontrou o seu ponto de saturação e faz água por todos os lados. Se não, vejamos:
— os empresários de médio porte são levados à falência; 
— os megaempresários recorrem a fusões monopolistas para se manterem vivos no mercado; 
— o sistema financeiro marcha para um colapso anunciado, vez que carreia os seus recursos para o Estado falido que, num futuro não muito distante, evidenciará a sua incapacidade de saldar suas dívidas e/ou os juros a ela correspondentes. A banca já não encontra empreendimentos da chamada economia real que dê guarida à reprodução aumentada do capital fictício, de modo seguro e rentável;
— a previdência social pública, em todo o mundo, se vê incapacitada de prover o pagamento das pensões dos seus pensionistas, vez que o valor das mesmas é cada vez maior que as contribuições previdenciárias (fruto do desemprego estrutural, que atinge especialmente os jovens);
—  a guerra de mercado se torna cada vez mais fratricida e nela ganha quem produz mais com menor custo de produção. Assim, os que crescem obtêm seus crescimentos na proporção inversa da queda do crescimento global, ou seja, correspondem ao chamado crescimento rabo de cavalo, sempre para baixo (a China é o exemplo mais eloquente disto, apesar de já estar esbarrando nos limites da produção mercadológica);
— a barbárie mundial se acentua, seja sob a forma de guerras de disputa de poder em países submetidos a governos despóticos militarizados (casos da Venezuela, de países africanos e de nações árabes) ou sob a forma de violência urbana desenfreada (como no Brasil), cujo pano de fundo é a miséria social e uma concentração de riqueza cada vez mais incontrolável e aberrante.
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A RAZÃO DE SER DA CRENÇA IRRACIONAL       
 
Entretanto, apesar de todas as evidências em sentido contrário, tanto a imprensa tradicional, como os políticos; tanto os órgãos de classe patronais, quanto os de trabalhadores; e até o senso comum convergem em apontar a retomada do impossível desenvolvimento econômico como saída para a crise do capitalismo. Fazem lembrar um toxicômano que busca no consumo da droga a superação de sua crise de abstinência causada pela própria droga. 
 
É impossível, para quem não detém um conhecimento teórico mais aprofundado da forma-mercadoria, a captação das contradições que lhe são inerentes e que anunciam o seu colapso futuro, tal qual uma pequena semente vegetal que já traz em si toda a concepção da vida arbórea futura. 
 
A inconsciência sobre as contradições da forma-valor (dinheiro e mercadorias) está por trás da insistência na mediação social sob o seu patrocínio – além, é claro, dos interesses inconfessáveis de acumulação de riqueza abstrata de modo segregacionista. 
 
Captar a natureza dos mecanismos essenciais da sociedade mercantil nos permite compreendê-la na sua essência constitutiva negativa, ao invés de tentarmos corrigir aspectos funcionais, pretensamente passíveis de correções de rumo, como se fossem estes últimos os verdadeiros motivos da debacle em curso.
 
Anselm Jappe, na sua obra As aventuras da mercadoria, explica: 

"O desenvolvimento exato do conceito de capital torna-se indispensável, pois que se trata do conceito fundamental da economia moderna, tal como o próprio capital, cuja contra-imagem abstrata é o respectivo conceito, o fundamento da sociedade burguesa. 

Da rigorosa apreensão do pressuposto fundamental das relações decorrem necessariamente todas as contradições da produção burguesa, tanto quanto a fronteira em que ele (o capital) conduz para lá de si mesmo... 

Quem apreende o conceito do capital, apreende igualmente a evolução que dele decorre: o que vem mais tarde está já contido no conceito geral do capital". 

Mais uma vez o velho Karl Marx, desvendando os mistérios da futura árvore daninha que seria gerada pela semente da forma-mercadoria, foi quem melhor nos antecipou as contradições da empiria da vida mercantil em seu momento de saturação completa e que nos impõe as turbulências atuais. O tão contestado, mas nunca superado Marx esotérico, com seus ensinamentos teóricos, é quem nos pode fornecer o fio de Ariadne capaz de nos conduzir à emancipação humana. 
 
Nunca foi tão necessária a compreensão científica dos males que nos afligem, para podermos nos libertar o unanimidade burra da busca do desenvolvimento econômico como saída para os problemas causados pela própria atividade econômica.