Saudação e abertura do III ENEI

29 de Setembro de 2015, por Elaine Tavares

Fotos: Rubens Lopes
Fotos: Rubens Lopes

O III Encontro de Estudantes Indígenas começou em clima de emoção. Política, música, dança, protesto, resistência, alegria. Mais de 600 pessoas encheram o Centro de Eventos com seus cocares, colares coloridos e maracás. Indígenas de todas as partes do Brasil dispostos a discutir não apenas os desafios do ensino superior, a permanância e o acesso, mas também a territorialisdade, a violência, a criminalização. A abertura já mostrou que os dias de encontro serão densos e provocativos. 

Na mesa, as vozes das autoridades, da coordenação, dos estudantes. E também o grito de dor do povo Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul. Uma dor que é coletiva e que não fica limitada ao clamor, mas que é alavanca da luta.

Carta de saudação da comissão local

Hoje é um dia especial. Iniciamos mais uma edição do Encontro Nacional de Estudantes Indígenas. O terceiro. O que significa que ele já não é sozinho. É parte de uma caminhada que estamos fazendo juntos, nós, que ousamos sair das aldeias e entrar nas universidades. 

Assim, aqui estamos, outra vez, discutindo os desafios que nos esperam, os problemas que já enfrentamos e as conquistas que garantimos com luta e valentia.

E o momento em que fazemos isso, discutir o ensino superior, tampouco é um momento qualquer. Estamos no meio da balaceira, quando nossos parentes tombam alvejados por jagunços a mando do latifúndio. A terra, que é para o homem branco uma mercadoria, está em disputa. 
Para nós a terra não é algo que se compra ou vende, e muito menos é espaço para produzir exploração e miséria. Terra é espaço sagrado onde existimos, onde vivenciamos nossa cultura. Terra é mãe, é pai, é irmão, é irmã, é parente. Terra é pedaço de nós e tudo que toca a ela nos toca também. 

Por todos os confins do Brasil lutamos por demarcação das nossas terras ancestrais. São pequenos pedaços de um mundo que era todo dos povos indígenas. Hoje, convivendo com os brancos, somos capazes de dividir e de partilhar. Mas, ao que parece, os grande latifundiários não querem saber disso. E sem que lhes toque a mão da justiça eles matam, estupram, violentam, desaparecem, roubam.

Nós resistimos. Nós lutamos até o último dos nossos. Porque esse lugar também é da gente. E, mesmo que alguns caiam, feridos de bala, outros tantos nascem e recomeçam. 

Estar na universidade também é uma maneira de partilhar. Compartilhamos nossos saberes, nossa maneira de conhecer e aprendemos as coisas dos brancos, sempre com o nosso olhar. Esse Brasil mestiço, de brancos, negros e índios é o nosso lugar de morada e queremos construir, juntos, um tempo de comunhão. 

Aqui estamos no campus da UFSC, como estamos em tantos outros  campus por esse brasil, porque queremos fazer parte da vida brasileira, porque queremos contar da nossa gente, da nossa cultura, porque queremos trocar saberes.

Será uma linda semana. Abriremos nossas cores nos caminhos da UFSC, tocaremos os tambores, os maracás, cantaremos e dançaremos. E convidaremos a todos e todas para estar conosco. Porque somos um. Nosso desejo de comunhão é real. Não há ódio em nós. O passado já se foi.
Mas, apesar disso, saberemos também lutar por nossos direitos, nosso território, nossa cultura.  Por isso, trazemos aqui o nome dos nossos parentes, que agora mesmo estão sendo atacados nos fundões do Brasil. Eles vivem e nos ensinam que só a luta faz a lei.

Guarani Kaiowá – presente...

Bem vindos, parentes