A Sedução Neofascista e o Brasil

23 de Novembro de 2016, por Marcelo Zero

Partidários de Donald Trump
Partidários de Donald Trump

A reação mais significativa à eleição de Trump pelo colégio eleitoral norte-americano, um anacronismo ridículo, veio do Aurora Dourada grego. Esse partido nazista, em crescimento na Grécia, afirmou que a eleição de Trump é “uma vitória das forças que são contra a globalização e a imigração ilegal, e a favor de Estados Nação puros, com economias nacionais autárquicas”.

Essa reação entusiasmada do Aurora Dourada, assim como de outros partidos de extrema–direita, como o partido francês da Frente Nacional, à eleição de Trump não surpreende. A identidade de valores anticivilizatórios entre um e outros é muito evidente.

Também não surpreende que vastos setores das classes trabalhadoras e das classes médias empobrecidas por décadas de políticas neoliberais e pela crise mundial tenham votado em Trump, no Brexit e em partidos de extrema direita na Europa.

Os partidos de centro, centro-direita e centro-esquerda, dominantes no cenário político tradicional dos países mais desenvolvidos, não ofereceram e não oferecem alternativas para combater o desemprego estrutural e o aumento das desigualdades que, como denuncia Picketty, fizeram regredir o capitalismo do século XXI aos padrões de concentração patrimonial e de renda do capitalismo do final do século XIX e do início do século XX.

As políticas econômicas, fiscais e monetárias, são, em grande parte, decididas fora dos sistemas de representação política. Estão fora do controle dos votos dos cidadãos.

Na “modernidade líquida” descrita por Zygmunt Bauman há algo sólido: a hegemonia do capital internacionalizado e financeirizado, que se sobrepõe à precariedade dos pactos políticos celebrados no âmbito dos Estados Nação, inclusive do pacto que fundamenta todos os outros, o pacto democrático.

Essa disjunção entre o poder real do capital internacionalizado, blindado por acordos internacionais, “troikas” e bancos centrais independentes, e a política nacional manca, restrita e inútil, a “política de mãos cortadas”, como a ela se refere Bauman, está na origem do descrédito das instituições democráticas do Estado Nação e da insatisfação crescente da massa dos deserdados do neoliberalismo globalizado.

Nesse quadro, é natural a emergência de um nacionalismo de direita, exacerbado, excludente e decididamente fascista.

Não é exagero. Trump e seus assemelhados europeus são essencialmente fascistas. O fato é que a caixa de Pandora do fascismo mundial se abriu definitivamente com a vitória de Trump.

Sua noção de “povo” e “nação” é excludente e restritiva, como é da natureza da extrema direita. Ele faz parte de uma tradição política norte-americana, para a qual o “povo” é conformado exclusivamente por americanos brancos, descendentes de europeus, os “verdadeiros americanos”. Sua manifestação mais conhecida é o abertamente racista Ku Kux Klan. Mas há outras. O Workingmen’s Party of California (WPC), muito popular entre a classe operária na costa oeste dos EUA ao final do século XIX, tinha como grande lema a “expulsão de trabalhadores chineses dos EUA”. O mesmo se aplica aos propositores do Brexit, ao Partido da Liberdade austríaco, ao “Lei e Justiça” polonês, ao Fidesz húngaro, à Frente Nacional francesa, aos Democratas Suecos, ao Alternativa para a Alemanha e muitos outros que vão ganhar impulso, graças a Trump.

Neles, a ideia de nação e de povo está indissoluvelmente ligada à ideia de “pureza”. Pureza racial, cultural e moral. Os homens do povo, o americano, o francês, o alemão, etc., e os países que eles conformam, só poderão florescer na medida em que forem excluídas, de suas identidades, as raças e as culturas que os corrompem. Daí o ódio mortal aos imigrantes e à miscigenação racial e cultural.

Restaurada a pureza, expulsos os corruptos, a glória da Nação será restaurada. A “América Será Grande de Novo”.

Esse tipo de discurso não é, evidentemente, algo novo. Assim como não é novo o apelo que ele tem em setores populares, particularmente em tempos de crise econômica, social e política persistente. O nazismo, ou nacional-socialismo, continha, além do nacionalismo racial e excludente, elementos de crítica ao capitalismo. Eles criticavam, sobretudo, as altas finanças dominadas por “judeus apátridas” e colocavam ênfase na necessidade de criar empregos para os alemães. Cerca de 40% dos membros do partido nazista eram da classe operária. As SA, as tropas de assalto dirigidas Ernst Röhm, eram compostas majoritariamente por operários. A sedução nazista não se restringia ao Mittelstand, a classe média alemã.

Mas bastou Hitler chegar ao poder para que o movimento revelasse sua verdadeira identidade. O partido seguiu os interesses do grande capital alemão e, muito rapidamente, a sedução cedeu lugar à repressão. Os que colocavam ênfase nos aspectos “socialistas” do nazismo logo foram expurgados. As SA foram dizimadas na “Noite das Facas Longas” e Röhm foi executado por Hitler.

O mesmo acontecerá com Trump. Seu compromisso com a classe trabalhadora norte-americana terminará onde começa sua firme aliança com o grande empresariado norte-americano, que se beneficia da globalização e da “desterritorialização” de parte da sua produção industrial. Seu estímulo à produção virá, como soe acontecer no caso dos republicanos, pela via de novos cortes de impostos para os mais ricos, o que tende a aumentar ainda mais a desigualdade.

Assim, ver o fenômeno Trump, o Brexit e a eclosão desse fascismo mundial como algo “interessante” ou mesmo “positivo”, em virtude de seu suposto caráter “antiglobalização” é um erro crasso. Um completo equívoco. Esse neofascismo mundial será incapaz de reverter a tendência de ampliação das desigualdades determinada pela acumulação capitalista atual. Também será totalmente incapaz que romper com a disjunção, apontada por Bauman, entre o poder do capital internacionalizado e a política “vazia” que se desenvolve nos Estados Nação.

Ao contrário, a tendência será a de enfraquecer ainda mais as instituições democráticas do Estado Nação substituindo-as por um autoritarismo que será dirigido preferencialmente contra imigrantes, islamitas, “porcos latinos”, refugiados da África e do Oriente Médio, “terroristas” e todos aqueles que se opuserem à nova ordem.

Alguns argumentam que o neoliberalismo será sucedido por neonacionalismos. Discordo. Esse emergente nacionalismo político de direita, esse neofascismo mundial, estará a serviço, em seu aspecto repressivo, da ordem capitalista irreversivelmente internacionalizada, sob a hegemonia dos EUA. No máximo, poderão ocorrer estases na globalização, acompanhadas por conflitos secundários por disputa de espaços econômicos.

No fundo, esse neonacionalismo, esse neofascismo estará a serviço de uma reconstrução da hegemonia norte-americana na ordem mundial, desafiada pelo BRICS e pela ascensão da China.

A esse respeito, nosso país saiu na frente. No Brasil, a eclosão do neofascismo está perfeitamente alinhada a tal reconstrução da hegemonia norte-americana na ordem neoliberal globalizada.

As grandes manifestações pelo golpe, que usavam o símbolos pátrios para excluir, da identidade nacional, nordestinos, beneficiários do Bolsa Família, pobres em geral e as forças políticas de esquerda, abriram a caixa de Pandora do nosso neofascismo e levaram à substituição da presidenta honesta por uma vara de suínos a serviço do capital e da integração subalterna à ordem mundial hegemonizada pelos EUA.

Com efeito, nosso “nacionalismo” neofascista propugna pela integração do país às “cadeias mundiais de valor”. A grandeza da Nação seria restaurada, assim, pela adesão descarada ao “realismo periférico”, à subalternidade mais grotesca.

Aqui, a disjunção entre poder e política nem mais pode ser colocada, pois o golpe e o neoudenismo a ele associado assassinaram a política e contaminaram com autoritarismo as instituições democráticas de nosso Estado Nação. No Brasil, o governo golpista não passa de apêndice fisiológico dos interesses do capital internacionalizado. E a disjunção entre o poder real do capital e a política estará, com a PEC 241/55, consagrada até mesmo na Constituição.

No Brasil, o neofascismo não seduz. Impõe-se. A sedução já cedeu lugar à repressão. O Estado Democrático de Direito já foi sucedido por um Estado de Exceção, construído com o prestimoso auxílio de membros partidarizados do Ministério Público e do Judiciário. Não há mais juízes em Brasília.

Aqui, a direita tradicional já se aliou definitivamente à extrema direita mais brutal. PSDB e DEM financiaram os grupos fascistas que pululam nas ruas e na internet. A intervenção golpista contra o governo progressista se deu sob a égide dos que pediam intervenção militar. Tudo em nome da destruição (sim, destruição) das forças progressistas e de esquerda. Mais malucos que os malucos que acham que a bandeira do Japão é comunista são aqueles que financiam e estimulam essa maluquice toda. A “pós-verdade” é a nossa verdade midiática absoluta, desde o fim das eleições de 2014. Estamos na vanguarda do atraso.

Não haverá disputa política real entre direita e extrema direita, como ocorreu recentemente nos EUA, embora os candidatos mais competitivos para 2018 sejam, a priori, esses empresários “não-políticos”, os nossos patéticos “trumpinhos”, que carregam seu fascismo em malas Vuitton.

A única disputa política real teria de se dar entre essa aliança bizarra de fisiologia política, direita tradicional e extrema direita, e uma coalizão de forças de esquerda.  

Porém, para isso, é preciso saber se unir e saber voltar a seduzir o eleitorado.

Não será nada fácil, mas será imprescindível.