Sepultura de palavras para os desaparecidos

4 de Maio de 2018, por IELA


A jornalista Luara Wandelli Loth lança seu primeiro livro nas Jornadas Bolivarianas. Ele é resultado de uma vivência que ela teve no sudoeste do México, em 2015 e 2016, quando lá esteve como intercambista, ainda estudante de Jornalismo. Naqueles dias se deparou com a saga de dezenas de famílias em busca de seus parentes desaparecidos. O tema a impactou e depois de formada voltou ao estado de Guerrero para escrever aquela história que ficou cravada nas retinas e na carne. Agora, aí está o livro "Sepultura de palavras para os desaparecidos", que sai pela editora Insular, de Florianópolis.

A apresentação do livro será na segunda-feira, dia 07, às 19h.

Leia a apresentação feita pelo professor Waldir Rampinelli. 

O México vive uma verdadeira guerra interna. Os mortos espalham-se pelo país, os desaparecidos aumentam a cada dia, os refugiados crescem a olhos vistos, os ameaçados são uma constante; enfim, os direitos humanos são vilipendiados pelas organizações criminosas e pelo Estado das classes dominantes. Basta alongar a vista sobre todo o território para perceber a insegurança em que vive o povo, como também uma dor sem fim pela qual passa sua população. 
 
Algumas profissões, como a de jornalista, por exemplo, correm um risco permanente. O México é o país que mais mata periodistas no mundo. Já se vão 130 assassinatos de comunicadores desde o ano 2000 e as investigações para encontrar os culpados não prosperam. Verdadeiras zonas cinzentas cobrem estes processos. “Matem-nos a todos”, afirmou Javier Valdez, um dos últimos a ser morto, “se essa é a sentença para se noticiar este inferno. Não ao silêncio.”. 
 
Os responsáveis diretos pelo ataque ao periodismo crítico, investigativo e informativo são o governo federal, os estaduais, o narcotráfico, as milícias e as organizações criminosas. Todas estas entidades querem atuar na sociedade sem qualquer tipo de fiscalização, de crítica e de oposição. Só assim conseguem permanecer no poder acumulando verdadeiras fortunas, seja estando nas chefias de governos, seja estando no comando da economia subterrânea. A população, sem saber o que fazer, assiste bestializada a este desfile de medo e de horror.
 
Trabalhar em um meio de comunicação, em algumas regiões do México, é quase que pedir um atestado de óbito antecipado. 
 
Um jornalista de Veracuz, região dominada pelo Cartel dos Zetas, me dizia que ao voltar da cobertura de um massacre perpetrado por esta organização, recebeu uma chamada em seu celular, ordenando-lhe que tipo de manchete deveria ser publicada no jornal no dia seguinte. E para reforçar o pedido, os criminosos davam os nomes completos de seus filhos e as escolas em que estudavam. Assim funciona a imprensa no interior do país. Um cartel impondo a  linha editorial. Verdadeiras zonas de silêncio.
 
É mais fácil cobrir as guerras do Iraque e da Síria, afirmava um jornalista estrangeiro, que as da República Mexicana. Enquanto lá se conhece o inimigo, o seu alcance, a sua limitação, aqui no México não se pode ver o seu olhar, pois não se sabe onde ele está. “Periodismo bajo riesgo”, como se diz. A decomposição do tecido social é tão grande, que já se tornou comum comentar que determinados jornalistas cobrem a “Guerra de Guerrero”, ou a “Guerra de Veracruz”, ou a “Guerra de Michoacán”, referindo-se a estados da República. A estratégia empregada pelos jornalistas é a de autoproteção: viajam em grupo, não mais sozinhos.  E o presidente mexicano, cinicamente, fala que o país vive em uma democracia e caminha para ser uma potência no século XXI. Há um verdadeiro estreitamento da liberdade de expressão no país, onde cada vez se torna mais difícil fazer jornalismo livre. Os jornalistas que mostram o vínculo entre a política e o narcotráfico, são assassinados; os que fazem matérias de investigação documentando a corrupção, são demitidos; e os que pensam de modo distinto, são punidos com a perda de seus programas. A verdade foi soterrada. Vive-se um autêntico estado ditatorial.
 
A jornalista Luara Wandelli Loth esteve em plena guerra do estado de Guerrero, acompanhando, estudando, ajudando e se solidarizando com homens e mulheres que procuram seus desaparecidos. Trabalho duro, penoso, doloroso. Um verdadeiro choro permanente, mas já sem lágrimas. O lema desta gente é “te buscar hasta encontrarte”. Em algumas regiões do país já é um privilegio quando matam uma pessoa e a jogam na rua. Pelo menos o corpo é encontrado imediatamente e dado a ele enterro digno.
Sepultura de palavras para os desaparecidos – a história dos buscadores do México, de Luara, trata exatamente do drama das pessoas tentando encontrar seus desaparecidos em Guerrero, uma das regiões mais violentas e perigosos do país. Para tanto, a autora não apenas vivenciou o dia a dia destas pessoas, como entrou na “cosmogonia” indígena para entender a origem, a evolução e os princípios de seu universo.
 
Uma dialética atroz persegue os buscadores de desaparecidos: uma enorme alegria quando encontram o morto ausente e, ao mesmo tempo, uma tristeza profunda pela certeza confirmada. E assim, desfiando seu rosário de dor, com tantas contas a contar, caminha o povo de Guerrero na luta para superar todo este quadro de terror.
 
A Polícia Comunitária, que se remonta aos tempos da conquista espanhola, é uma tentativa de solução para esta região. Escolhida pelos integrantes do povoado, ela dá segurança às pessoas, protegendo-as das organizações criminosas, do mau governo e da ganância das multinacionais. Embora não reconhecida pelo Estado, ela dá continuidade à luta de classes, fazendo parte dos de baixo.
Portanto, não são tempos de esperança para o Estado de Guerrero, mas sim de ira iracunda. Enquanto a esperança convida o ser humano a esperar, a ira o leva a se organizar. É o que acontece nesta região.
 
O livro de Luara é uma leitura obrigatória para entender esta parte mexicana, marcada por grandes conflitos desde que por aqui meteram os pés os conquistadores europeus. Tanto que os 43 estudantes de Ayotzinapa, assassinados pelo Estado em conluio com o crime organizado, vem da mesma Escola Rural de Lúcio Cabañas, o grande líder da guerrilha dos anos 1970. O povo daquela região, marchando pelas ruas da Cidade do México, agora, lembrava a quem quisesse escutar: Somos pueblo de Guerrero, no se olviden, tierra de guerrilleros.