A solução não está na eleição de 2018

5 de Fevereiro de 2018, por Giselle Zambiazzi

Mais de 70% dos trabalhadores ganha menos que três salários mínimos
Mais de 70% dos trabalhadores ganha menos que três salários mínimos

No Brasil, o salário mínimo ideal para sustentar uma família de quatro pessoas atendendo a todas as suas necessidades básicas deveria ser de R$3,9 mil. O cálculo é do Dieese em 2017. O que me espanta não são os quase quatro mil. O que me espanta é que quase a totalidade das pessoas arregala os olhos e acha que quase quatro mil é um alto e inalcançável salário.

O que me espanta é saber que quem ganha quase quatro mil se sente numa camada superior da sociedade. E essa pessoa simplesmente tem todas as suas necessidades básicas de sobrevivência, incluindo acesso a arte e lazer, supridas. Sem luxo, mas com uma vida boa.

No Brasil, ter necessidades básicas atendidas é privilégio.

Mas isso não espanta ninguém.

Será que a maioria dos trabalhadores brasileiros não recebe salário de quase quatro mil porque não trabalha o suficiente? Você, que não tem um salário desses, acha que não trabalha o suficiente para receber isso por mês? E você que ganha na faixa dos quatro mil: você acha que está trabalhando pouco e que deveria trabalhar mais para fazer valer seu salário?

Quem aqui acha que recebe um salário justo pelo que trabalha?

Isso é resultado daquilo que a economista Roberta Traspadini, no curso Estudos Latino-Americanos (https://goo.gl/zZH9mh), brilhantemente nos ensina. Isso é resultado da superexploração. E a superexploração é o coração do capitalismo.

O senso comum imagina que numa sociedade comunista, ninguém mais vai precisar trabalhar. Que todos irão ganhar tudo do governo e inclusive classificam programas como Bolsa Família como medidas comunistas.

Não há nada mais capitalista do que esse desejo pelo trabalho, ainda que seja por esse viés torto de julgar os outros de malandros. E programas como o Bolsa Família são sim medidas que atendem perfeitamente ao capital. É muito fácil provar isso.

Vamos lá: você que acha que na Suíça todo mundo é rico. Você acha que as pessoas na Suíça trabalham muito para terem todas as suas necessidades básicas atendidas desde o nascimento? Quanto você acha que é o salário da maioria da população suíça?

Vou dar um exemplo.

Enquanto que aqui no Brasil os “megaempresários” (ai, cafonice) do varejo brigam com pequenas cidades do interior para levar suas “megalojas” (vai uma quinquilharia qualquer aí?) para lá e com isso forçar o comércio local a estender seus horários e forçar todo mundo a trabalhar no domingo (sendo que o trabalhador não vai ganhar nem perto de três mil e novecentos reais por mês), na Suíça e em boa parte da Europa, é comum lojas não abrirem antes das 9h ou fecharem por volta das 16h30min. Mesmo em Zurique, considerada a cidade mais rica da Europa, o horário não passa das 18h30min. No interior, o intervalo entre 12h e 14h é invariável.

Há cinco ou seis anos, entidades e consumidores começaram a discutir sobre o horário do comércio. Sabe o que eles fizeram pra resolver o impasse? Um plebiscito! E sabe como resolveram? Nas cidades maiores, as lojas que quiserem, ficam abertas até as 20h um dia por semana. Aliás, na Suíça, praticamente tudo se resolve por plebiscito. (Mas você não é capaz de sequer tentar entender o que está acontecendo na Venezuela, né? https://goo.gl/xpD7f9).

Respondendo a uma pergunta que deixei para trás, o salário de mais de 90% dos trabalhadores suíços é de aproximadamente R$ 4 mil francos (alguma coincidência?).

Brasil é capitalista. Suíça é capitalista. Então por que tanta diferença entre os dois?

Porque essa é a essência do capital. Para que alguns estejam no centro, milhares têm que necessariamente estar na periferia. E o Brasil é periférico. A Suíça (leia-se os países centrais) só é como é porque o Brasil (leia-se países periféricos) é como é.

Programas como o Bolsa Família não são comunistas porque o capitalismo simplesmente precisa de algum dinheiro em circulação nas mãos dos pobres. Com um baixíssimo poder aquisitivo (https://goo.gl/TcHK9H), um salário mínimo que não atende nem mesmo às necessidades básicas, uma industrialização completamente precária e a concentração da terra nas mãos de poucos (https://goo.gl/e2FrS5), alguma coisa é preciso fazer para que uma importante fatia da população brasileira possa consumir, né? Ou nem o rentismo brasileiro (https://goo.gl/F26UAc) vai funcionar.

Assim, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, entre outros, dão uma fundamental lubrificada nas engrenagens do capital pra ele continuar rodando. E lucrando às custas da miséria humana e da desigualdade social. Fundamental. É a miséria que permite a superexploração para que o capitalista consiga auferir lucro (volta lá no curso da tia Roberta e agora assiste à aula 2).

Sabe porquê o Bolsa Família não tirou de fato milhões de pessoas da miséria? Porque o programa não veio acoplado de uma auditoria da dívida pública, que o governo do PT vetou na cara mole (https://goo.gl/a3KNYh). Ou seja: todo o dinheiro “distribuído” pelo Bolsa Família ou pelo Minha Casa Minha Vida aos pobres a cada mês é sugado em questão de horas (levanta a plaquinha da metáfora) pelo sistema da dívida. Mais e mais, mês a mês.

Para onde vai o dinheiro sugado pelo sistema da dívida?

Entre outros lugares, para a Suíça. Txaran!

Esse é um dinheiro que não volta mais. A gente nunca mais vai conseguir recuperar esse rombo, que só cresce. Não há deforma da previdência, não há deforma trabalhista, não há juizeco abobado com sua máquina de lavar a barra do Aécio que irá resolver essa questão. Porque a dívida consome tudo o que já tem e quer mais. Sempre mais (https://goo.gl/h7oBbG ou https://goo.gl/vwgGFu).

É esse sistema que nos impede de distribuir a riqueza que existe no Brasil, um país saqueado há mais de 500 anos e que ainda assim tem muito a oferecer. Portanto, segue sendo saqueado. É por isso que um salário que simplesmente atenda às necessidades básicas de um cidadão, não o deixando passar necessidades, oferecendo uma moradia digna, acesso a educação, cultura e saúde e ainda permitindo uns passeios diferentes nas férias, é tratado com deferência pela nossa sociedade, quando deveria ser, olha só, o mínimo.

Isso mostra porquê Lula não é solução para 2018 e tanto de um lado como de outro, tudo não passa de encenação e oportunismo. A solução para 2018 ou para agora ou já é a auditoria da dívida pública e o fim do rentismo.

Quem tem a coragem de ir pras cabeça mostrando como se faz isso hoje?