A utopia e o jornalismo – algumas notas

3 de Maio de 2018, por Elaine Tavares

Na notícia, onde estão as gentes?
Na notícia, onde estão as gentes?

O jornalismo é um fazer que se esboroa nesses tempos internéticos. Falo do jornalismo que produz conhecimento, que provoca o pensar, que desvela o que querem esconder, o que faz a análise do dia. Quase já não há. E quando há está em lugares longínquos ou em espaços alternativos, comunitários e populares, sem alcance massivo. Por isso, não é muito fácil, nos tempos atuais, falar em esperança ou utopia. Diante do niilismo que impera no mundo, fica quase risível insistir em idéias tão dinossáuricas. 

Mas o ponto de vista deste breve texto é sempre o da realidade da maioria da população e é para ela que nos propomos a fazer jornalismo de verdade, o que já é uma utopia em si. Neste sentido, compreendendo que a vida real se tece a partir desses dois fundamentos (utopia e esperança), vou insistir nos conceitos, tentando vislumbrar aqui alguma coisa nova, que torne o jornalismo ainda uma atividade possível e necessária.

Teixeira Coelho, no seu pequeno livro O que é Utopia começa com uma assertiva que julgo capital: um dos traços que caracteriza o humano é a esperança. E ele deixa bem claro que ter esperanças não é meramente sonhar ou esperar passivamente. Ter esperanças é usar a imaginação utópica. “Ela não é delirante, nem fantástica. Parte de fatores subjetivos, mas guia-se por fatores objetivos”. Segundo Coelho, a imaginação utópica é um projeto, algo que se lança lá na frente para seguir o rumo de sua construção.

Para ele, é necessário que se pense de forma muito carinhosa acerca dos mitos que sempre estiveram presente na história humana camuflados de religião, tais como a “terra sem males” e o “paraíso”, pois eles continham, e ainda contém, elementos básicos do desejo de uma vida melhor. No plano das idéias, fora do juízo religioso, diz que o primeiro projeto utópico foi A República, de Platão. Na cidade dos homens imaginada pelo filósofo, o fundamento era uma vida ideal. Depois, Thomas More, com sua ilha Utopia, falava de um lugar em que todos trabalhavam para todos e o faziam apenas por seis horas. “Naqueles tempos isso era uma ilusão ( o trabalho por seis horas). Hoje é? Isso é imaginação utópica!”

Teixeira Coelho também lembra que a utopia nem sempre é uma coisa boa, existem desejos que caminham para o totalitarismo, a barbárie, como o que acontece com o Admirável Mundo Novo ou 1984, na ficção, e o Nazismo e o Stalinismo, na política real.  Por isso, vê a necessidade de impor dois conceitos no gênero utopia, que divide em eutopia (lugar bom) e a distopia (lugar mau).

Segundo ele, os primeiros traços da utopia vieram com os movimentos messiânicos que, em nome de Deus, reivindicavam vantagens sociais muito vagas visando garantir apenas o presente. Erns Bloch (1973) vai relatar uma dessas manifestações da utopia na história do líder religioso e revolucionário alemão Thomas Münzer, mas certamente não concordaria que seus ideais seriam “garantias sociais vagas”. Naqueles dias, no limiar do ano de 1500, Münzer vivia numa sociedade em ebulição, na qual os príncipes exigiam dízimos insuportáveis, os camponeses eram barrados nas cidades, havia muita miséria e opressão. Isso provocou nele o desejo de uma sociedade em que o homem não fosse mais lobo do homem. Levou ao impulso de justiça e à vontade impaciente de entrar no sonhado paraíso, provocou a revolução. “A luta não foi só por melhores dias, mas para alcançar o fim de todos os dias”, diz Bloch.

A revolta que estremeceu a Alemanha daqueles dias tinha sua carga de imaginação utópica. Havia o “sonho” de voltar à liberdade do mundo comunista-cristão, sem o domínio político de um papa cheio de pompa. Havia um “lá na frente” muito bem delimitado e possível. E mesmo depois de esmagada a revolução e assassinado o seu principal mentor, Münzer, sua negação do real injusto continua ecoando tão atual quanto em 1500. Ele morreu dizendo: “Enquanto os sem-nome estiverem perdidos na miséria, não pode haver descanso”. Ah, que frase tão atual quando os sem-nome são responsabilizados por destruírem e incendiarem prédios, responsabilizados por morrerem, culpados por querer morar. Não, não pode haver descanso.

Bloch conta que, para Münzer, o homem que chegasse ao fundo do abismo, na mais absoluta descrença e desespero, devia subir, tornar-se livre em Cristo, a partir da imaginação utópica. Estamos falando de um homem que ousou desafiar a toda poderosa igreja da Idade Média. “Só na mais profunda escuridão canta o rouxinol”, vaticinava. E finaliza a história da revolução utópica de Münzer dizendo que ela não foi em vão e que “por cima das ruínas e das esferas culturais arrasadas desse mundo, brilha altaneiro o espírito da indescaraterizável utopia”. O camponês alemão não é lembrado até hoje em vão. 

Mas, se até o tempo de Münzer a utopia era só um lugar mítico, o paraíso cristão, a revolução francesa vai inaugurar outro sentido para o conceito e a utopia passa a ser um lugar no futuro, possível de construído pelo homem. Um lugar novo, filho da revolução. Não mais o “paraíso”, mas um espaço de justiça. Séculos mais tarde o programa socialista/comunista radicalizaria o conceito e tornaria o futuro historicamente determinado pela mão dos trabalhadores, que, a partir de um processo o fariam acontecer.

Teixeira Coelho acreditava que o mundo caminhava para a distopia (lugar ruim) e que a desilusão tendia a se instalar. Mas, deixa claro que o que estava morrendo não era a utopia em si e sim a utopia exclusivamente política. E lembrava que a imaginação utópica não se limita a isso.  Ele escreve esse livro em 1981, mas seu argumento continua válido. Mesmo diante das profecias de fim da história, fim das ideologias, e todo o terror que assoma no mundo, há um excedente utópico que está para além da política, capaz de romper as muralhas e abrir caminhos para uma humanidade reconciliada. Aí está a esperança!

Pierre Furter, no seu livro Dialética da Esperança, vai trazer toda a argumentação do filósofo alemão Erns Bloch sobre essa palavra tão tripudiada nos tempos pós-modernos: a esperança, que de nenhuma maneira é só um sonho, um devaneio. A esperança cósmica de Bloch nasce de uma impaciência, voltada para uma revolução que vem, que está se fazendo, que é permanente. A utopia não é um lugar que está além, supra-físico, inatingível, é um espaço concreto no futuro, que pode ser construído a partir de uma práxis criadora.

Bloch toma a felicidade como estação de partida de seu trem utópico. Acredita que todo o esforço humano desempenhado na práxis desemboca por fim na plenitude do instante, na total alegria de existir. Mas, ao contrário de outros pensadores que enxergam esse momento de plenitude como o fim, a chegada, ele insiste que a felicidade é só o “fim do começo”. É ela que dá nova significação ao passado e se abre para o futuro, é esperança permanente. “O instante de felicidade nos obriga a tentar o impossível, a criar a felicidade com outrem, porque uma esperança não se vive sozinho”.

Essa idéia tão radical na esperança pode ser chamada de superficial ou “otimista demais”, como de fato é considerado o pensamento bloquiano. Mas, é preciso conhecer profundamente esse pensar antes de se sentir tentado a um riso de mofa. Ao contrário de ser um “otimismo superficial” a esperança é justamente um não sonoro ao real injusto, uma insurreição humana contra o natural. “Um protesto organizado e sistemático contra o deixar-ser, contra o conformismo”. A esperança é a direção, o lugar aonde se quer chegar, vai além da aposta, é contra o absurdo de um mundo sem sentido. Ela reanima o passado, ressuscita os mortos, orienta o presente e visa, no futuro, o sumo-bem. E esse sumo-bem nada tem de Deus, de sonho. É, isso sim, um lugar geométrico para onde convergem todas as esperanças, uma totalização em movimento, em processo.

Importante dizer que a filosofia da esperança de Bloch não é um sistema individual, a salvação do indivíduo sozinho. Sua beleza reside no fato de que quer construir um mundo não para a morada do ser, mas para a humanidade. Morada como casa, lar, e não como um abrigo para fugir da realidade. A esperança não é um bálsamo para as dores do presente. Ela é ferramenta de construção de um futuro bom, que envolverá a todos e que está visceralmente ligada à luta de classes. É o oprimido que tem esperanças e se levanta em rebelião. Com ele, caminha também o filósofo Martin Buber que afirma: no desejo utópico predomina o anseio pelo que é justo, que não pode se realizar no indivíduo, mas na comunidade humana. 

O princípio da esperança constituído por Bloch nasce do fato comum do homem ter consciência de que tem fome, e isso está dado na materialidade da vida do pobre, do trabalhador. Quando a fome chega, o ser humano trata de satisfazer essa falta e cria planos para mudar as coisas. É a partir da fome que surgem os primeiros esboços de uma coletividade de iguais – os trabalhadores oprimidos  - que se comunica: eu e o outro encontrando o caminho. A utopia parte desse princípio. É construção imaginária de situações que o homem quer que deixem de existir. É a vontade humana de ir além. Para Bloch, os sonhos acordados manifestam a fome psíquica pela qual o ser humano imagina o futuro e supera as dificuldades do hoje. 

É certo que o pensador alemão não é um tolo otimista. Ele sabe da legião de demônios que habita o humano e reconhece que o princípio da esperança pode levar ao erro, como já levou. Mas insiste que a superação das ambigüidades sempre se dá no conflito e no processo da práxis. Não é por causa dos demônios que moram em nós que vamos abdicar da utopia. “A imaginação é uma arma poderosa que serve para explorar todas as possibilidades". Assim que temos de tomá-la como instrumento de luta.
 
O princípio da esperança desenvolvido por Bloch parte do que ele chama de possível-dialético, que permite entender a atividade humana e o dinamismo da matéria. Nele, o homem orienta o dinamismo, estabelece um alvo. Assim, a transformação do real se faz possível porque já estava mudando. A intervenção humana só transforma essa mudança em desenvolvimento infinito. Bloch, assim, reconhece a realidade como imperfeição e possibilidade. Algo que já existe e o ainda-não. Para ele, a esperança não é uma fuga para a frente, mas algo que se radicaliza em função dos obstáculos que enfrenta. Democrático e amoroso, o filósofo alemão entende que, nesse processo, o contraste, o diferente, não é algo que se deva eliminar, e sim mudar. O outro não é o inimigo, mas adversário, e deve entrar no processo de afirmação plena da humanidade. Contra o niilismo que vai do não ao nada, Bloch propõe a esperança, que vai do não ao ainda-não.

Furter, seguindo as pegadas de Bloch, também afirma a concretude da esperança. “A utopia indica a alma, mas é preciso uma matéria onde se apoiar. Aí a esperança torna-se militante”. Ele lembra que, ao longo dos tempos, a utopia sempre foi ligada ao ridículo, ao inconquistável, mas que, ao contrário disso, ela tem uma função social importantíssima, talvez por isso negada. É que o pensamento utópico não esgota o real no momento imediato, exige mais do que está presente, é uma visão prospectiva do amanhã, uma forma de ação concreta. “A utopia deve ser julgada não por sua falta de realismo, mas pelo seu grau de negação da realidade, que contém o germe da transformação”.

Furter estabelece de forma bem simples as três funções do pensamento utópico:

1 – Manifestar aos outros a existência do possível através de tendências do real.

2 – Permitir a inteligência visualizar o real de maneira a descobrir as perspectivas da sua transformação.

3 – Introduzir a exigência da radicalidade dando um passo para o novo, numa atuação militante.

Assim, a utopia encarnaria a dialética antecipadora, uma superação do ser pelo devir, um modo de pensar o mundo que se distingue do idealismo por suas dimensões concretas. Com Bloch ele afirma que a esperança é do homem e não no homem, é uma caminhada sem garantia, com risco.

Mas no mundo pós-tudo haveria ainda lugar para a esperança? Seria ainda possível esperar quando tudo fracassou? É Bloch quem fala, das profundezas de sua radical e imorrível esperança. Ele reconhece o perigo do desencanto, quando a vida perde toda a finalidade, e vê nisso um problema a ser superado. Diz que quando o ser humano está desencantado e insiste em fazer algo só “por fazer”, aí se instala a estupidez. Mas há saídas, e Bloch as vê,  diz que o cansaço não é algo antropológico, é só a expressão social de uma desordem coletiva. “Os remédios devem ser políticos”, insiste. Uma lição para os nossos tempos no qual a política deixa de fazer parte da vida, como algo ruim, sujo. Não. A política é o espaço de ação do ser, e é nela que encontramos as saídas.

Viver no absurdo, ser castigado sem culpa, estas são questões que devem ser superadas através do pensamento utópico. Dizer não a isso, caminhar em direção ao que se sonha. “O mal é ação do homem, são escolhas que o humano inclusive justifica. Contra o mal devemos protestar, denunciar, lutar. Construir o futuro!, diz Bloch”

Pois bem, depois desse mergulho no pensamento bloquiano cabe então estabelecer a ligação entre a imaginação utópica, a esperança e a  prática do jornalismo. E aqui, é bom que fique claro, o que está em discussão é um tipo bem específico de jornalismo. O que se faz para a maioria, o que é serviço público, o que não capitula, o que não é cooptado pelo poder, o que se rebela, o que avança para uma sociedade de justiça, de fomes saciadas, de festa. 

E quando digo isso estabeleço que há outros tipos de fazer jornalístico e há. Neles estão embutidas visões de mundo diferenciadas, falta de visão de mundo, interesses, ideologias. O que me disponho a discutir aqui é o jornalismo como forma de conhecimento, tal qual ensinado por Adelmo Genro Filho, que busca desvendar e desvelar o mundo a partir de uma perspectiva utópica: a de negar o real imediato que é de fome, miséria, opressão, manipulação, corrupção, indiferença, desarmonia e, ao mesmo tempo, afirmar uma possibilidade, uma esperança. Na narrativa jornalística, promover o que Bloch chama de “caminho para trás”. Uma distância de si que analisa o passado e que, nesse narrar, recuperando a história (como historicidade e como narrativa), desperta desejos de mudança. 

Quando o jornalismo se dispõe a narrar a vida, descrevendo o que ela é, contextualizando, buscando na cultura os velhos mitos, já está caminhando na vereda da utopia. Porque a força poderosa da descrição viva do real pode acender o desejo de que aquilo que é, não seja mais. E pode mover homens e mulheres na direção do ainda-não. Esse é o jornalismo que está desaparecendo e sabemos por que. Falta aos textos dos jornais e das revistas a tinta da descrição. Falta o olho do repórter. Estar no lugar, ver, narrar, desvelar o que se esconde. Esse é um caminho de risco, sim. Nessa semana, no Afeganistão, nove jornalistas morrerem justamente porque foram no local do fato, ver com seus olhos. Mas, ou se faz isso, ou que se faz não é jornalismo. 

Fazer um jornalismo que narre a vida, com descrição e impressão do repórter, é a concretização do possível dialético de Bloch. A partir da palavra, entender a atividade humana e o dinamismo da matéria. Servir como uma cunha que vai rasgando a história, intervindo no que já estava mudando, não como mero instrumento, mas como sujeito que sonha e concretiza.

Quem no Brasil está contando as histórias dos trabalhadores, dos oprimidos, dos sem-teto, dos sem-terra, dos indígenas, dos negros, das mulheres? Quem está olhando amorosamente para realidade do caído? Quem está narrando? Poucos, muito poucos. Mas, ainda assim, são esses poucos os que movem a roda da mudança. Os que resistem, os que inventam, os que se arriscam.  E é neles que descanso minha utopia, de que o jornalismo siga existindo e se fazendo, para além da floresta de informações internéticas, notícias falsas e construção de preconceitos. 

Há vida, há braços e há jornalismo.